I. Os pressupostos de um oculto mercado

Um pouco por toda a parte, a indignação voltou a desempenhar um papel relevante na agenda mediática.

Numa adaptação moderada, porque os tempos são felizmente distintos, os movimentos de indignados recordam-nos o período em que, sob os ecos da crise das dívidas soberanas, os movimentos de contestação ocupavam, então com grande fulgor, o centro do debate e as ruas das principais cidades portuguesas e europeias.

No entanto, essa mesma indignação, outrora vista como uma reação espontânea e assente num forte pendor ideológico – quase sempre por parte da esquerda política – assume, agora em definitivo, a feição de um verdadeiro mercado, no qual o valor de cada causa passou a ser medido pela sua capacidade de gerar, alternativa ou conjugadamente, tração algorítmica e retorno reputacional.

Afinal de contas, neste verdadeiro mercado, cada vez menos oculto, tudo é um meio de revelação da indignação, pautando-se o seu funcionamento, nada mais nada menos, senão pela ancestral confluência entre oferta e procura.

II. O marketing das virtudes

Uma das características mais evidentes do mercado da indignação pode derivar-se do conceito de “virtue signaling” – particularmente popularizado pela esquerda política, tanto na Europa como nos Estados Unidos da América.

No essencial, está em causa um tipo particular de manifesto público em prol de causas particularmente populares e quase sempre ligadas à conjuntura, todavia sem que, de forma efetiva, exista um compromisso real com a própria causa – no limite, falamos de causas que, pela sua própria popularidade e abrangência, se tornam facilmente apropriáveis pelos participantes no mercado da indignação.

Sendo certo que o “virtue signaling” esteve inicialmente ligado ao “greenwashing” empresarial, a realidade encarregou-se de evidenciar o seu potencial de aplicação ao funcionamento do mercado da indignação.

Nas redes sociais, nos media em geral e até mesmo junto de algumas ONG’s vemos exemplos de causas tão distintas como o clima, os direitos humanos ou a igualdade de género serem instrumentalizadas, muitas vezes por parte de indivíduos ou grupos que, num curto espaço de tempo, abandonam o palco mediático assim que o algoritmo dita a obsolescência da respetiva causa.

De forma cada vez mais frequente, o funcionamento deste mercado da indignação acarreta um perigo assinalável e ao qual não tem sido oferecida particular atenção: o facto de poder contribuir para a banalização de causas estruturantes e, ao mesmo tempo, para a saturação do discurso público, onde o verdadeiro impacto das ações dos indignados é, a todos os títulos, de relevo questionável.

III. A luta pela pole position da indignação

A competição entre grupos e indivíduos para ocupar um lugar de maior destaque no espaço público da indignação – ou seja, no dito mercado da indignação – é também uma realidade cada vez mais evidente.

Todavia, esta autêntica hierarquização de causas, onde se discute quem sofre mais e quem tem mais legitimidade para se indignar, é, cada vez mais, geradora de divisões e fragmentação nos movimentos sociais, ao ponto de criar divisionismos entre setores que, pelo menos em teoria, deveriam partilhar o mesmo espetro de intervenção.

No caso português, seja a respeito da crise climática ou da mais recente crise da habitação, temos visto disputas mediáticas recentes onde diferentes grupos tentam, de forma literalmente aberta, monopolizar a atenção pública, reivindicando uma autêntica pole position na respetiva narrativa da urgência.

Ao invés de um debate dialógico, próprio da sociedade aberta, este tipo de posicionamento visa, quase sempre, servir de subterfúgio para estruturas monolíticas – veja-se o caso dos partidos da extrema-esquerda e a sua expressão sindical ou em alguns dos referidos movimentos de indignados – fomentando o crescimento de um ambiente onde a indignação se torna pouco mais que uma luta pela sobrevivência.

IV. A economia subterrânea dos ativismos 

Os ativismos, seja qual for a sua força-motriz, são movimentos cuja existência se deve inquestionavelmente aceitar em Estado de Direito, em particular sempre que seja notória a existência de algum défice de condições de igualdade face a indivíduos, estruturas de poder institucionalizado ou interesses corporativos consolidados.

No entanto, as dinâmicas menos visíveis dos ativismos, como o seu financiamento, as redes de apoio, as alianças estratégicas e as próprias rivalidades internas, são igualmente importantes para que se estabeleça uma destrinça efetiva entre os verdadeiros ativistas e os profissionais do ativismo.

Afinal, tal como sucede em qualquer mercado, também no ecossistema dos ativismos existe uma verdadeira circulação de “capital simbólico” – prestígio, acesso a plataformas, convites para eventos – que alimenta o ecossistema e a cujo nível os ditos profissionais do ativismo são geralmente os agentes que mais capitalizam, em benefício de projetos pessoais ou carreiras políticas.

Salvo honrosas exceções, a transparência e a accountability dos movimentos mais conexos ao ativismo – frequentemente financiados por organizações internacionais de credibilidade discutível ou, noutros casos, por via de subvenções públicas opacas – têm sido desconsideradas ou negligenciadas no debate público, quase sempre com a justificação segundo a qual a sua exigência seria sinónimo de (mais) discriminação ou desconsideração.

Pelo contrário, num Estado de Direito, a legitimidade de toda e qualquer intervenção na esfera pública, seja qual for a respetiva orientação filosófica ou ideológica, é indissociável da clareza sobre quem a financia e quem (e de que forma) utiliza determinada fatia de recursos (ainda que privados) para a promoção de atividades que inevitavelmente assumem expressão pública.

V.Um  futuro turbulento 

Não obstante a sua relevância, tanto à escala global como no caso português, o mercado da indignação está a passar por um período conturbado.

Tendências sociais como a polarização ideológica, a fadiga dos modelos clássicos de indignação (vejam-se as greves em serviços públicos essenciais), o surgimento de novas plataformas digitais e o papel da inteligência artificial na manipulação do discurso e das próprias causas são fatores a considerar.

O risco que corre o mercado da indignação tem já adesão à realidade: a conversão definitiva da indignação num espetáculo de mercantilização de pequenas moralidades setoriais, onde a eficácia de uma causa é sacrificada no altar da sua visibilidade perante pequenos grupos ou, mais uma vez, nas próprias redes sociais.

Nesse aspeto, e apelando à ideia sugerida pelo título do presente artigo, não deixa de ser curioso o facto de os principais protagonistas do mercado da indignação apresentarem, porventura agora com maior clareza, todas as características dos mercados que criticam.