O Estado português paga prejuízos causados pelo lobo, mas fá-lo de forma tão ineficaz que acaba por alimentar o conflito que diz querer resolver.

O modelo atual assenta numa lógica aparentemente justa: há um ataque, prova-se o dano, paga-se ao produtor. O problema é que esta lógica não resolve nada. Limita-se a gerir o conflito, prolongando-o indefinidamente.

Funciona mal para os produtores, que enfrentam burocracia, atrasos e incerteza. E funciona mal para o Estado, que intervém sempre tarde, quando o prejuízo já aconteceu e o ressentimento já se instalou.

Não é política pública. É gestão de danos.

Apesar das melhorias introduzidas pelo Programa Alcateia 2025–2035, o essencial permanece inalterado: continuamos presos a um modelo reativo, centrado na prova do prejuízo, em vez de um modelo preventivo, orientado para reduzir o risco.

E isso tem consequências.

Quem vive e trabalha nos territórios com presença de lobo não enfrenta apenas prejuízos pontuais. Enfrenta um risco permanente, uma pressão constante sobre a atividade e uma crescente sensação de abandono. Nenhuma política será eficaz se ignorar esta realidade.

O erro está na base do modelo: tratamos o prejuízo como um acidente isolado, quando na verdade ele é um sintoma de um problema estrutural.

Se queremos compatibilizar conservação e atividade económica, temos de mudar o paradigma.

O país beneficia da existência do lobo  em termos ecológicos, patrimoniais e até simbólicos. Mas o custo dessa opção recai quase exclusivamente sobre quem vive no território. Isto não é sustentável nem justo.

Onde há lobo, há condicionamentos. Há custos acrescidos. Há risco. E isso tem de ser assumido como um custo coletivo.

Isso implica evoluir para soluções mais inteligentes:
pagamentos baseados na presença de lobo, e não apenas no prejuízo;
incentivos eficazes à prevenção;
contratos plurianuais com produtores, que substituam a lógica de reação por uma relação de previsibilidade.

Não se trata de gastar mais dinheiro público. Trata-se de gastar melhor  e com mais impacto.

Hoje, o Estado paga quando há prejuízo. Amanhã, deve pagar para que o prejuízo não aconteça.

A diferença entre estas duas abordagens é a diferença entre uma política que corre atrás dos problemas e uma política que os antecipa.

Sem produtores no território, não há gestão da paisagem. E sem gestão da paisagem, não há conservação que resista, por mais protegidas que estejam as espécies no papel.

Continuar a insistir num modelo que sabemos que não funciona não é prudência. É inércia.

E a inércia, neste caso, paga-se cara: em dinheiro público, em conflito social e em perda de confiança no Estado.

Portugal já tem conhecimento técnico, experiência no terreno e exemplos internacionais suficientes para fazer melhor.

Falta apenas fazer aquilo que tem faltado até agora: tomar uma decisão política com coragem.