A entrada em cena de João Cotrim Figueiredo mudou a corrida presidencial à direita. Tornou-a mais exigente para quem quer de facto passar à segunda volta. O liberal apela diretamente aos mais jovens, é particularmente capaz entre os pais (35 a 44 anos), fala diretamente à classe social mais alta, é disruptivo o suficiente para confortar os que querem outra coisa, e conhecido que baste para não ser um absoluto tiro no escuro.
São várias interseções com os candidatos que pareciam em melhores condições de reunir votos nessa grande família chamada ‘direita’. As duas mais recentes sondagens, com diferenças na hierarquização dos candidatos, apontam num mesmo sentido: João Cotrim Figueiredo está a conseguir afirmar-se e a crescer nas intenções de voto. Fura entre eleitores de Mendes, de Gouveia e Melo e de Ventura. Longe de ser imbatível, porque não o é, o antigo presidente da Iniciativa Liberal está a oferecer ao mercado algo que os concorrentes não estavam a conseguir oferecer. Só isso é um mérito.
E não é o único. Sem muito a perder — Cotrim já provou mais do que uma vez que vale mais do que o próprio partido e vai saltando de eleição em eleição conforme as necessidades e os humores —, o candidato vai inevitavelmente obrigar os adversários a definirem-se. Já não basta ser mais ou menos o anti-Marcelo, mais ou menos o anti-Ventura; é preciso dizer qualquer coisinha ao e sobre o futuro do país.
Luís Marques Mendes percebeu-o antes de todos e, experiente, tem feito marcação cerrada a João Cotrim Figueiredo. Henrique Gouveia e Melo apareceu no debate achando que bastava ler umas cábulas e foi o que se viu. André Ventura sabe o que tem de fazer e vai fazê-lo como só ele sabe fazer: falar para os seus, mobilizar os eleitores do Chega e tentar garantir que passa à segunda volta; mas no frente a frente com Cotrim terá de fazer mais do que atirar aos “últimos 50 anos”.
Marques Mendes, assim o dizem as sondagens, terá dois debates decisivos pela frente: contra Henrique Gouveia e Melo e João Cotrim Figueiredo. Superando os adversários (ganhar ou perder é sempre uma questão subjetiva, mas a impressão conta), ficará em boas condições de passar à segunda volta. Estancando a sangria de eleitores para estes dois, a onda da AD deverá fazer o resto. Terá ainda de sobreviver a Ventura sem claudicar e sem perder a pose. Não é fácil, mas também não é impossível. Antes dele, outros conseguiram.
Nesta pré-campanha eleitoral, que se arrasta há meses mas só agora prendeu a atenção de quem importa — os eleitores —, a incerteza parece ser a única regra do jogo. Tudo indica que os debates serão muito importantes para consolidar ou enfraquecer candidaturas. Ventura, primeiro, e Cotrim, a seguir, elevaram a exigência argumentativa e cénica desses momentos. Já não é uma luta a três, nem a quatro. É mesmo uma luta a cinco. E surpresas acontecem, como resumiu recentemente Rui Rio, mandatário de Gouveia e Melo, ao Observador: “Isto é como o Benfica ir jogar com o Penafiel e perder. Isto não é dois mais dois igual a quatro”.
Ninguém sabe exatamente como vai acabar. A única coisa que parecia matematicamente certa — atendendo à distribuição de votos nas legislativas e à fragmentação da direita — era a passagem de António José Seguro à segunda volta. As sondagens não apontam nesse sentido, até porque continua sem grande margem à esquerda e tem Henrique Gouveia e Melo a pressionar entre eleitores do PS. O socialista sobreviveu ao teste ‘Ventura’ e continua a fazer aquilo que o staff que o aconselha disse ser a melhor das estratégias: manter-se tão esfíngico como o melhor que há no Cairo. Pode resultar. Mas é curto e, sobretudo, muito arriscado.