A desertificação do interior é tratada em Portugal como uma espécie de fenómeno natural inevitável, silencioso, entranhado. Um desfecho que se aceita com a resignação de quem assiste à erosão de um penhasco ou ao avanço do mar. Mas não é. O abandono do interior é uma escolha coletiva. E, por isso mesmo, é uma questão ética, política e cultural.
Metade do território nacional está a ser esvaziado de gente, de investimento e de futuro. Continuamos a falar de “coesão territorial” enquanto, ignoramos o grito silencioso de aldeias inteiras, onde já só há memórias e ervas daninhas. Continuamos a usar a palavra “sustentabilidade” enquanto deixamos ao abandono o que é, precisamente, mais sustentável: a vida com raízes, com laços comunitários, com ligação à terra.
Simone Weil filósofa francesa, escreveu que o maior drama do nosso tempo é o desenraizamento. Já Aristóteles via a polis, o espaço de vida coletiva, como condição natural do ser humano. O interior, com as suas freguesias e vilas, é precisamente esse espaço enraizado onde o humano ganha profundidade. Abandoná-lo não é só um erro estratégico é uma traição ao próprio projeto civilizacional.
Mas há quem, no silêncio do país profundo, tenha recusado essa traição. Falo, por exemplo, do meu avô, João Viegas Nabais. Homem do Soito, concelho do Sabugal, distrito da Guarda, filho de uma terra dura, fria e isolada. Podia ter seguido o caminho fácil e partido. Mas escolheu ficar. E não apenas ficar: agir.
Com a resiliência de um empreendedor com consciência social, e uma visão rara para o seu tempo, fundou um colégio num território que, nos anos em que o fez, ainda lutava com a carência de tudo menos de dignidade. Não o moveu o lucro. Moveu-o a convicção de que era possível, contrariar o destino traçado para o interior: o da irrelevância.
Aquele colégio, mais do que um edifício, foi uma semente. Um gesto de confiança no valor da terra. Um antídoto contra o facilitismo do abandono. Porque, sim, abandonar é mais fácil do que resistir. Mas resistir, a longo prazo, dá frutos.
O exemplo do meu avô não é único. O país está cheio de pequenos grandes atos de resistência local. Mas continuam invisíveis, como se a centralidade só existisse entre o Terreiro do Paço e a Avenida dos Aliados. Chegou a hora de rever o mapa mental do país e perceber que o interior não é uma periferia, é o coração esquecido de Portugal.
O que está em causa não é apenas uma lógica de desenvolvimento regional. É o que deixamos às gerações futuras. Um país que desiste de metade de si próprio, contradiz qualquer discurso sobre justiça intergeracional. Que futuro construímos, se recusamos cuidar do passado que nos sustenta?
O combate à desertificação, não pode ser um anexo das políticas públicas. Tem de ser prioridade. Há soluções: incentivos à fixação, teletrabalho, investimento em cultura e infraestruturas, cooperação transfronteiriça, descentralização real. Mas nenhuma delas terá impacto, sem uma mudança profunda na forma como o país olha para si próprio.
O interior não está condenado. Está esquecido. E lembrar não chega. É preciso agir.
Se queremos um Portugal inteiro, e não um país amputado, temos de reaprender a plantar raízes. Tal como o meu avô fez. Num tempo difícil, com poucos meios, mas com a coragem de acreditar que a terra merecia mais.
Hoje, cabe-nos a nós continuar esse gesto.