Um dos maiores dilemas da prática médica é saber quando tomar uma atitude. Pedir todos os exames e análises, operar todos os órgãos, prescrever dezenas de medicamentos: é fácil. Mais difícil: saber quando não fazer nada, quando vigiar, quando um medicamento ou uma cirurgia não são necessários. Por vezes, recebo relatos de condutas médicas exageradas, ultra-interventivas, embora certamente bem intencionadas. Vivemos numa era de medicina defensiva, numa cultura do “mais é melhor”, em que o médico sente a responsabilidade de “fazer qualquer coisa” na sua prática.  Nestes tempos, pode ser fácil esquecer que juramos “primun non nocere”: em primeiro lugar, não fazer mal.

A expectativa da população para a atitude médica existe, e não é fácil de gerir. Quantas vezes não ouvi já, mesmo de pessoas próximas, “aquele médico não presta, não me passou exames nenhuns”?  Ou, quantas vezes, já tentei explicar a um doente que ele não precisa realmente de uma intervenção, e sou olhada com desconfiança e descrédito? Um inquérito a 1000 portugueses concluiu que cerca de 99% considerava que deveria realizar análises de rotina anualmente e 70% que deveria realizar radiografias de tórax a cada 15 meses. (C. Martins et al, 2013) Outro estudo avaliou a importância atribuída pelos doentes a várias medidas médicas preventivas e concluiu que os doentes tendem a sobrestimar a importância da realização de exames laboratoriais e de imagem, e a atribuir menos importância a alterações de estilo de vida. (L. Sá et al, 2016)

Perguntam-me frequentemente, “mas qual é o problema de fazer um exame?”. Em primeiro lugar, o diagnóstico leva a tratamento, mas o sobrediagnóstico (ou seja, diagnosticar alterações que provavelmente nunca levariam a sintomas ou morte) leva a sobretratamento (ou seja, tratamentos desnecessários). E isto envolve riscos – porque não há tratamentos inócuos – bem como ansiedade desnecessária para o doente e para os que lhe são próximos. Existe também uma questão económica importante, uma vez que os recursos de saúde são finitos. Várias instituições, nomeadamente a Academy of Medical Royal Colleges, têm vindo a defender que é responsabilidade ética dos médicos reduzir o desperdício nos recursos de saúde.

Esta preocupação não é de hoje. Na Mesopotâmia, há 38 séculos, o rei Hammurabi proclamou uma lei que condenava cirurgiões demasiado zelosos à pena de remoção do olho ou da mão. Outros exemplos existem ao longo da história da medicina. No século XXI, com o acesso a evidência científica cada vez mais sensível e específica face à promoção de saúde, aos métodos de diagnóstico e ao tratamento, temos o dever de a utilizar para nos guiar na escolha da melhor abordagem aos nossos doentes.

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