O conceito de poder no Ocidente implica consentimento, e opõe-se à imposição  através da força. Há uma tendência geral para confundir os dois, mas a cultura manifesta-se em todos nós, ocidentais, sem que sequer nos apercebamos. O mete-te  com alguém do teu tamanho dos recreios e parques infantis é precisamente uma  recusa da força como demonstração de domínio, crianças e adultos reconhecem  instintivamente que: só numa luta entre iguais pode haver um vencedor, a força  exercida sobre alguém que não se pode defender não é poder mas cobardia. Mas este  instinto é um instinto cultural, um instinto ocidental, que não é necessariamente  partilhado pela totalidade da humanidade.

A este instinto cultural podemos chamar de senso comum – um sentido de  comunidade, que varia em significado tanto quanto em dimensão, podendo referir-se ao ocidente como pode referir-se a uma família, em minha casa não se faz assim. Mas  não é difícil reconhecer como uma mulher que tenha sido atacada num país europeu se irá dirigir à polícia sem receio, enquanto que uma mulher atacada num país árabe terá de considerar se o ataque que sofreu não interferiu com as políticas de  moralidade impostas no país.

O consentimento é, portanto, fundamental na conceção ocidental de poder, e é a base  dos nossos sistemas de eleição democrática. Os governados elegem o governante, ou  esta é pelo menos a expectativa, recentemente contrariada pelos métodos de eleição  europeus. Há uma nova moda na Europa de que quem governa são os derrotados – unem-se todos os que perderam as eleições para excluir o vencedor – que me leva a  considerar da maior relevância relembrar o conceito de poder consentido como base  da civilização europeia.

Numa eleição, a maioria dos votos não representa apenas um número de votos  superior a outro número, é uma demonstração da direção em que o senso comum se está a movimentar, representa um sentimento comum da sociedade e da cultura.  Naturalmente, este não é um sentimento partilhado unanimemente por toda população, mas é partilhado pela maioria e nesse sentido é uma melhor representação  do sentimento nacional do que a união de todos os partidos que perderam as eleições,  mas conseguem entre si reunir um número igual ou superior ao do vencedor. As  democracias europeias transformaram-se não numa representação da vontade da  maioria, mas antes na representação das vontades das minorias, que concordam no  ponto essencial de que a maioria não devia determinar quem governa o país. A análise  de eventos políticos – que são eventos culturais – feita pelas ciências sociais tende  para falhar pela exatidão. A cultura não pode ser analisada segundo uma fórmula  matemática, porque tem exigências e contingências diferentes das das ciências exatas.  Esta tentativa forçosa de impingir uma metodologia única para a análise e  compreensão de qualquer problema é, em si, um problema.