Em tom de diário, poderia escrever, desde pequena que gosto de passar pontes. Esteticamente, talvez tenha sempre apreciado a obra arquitectónica, com um certo deslumbramento pelo esfoço de uma construção suspensa, pela beleza da estrutura edificante. Tower bridge, Ponte Rialto, Ponte Vecchio, Ponte de Brooklyn, a nossa ponte 25 de Abril, a ponte D. Luís, a ponte de Niterói que me impactou, na altura com 6 anos, e a ponte da pista de carrinhos na feira popular.

As pontes ligam margens. Unem o que à partida está separado. Dão-nos a perspectiva de quem vê por cima, como se fosse voar com os pés no chão. E essa sensação de certa elevação traz provavelmente a boa sensação de um olhar de contemplação.

A ponte situa-se num espaço transitivo que possibilita atravessar de um lado para o outro. E aqui, pensando no significado simbólico, a ponte materializa a superação de uma prévia dificuldade de ligação. A palavra escolhida pela Julia Roberts que diz ao Javier Bardem, é precisamente attraversiamo, com o ímpeto de arriscar mergulhar e avançar na relação. Atravessar para ir mais além.

Criamos pontes psicológicas quando deixamos fluir a comunicação. Atravessamos e ultrapassamos desentendimentos que nos fazem sair de um só ponto de vista, tal aquele que a sós numa das margens mobiliza-se para atravessar para o outro lado, para ir ao encontro da perspectiva do outro.

Passar a ponte traz a esperança do que de bom se pode encontrar do outro lado. Resolver um problema ou iniciar uma nova etapa. É um lugar de conexão, entre pessoas e em alguns lugares, pensemos nas pontes fronteiriças, entre culturas.

No entanto, se para uns tem esse lado positivo de evasão e junção, para outros é um sufoco e desencadeador de medo. Para quem sofre de gefirofobia, transtorno psicológico que descreve as pessoas com medo de atravessar pontes e túneis, o medo aparentemente irracional pode ser fruto de uma situação traumática. Está associado muitas vezes à acrofobia (medo de alturas) ou claustrofobia (sensação de medo perante espaços restritos). Nestes casos, procurar uma psicoterapia é um meio para ultrapassar o constrangimento deste temor, que tantas vezes afecta o quotidiano mais do que devia.

Na clínica, são muito comuns os sonhos com pontes. Por vezes há sonhos recorrentes com esse cenário repetido de tempos em tempos. Sem poder generalizar uma interpretação isolada, pois um sonho deve sempre ser analisado no contexto da relação terapêutica e da história do sonhador, é comum estar associado a projecções pessoais relacionadas com a antecipação do futuro, com a superação, ou vontade de transpor uma etapa desafiante, seja a nível pessoal ou de uma relação vivida no momento. O estilo da ponte, a ponte ser sobre água, estar a ser construída ou a ruir, com quem se está, são tudo ornamentos do sonho para se interpretar no lugar de intimidade de uma sessão e não aqui o lugar para fazer interpretações selvagens e descontextualizadas.

O lugar comum do gosto de atravessar pontes é o lugar do encantamento de fazer a tal travessia. É o vislumbre de novas oportunidades. É o lado lúdico de andarmos lá em cima. Em resumo, por tudo isso, gosto de atravessar pontes.

anaeduardoribeiro@sapo.pt