Circula por aí uma entrevista de José Gomes Ferreira em que a dada altura, para desenvolver o seu ponto de vista conspirativo, propõe o cenário: “se não houvesse incêndios num ano”. E eu pergunto aos leitores: se eu escrevesse aqui um artigo onde propunha como cenário “se a Lua fosse quadrada”, que crédito me dariam? Nenhum, porque era uma patetice. Mas damos crédito ao José Gomes Ferreira por continuarmos sem perceber que o cenário proposto é… impossível.
José Gomes Ferreira podia consultar os trabalhos do espanhol José Carrión que mostram como, desde a instalação do nosso bioma mediterrânico no quaternário, o fogo não abandonou a paisagem; ou podia consultar os trabalhos de “nuestro hermano” Ricardo Velez ou do nosso Paulo Fernandes, sobre adaptações ao fogo das nossas principais espécies florestais (talvez descobrisse que a cortiça não apareceu no Sobreiro porque 1 milhão de anos mais tarde o Homem inventaria a rolha); ou ainda do australiano Simon Connor, que a partir da Charca da Candeeira, estudou os últimos 14 mil anos de fogo na Serra da Estrela, e talvez ficasse surpreendido com os resultados: foram 14 mil anos de fogo. Ele e a maioria de nós…
Não há fogo em Marte. O fogo é um produto da vida. Por enquanto, por todo o Universo, só no planeta Terra conhecemos fogo. E se nalguns lados é raro, noutros, como na nossa geografia, ou seja, nas nossas condições naturais, é uma constante. Porquê? Há 5 zonas mediterrânicas no mundo: a nossa, o oeste dos EUA, o Chile, a África do Sul e a Austrália. Situam-se entre os desertos e as zonas temperadas todos eles, como nós estamos entre o Saara e a Alemanha. Ora, andando para o deserto, temos imensas condições para arder (tempo quente e seco), mas pouca ou nenhuma vegetação para arder. Andando ao contrário, para norte, temos tudo verde, mas não há condições para arder: na Alemanha chove mais no verão que no inverno… É aqui que se conjugam esses dois fatores naturais: a existência de vegetação e as condições para arder.
Algumas pessoas, percebendo isto, perguntam, contudo, porque então, estando na mesma situação que Espanha, Itália ou Grécia, arde mais aqui, neste país pequenino, que do outro lado da fronteira. As estatísticas mostram a predominância do problema do lado de cá da fronteira? É verdade. Mas basta olharmos para os dias que o nosso país vizinho tem vivido e para as reações a este flagelo com incêndios, para constatarmos que parece não existir uma fronteira. Com efeito, cá como lá se partilham máximas como a que agora circula “Para que los montes no ardam, necesitamos más cabras en los montes y menos cabrones en los despachos”; lá como cá se invocam bodes expiatórios como o lítio, os eucaliptos ou as alterações climáticas; lá como cá chovem críticas a políticos em férias; lá como cá reclama-se pela falta de meios, falta de coordenação, falta de comunicação, etc.
Então o que explica as diferenças estatísticas? A resposta continua a ser a natureza. A imagem que aqui partilho, combinando um mapa de densidade histórica de fogo com um instantâneo por satélite dos incêndios dos últimos dias, ilustra como não se trata de uma diferenciação pela fronteira administrativa. Consequentemente, não as leis, a justiça, o cadastro, as alterações climáticas, a piromania, etc., etc., que fazem a diferença. Porque não é Portugal que é diferente de Espanha. É o Norte e Centro de Portugal mais Galiza e Astúrias, ou seja é o Noroeste Ibérico (cuja natureza característica se baseia em zonas de elevada produtividade primária, dada a influência atlântica, e tipicamente montanhosa) que é uma coisa, e a restante Península Ibérica (de natureza mais quente, seca, plana) que é outra.
Se a natureza explica, porque teimamos a rejeitar a explicação e a enveredar por outras, tantas vezes absurdas? Porque ainda falta explicar aqui mais uma coisa que deturpa a percepão pública: as ignições, imensas e esmagadoramente humanas, à partida, rimam pouco com uma perspetiva natural. Temos, não obstante, que ter presente que há milhares de fogos, esmagadoramente provocados por humanos, onde quer que existam humanos (em todo o lado onde haja fumadores, bêbados, acidentes de carro, comboios, crianças a brincar sozinhas ao ar livre, fogo de artifício, linhas elétricas, lixo e vidros fora dos locais próprios, convívio e churrascadas, etc, etc, enfim, onde há pessoas…). Se os elefantes derrubam árvores, os coelhos abrem tocas, os castores fazem barragens, etc., nós fazemos fogo (a mudança brutal no padrão de fogo em África há 400 mil anos, pode mesmo ser a assinatura ambiental do surgimento do Homo sapiens)… É a nossa natureza.
Mas mesmo não considerando isso natureza, separando-a do Homem, continua a ser a natureza que explica os nossos problemas com incêndios. Reparem:
– os milhares de fogos de Inglaterra, 99% humanos, não são um problema porque não há tempo quente e seco – e o tempo é natureza…
– os milhares de fogos de Marrocos, 99% humanos não são um problema, porque há tempo quente e seco em demasia, e por isso é um deserto, não há vegetação, não há nada que arder… e isso, a vegetação e habitat, também é natureza.
– Portugal não é diferente por ter milhares de fogos ou por serem 99% humanos. Portugal é diferente porque ao contrário de Inglaterra ou Marrocos, cá alguns são um problema. E são um problema porquê? Porque repetindo o dito algumas linhas acima, não temos a natureza de Marrocos, sem vegetação, ou a natureza de Inglaterra, tempo cinzento, fresco e húmido… Temos a nossa, que nos traz coisas muito boas, como o sol e a praia por exemplo, mas que, parafraseando Ricardo Araújo Pereira, às vezes é filha da mãe, sendo o contexto propício para arder (o fogo não existe por si próprio, é um produto do seu contexto) um desses casos.
O texto vai longo e pode parecer derrotista: se a nossa natureza é arder, estamos condenados. Não é o objetivo nem é verdade. O objetivo é perceberem o fenómeno por uma perspetiva ecológica e sim, podemos e devemos evitar os problemas que temos com incêndios, só que isso implica ter consciência da natureza e já agora que não a podemos vencer, podemos é adaptarmo-nos a ela. E é certo que os nossos avós o conseguiram com sucesso ao longo de séculos. Como? Mudando o que podemos mudar: o combustível. Dito de outra forma, gerindo os matos. Eles faziam-no com gado, com resinagem, queimadas, caça, etc. Nós? Nós podemos fazer o mesmo. Mas eles tinham uma economia que fazia tudo isto como externalidade e que agora está em extinção? Sim, é verdade. Então das duas uma, ou revitalizamos tais economias, ou pagamos todos (a sociedade… se o problema é de Interesse Público tem que ser o público a pagar) essa externalidade – os tais serviços de ecossistema, que nem seriam nenhuma fortuna face a tantos milhões que gastamos para no fim estarmos à mercê da natureza – da chuva, do vento, etc. – e a ouvir histórias de que o planeta Marte afinal é verde e azul…