Cultura

O “orgulho gay” e a mulher portuguesa

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Mas a exigência feminina faz muito bem aos homens. Torna a nossa vida mais dura, mas muito mais interessante. Não há nada como uma mulher de qualidade para dar qualidade a um homem

1. Quando perdemos mais do que uma hora numa fila de trânsito (em tempos, dizia-se bicha, mas também eu estou a ficar vulnerável ao politicamente correcto), e não há nada para ler no carro, temos tempo para pensar sobre artigos para escrever um dia. Muitas vezes as ideias surgem do que ouvimos na rádio ou do que observamos à nossa volta, por exemplo nos outros carros.

Quase com 50 anos, gosto muito de ver como a sociedade portuguesa mudou nas últimas décadas. Sei que andamos todos preocupados com a crise, mas a verdade é que Portugal mudou em muita coisa para melhor. Claro que há coisas que nos irritam, e todos nós desenvolvemos as nossas pequenas embirrações. Estava ainda calmo no meio de centenas de carros, quando ouvi o Paulo Côrte Real anunciar uma “iniciativa” para comemorar o “orgulho gay”. Quando ouço o PCR, acho sempre que o ouvi dizer a mesma coisa há dois, há quarto, há seis, há oito ou há dez anos. Fala com uma voz sofrida, como se fosse o representante de uma minoria sem direitos e hostilizada. Será que o PCR não reparou que a sociedade portuguesa evoluiu nos últimos tempos? O que acontecerá ao PCR quando os homossexuais gozarem exactamente dos mesmos direitos que os heterossexuais? Continuará a falar na rádio e a organizar eventos?

Devo dizer que sou a favor do casamento entre homossexuais. E gosto muito de viver numa sociedade que respeita esse direito. É inaceitável dois adultos do mesmo sexo não poderem viver o seu amor de um modo aberto e livre. Em coisas de amor e de sexualidade entre adultos (sublinho o entre adultos), cada um deve fazer o que quer e ninguém tem nada a ver com isso. Mas não aprecio especialmente movimentos e não gosto daqueles que estão sempre à procura de causas para se promoverem. Mas há sobretudo uma coisa que não entendo. O que é o “orgulho gay”?

Voltando ao tema da igualdade, eu não sinto qualquer orgulho em ser heterossexual. Gosto de muitas coisas associadas à condição de heterossexual, mas não tenho orgulho. Não tive que fazer alguma coisa de especial para o ser e por isso não tenho qualquer mérito. Sou simplesmente heterossexual. Tenho orgulho nalguns sucessos profissionais que alcancei, tenho orgulho em ser um bom pai e um bom filho. Por ser heterossexual, não tenho qualquer orgulho.

Há de resto uma contradição entre a ideia de “orgulho gay” e o direito dos homossexuais à igualdade. A luta pela igualdade resulta da naturalização da condição homossexual. Se é uma condição natural, então não deve ser razão de orgulho. Entendo que os homossexuais não devam ter vergonha da sua sexualidade. Mas a ausência de vergonha não é o mesmo que orgulho. O orgulho resulta de se atingir uma certa distinção. Se os homossexuais são iguais aos heterossexuais, onde está a distinção? Sinceramente, não entendo onde reside o “orgulho gay”.

Mas tenho orgulho no modo como Portugal mudou a sua atitude em relação aos homossexuais.

2. O PCR entretanto calou-se e eu entretive-me a olhar para as dezenas de condutores à minha volta. Reparei sobretudo nas condutoras (com naturalidade mas sem orgulho heterossexual). Vi muitas mulheres bonitas, mas vi sobretudo mulheres com olhar e gestos confiantes.

Nos últimos tempos os nossos debates concentram-se na igualdade entre géneros (o que se compreende), mas falamos pouco das diferenças entre a mulher e o homem. A mim interessa-me muito mais as diferenças do que a igualdade. Mas o que me impressiona é o modo como as mulheres portuguesas mudaram durante as últimas décadas. A emancipação e a profissionalização das mulheres foi uma das melhores coisas que aconteceu em Portugal. Melhor, e mais importante: foi das melhores coisas que aconteceu a Portugal. Na vida profissional, há mais competência e, muitas vezes, as mulheres são mais pragmáticas e certamente menos infantis do que os homens. O país fica a ganhar. No plano social, as mulheres em Portugal são mais bonitas, mais elegantes, e mais confiantes do que eram há trinta, quarenta anos. Já repararam como as mulheres envelhecem melhor e com muito mais graça do que há duas ou três gerações?

Vivo há mais de oito anos no estrangeiro e em cidades internacionais e cosmopolitas (Bruxelas e Londres) e, pelo que vejo, as mulheres portuguesas estão entre as mais interessantes. Mas o ponto mais importante deste progresso é o impacto que tem nos homens. As mulheres são hoje mais difíceis e exigentes, o que por vezes nos pode levar ao desespero. Por exemplo, uma discussão emocional normalmente acaba como o Alemanha-Brasil no último campeonato do mundo. Elas são germanicamente lógicas e implacáveis. Nós acabamos perdidos e esmagados, a rezar para que a discussão acabe. E ainda por cima, acontecem sempre quando estamos estafados e precisamos de dormir ou quando vai começar um jogo de futebol que não queremos perder. As piores de todas começam com a expressão fatal “precisamos de conversar, as coisas não estão bem.” E nós na nossa inocência masculina (há quem chame imaturidade emocional) respondemos simplesmente: “pensava que estava tudo bem.” A outra causa de desespero é a memória feminina. Lembram-se sempre do que dissemos, e nós que já dissemos tantas outras coisas, nunca nos lembramos. O que dizemos a uma mulher tem sempre bilhete de ida e volta. E volta mesmo, nem que seja anos depois.

Mas a exigência feminina faz muito bem aos homens. Torna a nossa vida mais dura, mas muito mais interessante. Não há nada como uma mulher de qualidade para dar qualidade a um homem.

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