O desencontro entre intenções e acção é tradição portuguesa. Muro intransponível entre as ideias e a sua concretização, como o meu Mestre João Cid dos Santos referiu na década de 60. Não podia ser mais elegante e certeira a caracterização desta idiossincrasia nacional. Como médico e perante os problemas que se prolongam na Saúde, reconheço quão realista e premonitória foi essa observação. Mas também no exercício de cidadania informada, perante catástrofes naturais como as tempestades Kristin, Leonardo. E os fogos florestais deste século – 2017 e 2024 — como recordou o Coronel Fernando Figueiredo (Sapo, 02/02/2026), numa reflexão informada e lúcida sobre a Protecção Civil, o seu modelo de estruturação e processo de decisão e articulação com as Forças Armadas.
O exemplo espanhol de uma Unidade Militar de Emergências como força permanente, profissional, treinada, autónoma, com capacidade de projecção rápida, comando unificado, logística própria, e com uma carta de missão menos burocrática parece-me correcto. Nos fogos de 2017 e 2024 demonstrou comando operacional eficaz, comunicações via satélite e equipamento moderno. Quem esqueceu os carros ardidos com os seus ocupantes, por informação deficiente da extensão do fogo, o desespero das populações, a displicência na avaliação da amplitude da tragédia e o desnorte público de responsáveis políticos no terreno? Um espinho doloroso e trágico na nossa consciência social. Será que dessa tragédia se retirou lição com consequência? Creio que terá sido mais uma oportunidade perdida, como os eventos posteriores confirmariam.
O Governo PSD/CDS criara em 2014 embrião desse tipo de estrutura que designou por Regimento de Apoio Militar de Emergência (RAME). Mas uma Unidade Militar de Emergências dependente das Forças Armadas é necessariamente transversal aos seus diferentes ramos, será mais que um Regimento. E em Política, a semântica é fundamental para enquadrar a acção! A história é conhecida: ausência de investimentos necessários, mudança de governo, novas prioridades, percepção errada da intervenção das Forças Armadas na sociedade em tempos de paz…tudo contribuiu para que o muro prevalecesse!
Outro exemplo paradigmático foi o SIRESP, sistema de informações e comunicações, sorvedouro de recursos financeiros, que repetidamente parece falhar. Das dúvidas e querelas sobre a sua implementação, aos argumentos sobre a vantagem de sistemas via satélite, aos múltiplos relatórios e à decisão superior anunciada do seu fim, nada mudou, continuou a falhar como agora se comprovou.
O muro resistiu mais uma vez. De que argamassa será feita a sua solidez? Da indiferença e pouca exigência da Cidadania? Da ausência de vontade e clarividência dos decisores? Da incapacidade de planear e fazer cumprir uma estratégia continuada? Ou consequência da decapitação do Estado em competências de planeamento e administração substituídos por outsorcing a comissões e relatórios?
Haverá solução? O exemplo espanhol citado, como outros no espaço europeu sugerem um caminho. Os cidadãos portugueses respeitam e confiam nas Forças Armadas. Não esqueceram o seu papel no combate aos incêndios e catástrofes e na pandemia COVID 19. A sua acção foi mais que a operação de logística sugerida recentemente. Evidenciou sempre liderança eficaz e competente no terreno, mobilizou os diferentes agentes, dignificou o Estado e o serviço público, reconciliou os portugueses com a actuação do Estado em situações de Emergência.
Como cidadão interessado procuro informar-me para compreender. Os meus comentários exprimem apenas a minha convicção sobre a dificuldade de o Estado se organizar numa perspectiva moderna, eficaz e produtiva. E assegurar um requisito fundamental em Democracia: Administração Pública isenta, independente, competente como o cimento do Estado perante a normal alternância político-partidária. Fundamental para romper o muro intransponível nestes tempos tão turbulentos que se avizinham. Mas precisaremos também de navegadores que conhecendo a rota saibam aproveitar os ventos, mesmo desfavoráveis, para nos conduzir ao porto de abrigo.