Serviço Nacional de Saúde

O Partido sem Bergonha

Autor
1.381

Sou um utente frequente do SNS onde sou submetido mensalmente a uma intervenção que implica a utilização de uma pequena peça que custará 10 a 15 cêntimos. Mas já aconteceu as peças estarem "esgotadas"

Tenho andado preocupado com o nosso SNS. Apesar dos seus altos e baixos, a saúde em Portugal é um dos sectores que evoluiu mais favoravelmente durante os 40 anos de democracia. Na verdade, e colocando de lado percepções mais enganadoras ou anedotais, basta olhar para os indicadores mais sérios para concluir que assim é – a taxa de mortalidade infantil, a esperança média de vida, a superior qualidade dos profissionais de saúde ou o tipo de procedimentos realizados no nosso país não autorizam espaço para dúvidas.

Mas não é menos verdade que, ultimamente, se tem observado uma recta descendente que pode muito bem terminar em catástrofe se não se arrepiar caminho.

Por isso aqui digo que é uma Bergonha o que se está a fazer no nosso sistema nacional de saúde. E por isso aqui afirmo que o partido que o está a promover é também um partido sem Bergonha.

Por razões que não vêm agora ao caso, sou um utente frequente do SNS. Tenho mensalmente de ser submetido a uma pequena intervenção que envolve a utilização de uma “borboleta” (uma agulha pequena com um pouco de plástico de cada lado em forma do referido animal), que é coisa para custar entre 10 e 15 cêntimos.

Pois bem. Numa das vezes em que me desloquei ao hospital para esse efeito, fui informado que as “borboletas” estavam esgotadas e, num gesto de quase caridade, a enfermeira, de uma simpatia e generosidade extremas, lá conseguiu que lhe emprestassem, por favor, uma agulha de outro serviço, mediante compromisso de a devolver… e, da vez seguinte, havia uma caixa com umas 10 “borboletas” escondidas para que eu e os outros doentes, que necessitam do mesmo procedimento, as pudéssemos utilizar.

Este exemplo singelo demostra com clareza chocante quão fundo bateu o nosso SNS, nas mãos deste partido sem Bergonha — sem troika, sem recessão, sem bodes expiatórios.

Parece que, quando falta uma borboleta, há uma tempestade a formar-se em todo o SNS!

Olhemos de seguida para o Hospital de Braga, que talvez apenas por acaso a gestão privada levou, por dois anos consecutivos, ao lugar de melhor hospital de Portugal. Escândalo! Há que assegurar, rapidamente, o regresso à gestão pública, entre alegações de indisponibilidade do parceiro privado, prontamente desmentidas pelo próprio, a quem o Estado não paga o que deve.

Soa ou não soa, a quem vê de fora, a uma oportunidade para concretizar uma directriz ideológica da fação PNS (agora oficialmente designada por PedroNunoSantismo) do Governo?

Apetece ou não apetece pedir aos bracarenses que se manifestem e que exijam que se passem a conhecer publicamente os indicadores de qualidade do hospital?

E que, caso os mesmos se degradem, Costa, Centeno, Santos e a Senhora que veio desempenhar as tarefas que Adalberto Campos Fernandes não estava disposto a empreender, sejam proibidos por decreto (juntamente com as respectivas famílias) de frequentar hospitais privados em Portugal?

Convém recordar: a Lei de Bases da saúde foi preparada por uma comissão de personalidades de insuspeita qualidade, nomeadas por este Governo e coordenadas por Maria de Belém Roseira, ex-presidente do PS e que dificilmente pode ser acusada de ser uma perigosa inimiga da geringonça. Pois bem — o Governo meteu na gaveta a proposta dessa comissão e optou por uma espécie de sinopse desengonçada, que não permite senão antever um triste desaire para o futuro do nosso SNS.

Sem Bergonha.

P.S. Por ser do Norte, tenho este hábito cómico de trocar os vês pelos bês. Não é por mal — acabo até por fazer justiça ao álbum do Rui Veloso. Os que estavam à espera do trocadilho com a mais recente líder da JS, Maria Begonha, ficarão pois desiludidos. Nada tenho a dizer da jovem líder — tem bom e bem preparado currículo, forjado pelas duras dificuldades da subida a pulso nas implacáveis e meritocráticas estruturas da Jota, e sim — tem larga experiência nas habituais assessorias por ajuste directo típicas destes iluminados jotistas. E também nada tenho a criticar sobre o que propõe, já que, depois do que li do seu programa e pelo que interpreto do apoio entusiasta que recebeu do aspirante a novel Costa — Pedro Nuno Santos –, o que pretende é precisamente a nacionalização de tudo o que mexe, onde se inclui a integralidade do SNS. Nada de mais, nenhuma surpresa. Apenas outra grande Bergonha!

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Rui Rio

O Turista Acidental /premium

Luís Reis
126

Rio é como o escritor de viagens que abomina viajar; é o político que odeia a política, o chefe partidário que desdenha os partidos (incluindo o próprio), o líder da oposição que despreza a oposição.

Serviço Nacional de Saúde

SNS, Público ou Privado?

Fernando Leal da Costa

Só com uma generalização obrigatória do modelo da ADSE poderemos colocar todo o sistema de saúde ao serviço de todos os portugueses e investir no SNS para aquilo em que ele for mesmo insubstituível.

PSD

Marcelo, o conspirador /premium

Alexandre Homem Cristo

O pior destes 10 dias no PSD foi a interferência de Marcelo. Que o PSD se queira autodestruir, é problema seu. Que o Presidente não saiba agir dentro dos seus limites institucionais, é problema nosso.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)