1. Era uma inevitabilidade, era inescapável, era certinho — mas, mesmo assim, convém assinalar a data. Há dias, a candidatura de Henrique Gouveia e Melo começou a provocar a desagregação dos partidos políticos que sustentam o regime. Na passada sexta-feira, várias “personalidades” do PSD, do PS e do CDS juntaram-se a um “movimento” que tem o ternurento objetivo de dar “o conforto necessário” ao almirante para avançar, sem medo, para o Palácio de Belém.
Na lista estão, por exemplo, Carlos Carreiras, Alberto João Jardim ou António Capucho; está um autarca socialista; e está um antigo líder do CDS. Nas próximas semanas, seguramente, muitos outros se seguirão. Ignorando os candidatos dos seus partidos, juntar-se-ão com alacridade ao presumível futuro Presidente da República. E, caso o almirante seja eleito, usarão o Palácio de Belém como centro de um novo poder que, tarde ou cedo, precisará de ter um novíssimo partido que sirva de instrumento para o alargamento dos poderes presidenciais.
Foi exatamente isto que aconteceu da última vez que tivemos um Presidente sem partido. Saído diretamente das Forças Armadas, Ramalho Eanes não tinha uma organização política que o apoiasse e projetasse. Por isso, criou uma. Naturalmente, foi buscar os seus seguidores onde eles estavam — no PSD, no PS e no CDS. O principal alvo, tanto na época como agora, foram os laranjinhas. Os “eanistas” tornaram-se num dos motores da mais dolorosa cisão da história do PSD. A partir de 1978, começaram a promover reuniões conspirativas em hotéis que levariam à criação do grupo das “Opções Inadiáveis”, que também juntava “soaristas” e outros dirigentes que, simplesmente, não suportavam Francisco Sá Carneiro. À frente destes “eanistas” estava alguém com o peso curricular de ter sido um dos três fundadores do PSD: Joaquim Magalhães Mota. Agitando publicamente a sua fidelidade ao Palácio de Belém, defendiam que “o PSD devia manter o seu apoio ao Presidente da República, sem prejuízo do exercício ponderado do direito de crítica a actos concretos”. Na realidade, queriam que o PSD fosse uma cheerleader de Eanes. Esperaram pelo melhor momento para atacar e, em 1979, espetaram a faca: 37 deputados do PSD pediram no parlamento a sua passagem a independentes.
Bastava pegar na calculadora e fazer as contas: saindo estes, restavam ao PSD 36 deputados. Sá Carneiro ficava, assim, com um grupo parlamentar mais pequeno do que o dos “inadiáveis” e mais pequeno do que o do CDS. Os cisionistas criaram a ASDI (Acção Social Democrata Independente), mas o plano deles falhou — meses depois, a AD ganharia a sua primeira maioria absoluta e Ramalho Eanes seria obrigado a adiar os planos e procurar um entendimento com Sá Carneiro.
No PS, o “eanista” mais conhecido era José Medeiros Ferreira. Depois de ter chegado a ministro dos Negócios Estrangeiros no I Governo Constitucional, incompatibilizou-se com Mário Soares, criou o grupo dos Reformadores para apoiar a AD e, em 1985, como se estivesse escrito nas estrelas, gravitou para a órbita de Ramalho Eanes.
Ao fim de um tempo, foi com gente de um lado e do outro (e com alguns “submarinos” no CDS) que o Presidente da República lançou o PRD, Partido Renovador Democrático. O objetivo era fragilizar o PSD e abater o PS, mas a inabilidade política dos “eanistas” acabou por levar o PRD contra uma parede. O projeto de alteração radical do sistema partidário começou com um estrondo e acabou com um suspiro. Claro que, na maior parte das vezes, a História repete-se primeiro como tragédia e depois como farsa. Mas já se sabe: há outras vezes em que a farsa vem primeiro e a tragédia depois.
2. Há uns dias, Fabian Figueiredo, líder parlamentar do BE, fez uma publicação no Twitter onde celebrava, com ponto de exclamação e tudo, “o regresso dos Powerpuff Boys!”. Por baixo, colocava uma ilustração onde as caras de Francisco Louçã, Fernando Rosas e Luís Fazenda apareciam no corpo das pequenas Blossom, Bubbles e Buttercup. Eles são os fundadores do partido que agora regressam para se candidatarem nas legislativas antecipadas; elas são as Powerpuff Girls, personagens de uma série de animação que transforma três raparigas em super-heroínas.
Para os puristas, como eu, isto começou mal. É que, como toda a gente sabe, a versão masculina das Powerpuff Girls não são uns imaginários Powerpuff Boys — são os Rowdyruff Boys, que, como é óbvio, são tóxicos e, genericamente, maus. Mas há mais e há pior. É que Fabian Figueiredo ignora ou oculta que as Powerpuff Girls estão muito longe de ser símbolos do progressismo. Basta ver que, em 2016, foram acusadas de transfobia. Isto porque num dos episódios da série se abordou a transexualidade através do personagem de um cavalo que queria ser um unicórnio. Num artigo no Huffpost, Stefani Dexaeris, que se apresenta como “militante dos direitos trans, feminista, música e coordenadora das redes sociais da Aliança Trans da Flórida”, escreveu que “uma analogia que usa uma criatura que deseja ser algo que não é passa a ser inerentemente transfóbica” e que, por isso, os criadores da série “deveriam apresentar um pedido de desculpa oficial à comunidade e retirar o episódio do ar”.
Não foi o único caso em que as Powerpuff Girls mostraram o seu indisfarçável reacionarismo. O Journal of Science and Technology of the Arts, pelo que percebo da Universidade Católica Portuguesa, publicou um estudo de três investigadores brasileiros com o título “A representação do Queer incorporada ao personagem Ele em As Meninas Super Poderosas” (nas citações, sigo a versão brasileira do artigo). As “Meninas Super Poderosas” são as Powerpuff Girls e “Ele” é um dos vilões da série. Segundo os investigadores, “Ele” é “um crossdresser” que usa “acessórios tidos ou remetentes ao sexo biológico oposto ao daquele que veste”. E ainda: “A linguagem corporal de Ele é saltitante e extravagante. Isto é, quando emocionado o personagem grita e ri alto de emoção”. Segundo os três investigadores, trata-se de “uma promoção de estereótipos não somente da cultura Queer, como também de machismo”. Não quero mostrar má vontade, mas parece-me que o Bloco de Esquerda devia meditar sobre tudo isto.