A decisão de Donald Trump de atacar as instalações nucleares do Irão era, provavelmente, desde o início deste programa nuclear, inevitável. Tal como uma grande parte do mundo, Washington há muito que se mostra preocupado com a evolução das capacidades nucleares iranianas, especialmente após as instalações de Fordow terem sido descobertas em 2009.
Com Israel a infligir consideráveis danos iniciais, que enfraqueceram tanto o programa nuclear como as defesas aéreas do Irão, é compreensível que Trump tenha aproveitado a oportunidade para tentar concluir o trabalho. A extensão dos danos ocupa uma posição de segundo plano, sendo pouco relevante se o programa tenha sido completamente aniquilado, visto ser consensual que terá sofrido um recuo substancial. A grande questão é: o que se segue?
O Irão vinha já a alertar os Estados Unidos para os riscos de se envolverem no seu conflito com Israel. Essa linha vermelha foi claramente ultrapassada, e agora cabe a Teerão decidir os próximos passos. Apesar de enfraquecido pela confrontação com Israel, o regime iraniano ainda dispõe de opções.
As forças armadas e infraestruturas militares americanas no Bahrein, Qatar e Iraque estão ao alcance do Irão ou dos seus grupos aliados. Também não se pode descartar a possibilidade de atentados terroristas iranianos em solo americano ou contra interesses dos EUA no estrangeiro. Encerrar o Estreito de Ormuz – medida que o regime iraniano pondera implementar – poderia paralisar o escoamento de petróleo do Golfo e afetar severamente a economia mundial. A resposta da Casa Branca a qualquer uma dessas ações deverá ser rápida e implacável.
Neste momento, é provável que o regime iraniano esteja indeciso quanto ao que fazer. Sabe que retaliar contra os EUA terá um custo elevado, mas teme igualmente que não responder possa ser interpretado como fraqueza e venha a encorajar novos ataques – ou mesmo uma campanha sustentada para derrubar o regime.
Alguns no seio do poder iraniano poderão estar a contar com a conhecida aversão de Trump a guerras prolongadas e a concluir que uma resposta não teria consequências graves. Seria, certamente, um erro de cálculo monumental. Mas o regime iraniano tem o historial de jogar mal as poucas cartas que tem.
Para já, Washington parece satisfeito com o que conseguiu e não demonstra vontade de se envolver num confronto prolongado com o Irão, a menos que seja provocado a tal. Ainda assim, os EUA poderão voltar à carga se os relatórios de danos indicarem que é necessário fazer mais para enfraquecer decisivamente o programa iraniano.
Para alguns, isso não será suficiente. Entre ”falcões” na administração Trump, no Congresso e em Israel, haverá quem veja nesta ofensiva uma oportunidade única para lidar de uma vez por todas com a República Islâmica, pressionando para uma mudança de regime. As vozes que defendem ataques ao Líder Supremo e uma ofensiva militar prolongada até ao regime cair têm vindo a ganhar volume – e continuarão a fazê-lo, sobretudo se os EUA forem arrastados para um conflito mais duradouro.
Este plano, quando apresentado em meia-dúzia de linhas nas redes sociais, parece simples. Contudo, tem tanto de simples como de humorístico. Apesar da pressão a que está sujeito, o Irão não é o Iraque de Saddam Hussein nem a Líbia de Muammar Kadhafi. O aiatola Ali Khamenei é, sim, a figura máxima da hierarquia iraniana, mas o seu poder advém do cargo – o de Líder Supremo – e não da sua pessoa. A República Islâmica atual não gira em torno de um culto de personalidade. Khamenei poderia ser substituído sem grandes dificuldades.
E mais: falar em “mudança de regime” levanta a questão inevitável – mudar para quê, para quem? Não há alternativas promissoras à espera nos bastidores. Neste momento, uma mudança de regime significaria o caos – e não um caos propício a uma verdadeira alteração ao regime.
Os ataques americanos comportam risco de escalada, mas também podem ser o início de uma saída. Depois de ter atacado o preocupante programa nuclear iraniano, talvez os EUA tenham reaberto a possibilidade de pôr fim ao conflito atual. No mínimo, reabriram a porta a uma solução diplomática. O Irão tem insistido na defesa do seu direito ao enriquecimento de urânio, mas o custo desse direito aumentou drasticamente. Se o objetivo não for mesmo fabricar armas nucleares, valerá assim tanto a pena lutar por autossuficiência em combustível nuclear? E será que ainda resta um programa de enriquecimento digno de proteger, caso as negociações diplomáticas sejam retomadas?
No fim, qualquer regime que ambicione manter-se no poder, seja uma república teocrática ou uma democracia liberal, precisa de gerir cuidadosamente a relação entre autoridade e violência. O verdadeiro teste de um Estado não está apenas na sua capacidade de a exercer, mas sobretudo na sabedoria com que a contém. Porque, em última instância, o controlo da violência não é apenas uma função do poder: é a sua essência.
O Irão encontra-se numa encruzilhada, talvez mesmo numa de natureza existencial. Quererá o regime envolver-se numa guerra com os EUA e Israel? Ou estará disposto a recuar, para poder viver e lutar outro dia? Em 1988, o Irão enfrentou um dilema semelhante quando aceitou as condições de pôr fim à guerra com o Iraque. O então Líder Supremo, aiatola Khomeini, comparou o acordo a “beber de um cálice de veneno” – mas acabou por aceitá-lo, por considerar que a sobrevivência do regime estava em causa. Talvez este seja o momento de outro cálice.