Nós já sabemos que na noite das eleições todos tratam de festejar ou de fingir que festejam. Mas convenhamos que ontem exageraram. Bastava olhar para o sorriso amarelo de Mário Centeno a bater palmas a António Costa no palco do Altis – ele sabe que as juras de amor à geringonça valem tanto como aqueles jantares destinados a salvar casamentos já estragados. Ou seja, muito pouco.

Mas vamos por partes, que vale a pena entender que já nada está normal apesar de nos quererem vender a mais tranquila normalidade.

A noite começou com as habituais declarações delambidas sobre a abstenção recorde. Que era um problema, uma inquietação, um sinal preocupante. Mais do mesmo, nada de novo, mas tudo com uma agravante: nestas eleições houve mais partidos a concorrer, mas mesmo assim menos portugueses a votar (quase menos 300 mil do que há quatro anos). E, como se isso não chegasse, entre os que se deram ao trabalho de ir às urnas, subiu o número dos que votaram em branco ou nulo (em percentagem, eram 3,7%, agora foram 4,28%).

Depois de umas eleições europeias em que a abstenção diminuiu na Europa e aumentou em Portugal, voltámos a ver a abstenção subir nas eleições sempre mais participadas, as legislativas. Cumprido o ritual piedoso de lamentar o facto, nada vai mudar. Afinal quem não vota não incomoda, não é?

A noite continuou com a única demissão inevitável – a de Assunção Cristas da liderança do CDS –, mas foi um breve intervalo de lucidez. A seguir tivemos de ouvir o eterno Jerónimo de Sousa celebrar a vitória da geringonça sem nunca referir o desastre eleitoral do seu partido – que perdeu quase um terço dos deputados e viu a sua votação cair para 6,5%, o pior de sempre em legislativas. Depois de um desastre histórico nas últimas eleições autárquicas, de uma hecatombe nas presidenciais e de um mau resultado nas europeias, ao PCP só se lhe oferece dizer que tem umas exigências a fazer a António Costa. Mas só no Parlamento. O tempo de um acordo formal é passado, o presente é o tempo do PCP a negociar medida a medida.

Se por este lado a geringonça já tinha levado a machadada que se esperava, do lado do Bloco não vieram melhores notícias. O estado de espírito também não seria eufórico, pois o partido também perdeu votos, mesmo tendo mantido o número de deputados, pelo que lhe convinha manter a prosápia antes que alguém desse por isso. Sendo assim, repetiu o número do PCP, com a nuance de se dizer disposto a um acordo formal mas com um caderno de encargos tão carregado – e tão enfaticamente gritado por Catarina Martins – que para os lados do PS só poderia ser rejeitado.

Segunda tentativa, segunda nega: António Costa não pode contar com os seus parceiros de geringonça para um acordo de legislatura. Vai ter de penar ano a ano. Negociar orçamento a orçamento. Arrancar a ferros concessão a concessão. Estão a ver porque era bem amarelo o sorriso de Mário Centeno?

Mas claro que o circo não podia parar, e, por isso, quando por fim o elevador do Altis se abriu para deixar sair o líder do PS este conseguiu apresentar os resultados dos seus parceiros da geringonça (que ambos perderam votos, e num dos casos muitos deputados), como provas de “consolidação” da sua posição eleitoral.

Consolidaram tão bem, tão bem, tão bem que os três partidos da geringonça somados tiveram em 2019 menos votos do que em 2015. Sim, não leu mal: 2.708 mil votos nas eleições deste domingo, 2.737 mil há quatro anos. O PCP sozinho perdeu quase tantos votos como o PS ganhou. Depois de quatro anos “gloriosos”, convenhamos que não foi lá muito glorioso. E que faz soar a falso o entusiasmo de António Costa: “Os portugueses gostaram da geringonça”. A sério?

Mesmo assim, todos estes números se compreenderiam pois o PS vai governar e os outros partidos da geringonça esperam manter influência sobre a governação. O que não se entende mesmo é a euforia que reinava no hotel do PSD. Os sociais-democratas tiveram o seu pior resultado desde 1983, com Mota Pinto. Rui Rio teve pior resultado do que Santana Lopes em 2005 e Manuela Ferreira Leite em 2009. Mesmo assim deitou foguetes, atacou as sondagens (que até acabaram por acertar no resultado), disse mal dos críticos internos e dos comentadores, e teve muitas palmas. Dir-se-ia estarmos num universo paralelo – não aquele onde o que conta é a dura realidade, mas sim o contraste entre a realidade e as expectativas. Rio ficou acima das expectativas, cantou vitória, atirou foguetes e ainda apanhou as canas. Tão depressa não sairá da São Caetano à Lapa.

O que significa que teremos um parlamento dominado por dois partidos – o PS e o PSD, que somarão 187 dos 230 deputados, ou seja, mais de 81%. Dois partidos que estão tão, tão satisfeitos consigo próprios que nem se apercebem que não lideram, só sobrevivem, que não entusiasmam, antes existem por omissão alheia, que estão lá sem gerarem empatia, entusiasmo ou serem capazes de mobilizar seja quem for para as mudanças de que o país necessita.

Neste quadro, a entrada de três novas forças políticas no Parlamento – a Iniciativa Liberal, o Livre e o Chega – foi o único sinal de que nem tudo está obrigatoriamente congelado para todo o sempre. Será suficiente para que de algum deles germine algo de realmente novo e transformador – sobretudo daquele que pode ser realmente diferente, a IL, sem deixar de representar uma corrente de pensamento com representação em quase todos os parlamentos do Velho Continente e também em muitos governos? É muito cedo para saber.

Por isso, meus senhores, regresso a onde comecei. Regresso ao país que finge que está tudo normal – o país político que vimos desfilar aos saltinhos eufóricos em mais uma noite eleitoral.

Não, não está tudo normal.

A geringonça não se recompôs e tudo será muito mais difícil. A economia não vai ser o mar de rosas que foi nestes últimos quatro anos, quando todos os ventos sopraram a favor. Os partidos não dão sinais de ter percebido como estão mesmo mais longe e mais desligados da cidadania. E os sinais de possível regeneração das instituições são por enquanto demasiado débeis.

Por enquanto nada disto é, como diria o povo, coisa de morte de homem, ou, como alvitraria o cronista, sintoma de fim de regime. É antes o andar triste, contrafeito mas não inquieto, de um país que vai deslizando, deslizando, deslizando para a cauda da Europa. Sim, porque ninguém pense que algo de reformista e estruturante possa vir a ser feito por um governo de António Costa neste tempo de pós-geringonça à esquerda e Rio sem fim à direita.