No passado dia 20, o Primeiro-Ministro canadiano, Mark Carney, subiu ao pódio no Fórum Económico Mundial, em Davos, com uma mensagem central: o mundo, tal como o conhecemos, acabou. O discurso que procurou fundir realismo e resolução partiu de um diagnóstico correto: a ordem internacional que moldou as últimas décadas está a fragmentar-se, e os países de média dimensão — como o Canadá — enfrentam um mundo mais duro, mais transacional e menos previsível. Contudo, para quem observa a política canadiana a partir de dentro, as palavras de Carney, embora lúcidas, deixam uma pergunta: estará o Primeiro-Ministro preparado para agir de acordo com a realidade que ele próprio descreveu, ou estamos perante mais uma encenação de soberania?
Carney reconheceu algo que durante muito tempo foi tratado quase como heresia política: a chamada “ordem internacional baseada em regras” nunca foi aplicada de forma simétrica. As grandes potências sempre se reservaram o direito de ignorar regras quando lhes foi conveniente. Essa “ficção útil”, como lhe chamou, garantiu estabilidade durante décadas, mas está agora a ruir, à medida que a integração económica é cada vez mais usada como arma geopolítica.
Até aqui, o diagnóstico é lúcido. O problema começa quando se passa da análise à ação, já que o realismo exige mais do que diagnósticos; exige a coragem de escolher um lado.
É aqui que a retórica de Carney colide com a prática. No seu discurso, defendeu um “realismo baseado em valores”, algo que soa a uma contradição de termos, pois um verdadeiro realista sabe que a moralidade tem pouco peso quando o interesse das grandes potências está em jogo. A incoerência tornou-se evidente na sua recente aproximação a Pequim. Depois de ter classificado a China como a maior ameaça à segurança do Canadá, Carney concluiu negociações bilaterais com o regime de Xi Jinping. Ao ser questionado em Davos sobre se a China representa uma ameaça no Ártico — onde Pequim se autoproclama uma potência “quase-Ártica” e colabora com a Rússia — Carney hesitou, limitando-se a apontar o dedo apenas a Moscovo.
Como pode o Canadá liderar uma coligação de potências médias se, ao mesmo tempo, cede perante a influência de uma autocracia que atenta contra os valores que diz defender?
Reconhecer que o mundo mudou é importante. Mais difícil é admitir que o Canadá chegou a esta nova era menos preparado do que poderia. O país enfrenta hoje fragilidades internas evidentes: forças armadas subfinanciadas, recursos naturais subaproveitados, barreiras ao comércio interno que persistem há décadas, níveis de dívida extremamente elevados, uma crise habitacional severa e uma pressão crescente sobre serviços públicos. Estes problemas não surgiram subitamente com as recentes tensões globais; foram-se acumulando ao longo do tempo, fruto de opções políticas concretas.
Carney falou da necessidade de rejeitar a nostalgia. Mas, para muitos canadianos, a nostalgia não é ideológica — é material. Refere-se a um passado recente em que a habitação era acessível, o custo de vida mais controlável, as ruas mais seguras e os serviços públicos menos sobrecarregados. Se o Primeiro-Ministro quer ser levado a sério na arena internacional, precisa de resultados internos imediatos, tais como o fim do bloqueio a projetos de exploração mineira e gasodutos que garantam independência económica, e o desmantelamento de oligopólios que estrangulam a economia. Ignorar esse sentimento é não compreender o terreno político e social sobre o qual qualquer estratégia de soberania terá de assentar.
Mark Carney não pode esperar que o anúncio de novos projetos ou a criação de burocracias resolva uma década de inércia. As palavras não protegem fronteiras nem pagam rendas. O ensaio de Václav Havel que ele citou avisa que o poder sobrevive através do fingimento coletivo. A verdadeira força começa quando os líderes deixam de apenas dar nome à realidade e passam a agir sobre ela de forma decisiva. O Primeiro-Ministro claramente compreende a natureza do problema. Resta saber se está disposto a enfrentar as suas causas internas e as suas contradições externas. Entre reconhecer a realidade e agir sobre ela vai toda a distância que separa a retórica do poder efetivo. E é nessa distância que o Canadá será, ou não, capaz de se afirmar num mundo cada vez menos indulgente.
O Canadá está num momento de definição e, entre o isolacionismo e a subordinação, Carney propõe um terceiro caminho que ainda carece de substância. No fim de contas, o mundo continua dividido entre democracias liberais e coligações de ditaduras totalitárias. A escolha deve ser clara. Resta saber se Carney terá a coragem política de a assumir, ou se continuará a ser apenas o merceeiro de Havel, trocando apenas a frase do cartaz na janela.