1 Estamos entre um tempo e outro. Desfasados, portanto do que já não é e ainda não é. Com surpresa – para uns mais, para outros menos – eis os nossos instrumentos de observação e análise a embater brutalmente com os procedimentos – todos os procedimentos e não só os geoestratégicos – que têm feito uma “fracassante” entrada em cena: disruptiva na sua imprevisibilidade anunciada (não é um paradoxo) e ostensiva na desenvoltura com que ousa – e usa – a imprevisibilidade e a arrogância.
Mesmo que aquilo a que assistimos com pasmo tenha já acontecido no passado – até em piores condições como no Panamá e escolho apenas este exemplo –, estando já inscrito na História, talvez nada tenha porém acontecido “assim”. E por isso nos seja tão estranho este tempo novo onde o ar foi tomado por um confuso desnorteio. Balança-se entre a certeza dos factos e a dúvida arrastada pela incerteza: o que aconteceu hoje com (estarrecedora) naturalidade poderá amanhã ter a condição de tábua de lei? Aniquilar-ser-ão os tempos e modos eleitos como decentes e por isso por nós escolhidos e praticados? Duvido – que outro verbo usar? – que alguém esteja municiado para responder e depois para agir por entre o denso nevoeiro que baixou sobre o mundo onde costumávamos viver. O de ontem. (Quem diria que tal como Stefan Zweig eu poderia vir um dia a dizer, com alta verosimilhança, o meu “mundo de ontem”? )
2 Parece que só falo da “Venezuela” sem falar da Venezuela. Não é bem assim: o choque pelo rapto de Nicolás Maduro foi impressivo e nada o diminuirá muito menos as boas intenções. Sucede porém que tudo o que tornou possível esta “Venezuela” com que convivemos intimamente há dias, já estava em curso; a estranheza vinha fazendo um caminho, as regras, os códigos e os comportamento desviavam-se do praticado há décadas; a perplexidade expectante perante avisos de “intervenções” e anúncios de “sujeições” adensava-se como o nevoeiro que agora desceu.
3 Um começo de ano duríssimo. Atordoam-nos com o “já vimos isto, já aconteceu isto, já vivemos isto”, mas houve algo de novo pelo que revelou: uma infinita capacidade de arrogância – eu sei, eu quero, eu posso, eu mando; a exibição não menos forte nem infinita de uma segurança pessoal acima de leis, países e gentes; uma cada vez mais reiterada humilhação daquilo que somos, representamos e defendemos como participantes e praticantes da Europa.
4 Não que eu não esteja consciente do enquadramento que “recomendou” esta acção norte americana: da realidade letal da droga naquelas paragens que incessantemente transita para dentro dos Estados Unidos; da dependência malsã de Cuba da Venezuela; da indispensabilidade de um “sinal” à China de que os Estados Unidos podem e sabem fazer o que fizeram. Não desconheço obviamente que Maduro é porventura o pior dos homens, o mais abjecto dos presidentes, o mais temível dos torturadores, o mais indecente protector, traficante e mandante de carteis da droga; ou que ignorasse que a Venezuela se tornara um dos países mais pobres e esfaimados do mundo depois de ter sido um dos mais ricos. Mas.
5 E tudo o resto agora são agora perguntas sem respostas. Podemos não vir a gostar delas ou não saber vir a lidar com elas: muito provavelmente não serão do nosso mundo.
Não me ocorre outra condição de mim mesma neste momento senão a de uma espécie de quase sem abrigo de propósito e destino: o nevoeiro não deixa ver nem um nem outro.
PS1: A Federação pela Vida enviou recentemente a nove dos candidatos às próximas eleições presidenciais um questionário com onze perguntas sobre questões ditas “fracturantes”: aborto, eutanásia, a maternidade em risco, barrigas de aluguer, além de outras sobre educação e liberdade de consciência. Como escrevia a Federação em comunicado, trata-se de “questões estruturantes que nos últimos 30 anos têm galvanizado o debate político na sociedade portuguesa e internacional. E que continuam na ordem do dia.” É tudo verdade. Sucede porém – e por isso deixo noticia – que nenhum dos candidatos respondeu a não ser Gouveia e Melo, que respondeu a dizer que… não respondia. A mudez foi mais forte que os muitos contactos institucionais e pessoais levados a cabo durante semanas para que as respostas dos candidatos vissem a luz do dia. Não viram. Mau sinal.
E por isso, só relembro isto: talvez ninguém tenha dado por isso no ar da media e no céu do país, mas houve pelo menos um milhão – eu diria mais ainda – de portugueses que votaram não no referendo sobre o aborto. Ou que nunca se viram representados por alguém que, como eles, não concordasse com o sim a uma boa soma de aprovações em matérias de facto fracturantíssimas na sociedade portuguesa. Cada um interpretará o silêncio dos corredores à meta presidencial como quiser. A noticia é que nenhum respondeu. Não por falta de tempo. Ainda menos por acaso.
PS2: É capaz de ser de facto inquantificável o que o PSD deve a Conceição Monteiro. Lealíssima, fidelíssima, perspicaz, atenta, disponível non stop, bem disposta. E justa: acolhedora com a gente boa e a gente séria, severa com os vendilhões do templo. Foi muito mais, mil vezes mais, que uma secretaria, condição em que começou a trabalhar no gabinete de Francisco Sá Carneiro no início do então PPD: foi uma colaboradora permanente, ou melhor foi “a” colaboradora de todas as horas. Dotada de invulgar perspicácia, excelente observadora, conhecia a natureza humana como a palma da sua mão, lidando com ela com também invulgar – e invejável – mestria. Era os olhos e os ouvidos do fundador e primeiro líder do PSD, a confiança entre ambos nunca conheceu a mácula nem teve intervalos. E assim a Conceição se manteve, sempre de pé como um cipreste, na glória das vitórias, na aspereza das traições, no infortúnio das derrotas, na rotina dos dias, até a morte de Sá Carneiro.
Lembrando se de tudo isto com a sua memória de elefante, e atento ao mérito da historia pessoal e política desta mulher de excelência, o Presidente da República condecorou há dias Conceição Monteiro. Cerimónia íntima e familiar antes do mais, ternura no olhar do Marcelo – há quanto tempo não se conhecem ambos? – emoção e gratidão no sorriso de Conceição.
Eu agradeço-lhe: testemunhei muito, vi do que foi capaz, admirei-a em muitíssimas ocasiões. Devia-lhe estas linhas também elas contagiadas pela emoção do que me trouxe a memória ao escrevê-las. Querida Conceição.