Poder-se-á falar de tudo aos outros, sem qualquer censura? Não. Essa instrução introduzida por Freud, ao convidar o paciente a dizer tudo o que lhe vier à cabeça, só é possível numa sala de análise.
Não se deve falar tudo porque os outros não percebem tudo! Ouvem de acordo com aquilo que pensam e como sentem, de acordo com a sua história e seus preconceitos. E como tal, não são capazes de efectivar o exercício da neutralidade sem emitir qualquer seu juízo de valor. E, quando se ajuíza em casa não própria, ter-se-á sempre razão? Abarcar a história do outro, exige tempo e mais tempo; para ouvir a sério, para completar todo o quadro.
A intimidade tece-se num lugar de solitude. Os pensamentos e sentimentos podem oscilar em altos e baixos, certezas e incertezas, sim’s e não’s. A ambivalência, própria de quem se interroga e se submete a sentir por inteiro, precisa de viver oscilações nesse espaço silencioso que só diz respeito ao próprio. Quando comunicada para o exterior, dispersam-se fragmentos que apanhados pelos outros, fazem deles o que de si projectam precipitando-se opiniões e “saberes” que nem sempre correspondem àquilo que se passa verdadeiramente dentro daquele que partilhou esses bocados incompletos de pensamentos.
O ruído interno suscitado por momentos de dúvidas, que leva a desabafos (compreensíveis) com outros, por mais chegados e de confiança sejam, pode precipitar um ruído maior do que aquele que já ecoava e causava o frenesim interno.
O exercício de contenção em momentos de transitória angústia pode ser mais vantajoso que a dispersão para fora de algo que não está limado e circula em bruto, num rodopio de pensamentos e emoções ainda necessitados de serem mastigados. Por isto, falar com os seus botões é o primeiro passo conveniente a ser tomado. Dar tempo a si mesmo de organizar as suas emoções e as suas ideias.
Foi Nietzche quem primeiro fez a analogia entre o processo de pensamento e o processo de digestão mas na psicanálise foi Bion que estudou a fundo a teoria do pensamento e a dinâmica do aparelho de pensar. De forma simplificada, Bion pegou na metáfora digestiva para explicar como pensamentos crus são metabolizados pelo processo que ele denominou pela função alfa (α). A experiência sentida e percepcionada sem grande elaboração da acção do pensamento, pois os protopensamentos, espécie de material difuso de pensamento, tal material onírico nebuloso, é transformada num segundo momento numa capacidade mais substancial de pensar e capaz de atribuir um significado à experiência vivida ou ao sonho primeiro incognoscível ou aos ditos protopensamentos.
Esta função alfa surge primeiramente na relação da díade, em que a figura cuidadora funciona como tradutor das necessidades e angústias do bebé e, pela capacidade de rêverie da figura cuidadora, esta converte o que o bebé exterioriza de forma desorganizada num significado que apazigua e tranquiliza por conter aquilo que não era pensável mas, pela metabolização do cuidador, passa a sê-lo. – nada distante do que acontece muitas vezes dentro de uma sala de psicanálise, quando o psicanalista empresta o seu aparelho de pensar para a dinâmica intersubjectiva que se tece num diálogo que tanto procura significados como ressignificar experiências emocionais vividas.
É sorte encontrar com quem possamos partilhar a nossa intimidade, o nosso pensamento e entenda a nossa maneira de pensar, estar com quem fala a nossa língua, um idioma de cumplicidades próprias, com quem se estabeleçam intersecções de pontos em comum e aceitação das diferenças que não afastam mas complementam, mas, adultos como somos, com um aparelho de pensar amadurecido, com história relacional acumulada, é bom não estarmos dependentes da função de um cuidador que nos contenha a todo o tempo. Dar-nos um momento a sós, silêncio envolvente com tempo suficiente, é a possibilidade de ouvir a evolução do nosso próprio pensamento e aproximarmo-nos de compreender, na nossa intimidade, do que é a verdade interna. Depois, poderá ser ou não partilhado esse processo íntimo de pensar.
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