Serviço Nacional de Saúde

O Partido sem Bergonha

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Sou um utente frequente do SNS onde sou submetido mensalmente a uma intervenção que implica a utilização de uma pequena peça que custará 10 a 15 cêntimos. Mas já aconteceu as peças estarem "esgotadas"

Tenho andado preocupado com o nosso SNS. Apesar dos seus altos e baixos, a saúde em Portugal é um dos sectores que evoluiu mais favoravelmente durante os 40 anos de democracia. Na verdade, e colocando de lado percepções mais enganadoras ou anedotais, basta olhar para os indicadores mais sérios para concluir que assim é – a taxa de mortalidade infantil, a esperança média de vida, a superior qualidade dos profissionais de saúde ou o tipo de procedimentos realizados no nosso país não autorizam espaço para dúvidas.

Mas não é menos verdade que, ultimamente, se tem observado uma recta descendente que pode muito bem terminar em catástrofe se não se arrepiar caminho.

Por isso aqui digo que é uma Bergonha o que se está a fazer no nosso sistema nacional de saúde. E por isso aqui afirmo que o partido que o está a promover é também um partido sem Bergonha.

Por razões que não vêm agora ao caso, sou um utente frequente do SNS. Tenho mensalmente de ser submetido a uma pequena intervenção que envolve a utilização de uma “borboleta” (uma agulha pequena com um pouco de plástico de cada lado em forma do referido animal), que é coisa para custar entre 10 e 15 cêntimos.

Pois bem. Numa das vezes em que me desloquei ao hospital para esse efeito, fui informado que as “borboletas” estavam esgotadas e, num gesto de quase caridade, a enfermeira, de uma simpatia e generosidade extremas, lá conseguiu que lhe emprestassem, por favor, uma agulha de outro serviço, mediante compromisso de a devolver… e, da vez seguinte, havia uma caixa com umas 10 “borboletas” escondidas para que eu e os outros doentes, que necessitam do mesmo procedimento, as pudéssemos utilizar.

Este exemplo singelo demostra com clareza chocante quão fundo bateu o nosso SNS, nas mãos deste partido sem Bergonha — sem troika, sem recessão, sem bodes expiatórios.

Parece que, quando falta uma borboleta, há uma tempestade a formar-se em todo o SNS!

Olhemos de seguida para o Hospital de Braga, que talvez apenas por acaso a gestão privada levou, por dois anos consecutivos, ao lugar de melhor hospital de Portugal. Escândalo! Há que assegurar, rapidamente, o regresso à gestão pública, entre alegações de indisponibilidade do parceiro privado, prontamente desmentidas pelo próprio, a quem o Estado não paga o que deve.

Soa ou não soa, a quem vê de fora, a uma oportunidade para concretizar uma directriz ideológica da fação PNS (agora oficialmente designada por PedroNunoSantismo) do Governo?

Apetece ou não apetece pedir aos bracarenses que se manifestem e que exijam que se passem a conhecer publicamente os indicadores de qualidade do hospital?

E que, caso os mesmos se degradem, Costa, Centeno, Santos e a Senhora que veio desempenhar as tarefas que Adalberto Campos Fernandes não estava disposto a empreender, sejam proibidos por decreto (juntamente com as respectivas famílias) de frequentar hospitais privados em Portugal?

Convém recordar: a Lei de Bases da saúde foi preparada por uma comissão de personalidades de insuspeita qualidade, nomeadas por este Governo e coordenadas por Maria de Belém Roseira, ex-presidente do PS e que dificilmente pode ser acusada de ser uma perigosa inimiga da geringonça. Pois bem — o Governo meteu na gaveta a proposta dessa comissão e optou por uma espécie de sinopse desengonçada, que não permite senão antever um triste desaire para o futuro do nosso SNS.

Sem Bergonha.

P.S. Por ser do Norte, tenho este hábito cómico de trocar os vês pelos bês. Não é por mal — acabo até por fazer justiça ao álbum do Rui Veloso. Os que estavam à espera do trocadilho com a mais recente líder da JS, Maria Begonha, ficarão pois desiludidos. Nada tenho a dizer da jovem líder — tem bom e bem preparado currículo, forjado pelas duras dificuldades da subida a pulso nas implacáveis e meritocráticas estruturas da Jota, e sim — tem larga experiência nas habituais assessorias por ajuste directo típicas destes iluminados jotistas. E também nada tenho a criticar sobre o que propõe, já que, depois do que li do seu programa e pelo que interpreto do apoio entusiasta que recebeu do aspirante a novel Costa — Pedro Nuno Santos –, o que pretende é precisamente a nacionalização de tudo o que mexe, onde se inclui a integralidade do SNS. Nada de mais, nenhuma surpresa. Apenas outra grande Bergonha!

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