É difícil perceber se as políticas defendidas por um partido são adequadas porque os políticos se especializaram na sua apresentação de forma a agradar à população, procurando obter o seu apoio para manter ou conquistar o poder.

Faz falta um politicómetro, um instrumento para compreender o fundamento e a motivação de qualquer política, de maneira a conseguir ultrapassar a carga de propaganda com que cada partido apresenta as suas políticas, por norma anunciando propósitos nobres e omitindo motivações torpes.

O politicómetro é um instrumento que posiciona qualquer linha de acção política no contínuo esquerda-direita.

O politicómetro assenta numa premissa simples e evidente: o pensamento de esquerda é orientado pelo primado do colectivo sobre o individual e o pensamento de direita é orientado pelo primado do individual sobre o colectivo. Ou, em termos práticos, pelo primado entre Estado e Indivíduo, entendendo-se Indivíduo como uma pessoa, uma família ou uma organização independente do Estado.

Será mais fácil perceber com alguns exemplos.

A distribuição de produtos alimentares deve ser feita pelo Estado (100% esquerda) ou pelas empresas privadas (100% direita)?

O Estado deve oferecer os produtos alimentares à população (100% esquerda) ou as pessoas devem pagar pelo que consomem (100% direita)?

Na nossa sociedade, a maior parte das pessoas, quer se considere mais de direita ou mais de esquerda, tenderá a posicionar-se à direita nestas duas questões. No entanto, a maioria também considera que o Estado deve regular a distribuição (ou seja, não é 100% direita).

A prestação de cuidados de saúde deve ser feita exclusivamente pelo Estado (100% esquerda) ou deve ser feita exclusivamente pelas empresas privadas e pelos profissionais liberais (100% direita)? Pode haver posicionamentos intermédios, por exemplo ser da parte do Estado apenas nalguns tipos de cuidados, ou ser livre (qualquer agente qualificado pode prestar cuidados de saúde, quer seja público ou privado) havendo regulação do Estado.

Relacionado com esta questão está o pagamento dos cuidados de saúde. O pagamento deve ser feito exclusivamente pelo Estado (100% esquerda) ou deve ser feito exclusivamente pelas pessoas (100% direita)? Também aqui pode haver posicionamentos intermédios.

Daqui se percebe facilmente que quem tem um posicionamento mais à esquerda tem preferência por impostos elevados e quem tem um posicionamento mais à direita tem preferência por impostos baixos.

À esquerda corresponde uma visão paternalista, em que o Estado tem de tirar recursos aos agentes económicos (via impostos) para pagar os cuidados de saúde das pessoas, reduzindo-lhes a responsabilidade e assumindo o risco económico associado. Muitas pessoas preferem que alguém no Estado decida por elas, evitando o fardo pesado da liberdade na tomada de decisão sobre as suas opções de vida. É graças a essas pessoas que o socialismo medra na sociedade.

À direita corresponde uma visão autonomista, em que cada pessoa tem a responsabilidade de pagar pela sua saúde (ou pagando directamente ou usando soluções mutualistas de partilha de risco económico, por exemplo seguros de saúde). É graças a essas pessoas que a liberdade medra na sociedade.

A agricultura, a pecuária, a indústria, o comércio, os transportes, os serviços, os seguros, a banca, o ensino, as pensões de reforma, ou seja, as actividades económicas em geral devem ser feitas exclusivamente pelo Estado (100% esquerda) ou devem ser feitas exclusivamente pelos agentes económicos independentes (100% direita)? Também aqui pode haver posicionamentos intermédios.

Uma questão muito interessante é a expressão, ou seja, a faculdade de escrever e falar em diferentes meios de comunicação. A expressão deve ser feita exclusivamente pelo Estado (100% esquerda) ou deve ser feita exclusivamente pelo Indivíduo (100% direita)?

Na nossa sociedade é consensual que qualquer pessoa se pode expressar livremente. Mas alguns políticos defendem a regulação da expressão. Uns afirmam que o Estado deve coagir as pessoas criminalizando o “discurso de ódio”. Outros afirmam que o Estado deve fazer censura sucessiva (aconteceu até há pouco tempo quando, em algumas redes sociais, certas publicações foram apagadas por não agradar ao partido no poder). Outros afirmam que o Estado deve fazer censura prévia. Outros fazem e promovem o cancelamento das pessoas que expressam opiniões contrárias às suas. Todos estes exemplos representam opções de esquerda, em maior ou menor grau, porque o Estado condiciona a liberdade das pessoas se expressarem, com o propósito nobre de proteger as pessoas da “desinformação” e com a motivação torpe de suprimir as vozes políticas contrárias.

Outra questão muito interessante é a cidadania. A atribuição da cidadania é uma função de soberania, por isso não há dúvida de que é uma prerrogativa do Estado. No entanto, as regras para a atribuição da cidadania podem ser orientadas para o colectivo, privilegiando a utilidade para a comunidade (100% esquerda) ou orientadas para o individual, privilegiando a dignidade para cada pessoa (100% direita).

Na opção à esquerda o propósito nobre é acolher as pessoas com humanismo. É sonso, porque acolher é apenas o primeiro passo, é preciso que a seguir as pessoas tenham condições de vida minimamente aceitáveis, o que não é compatível com a quase escravatura em que algumas pessoas caem nem com habitar numa camarata de “cama quente”. A motivação torpe é haver quem faça os trabalhos menores e pague impostos e segurança social, para que os residentes actuais possam continuar a sua vida de conforto, por isso a política é mais laxista.

Na opção à direita o propósito nobre é haver condições para as pessoas viverem dignamente, tanto as que estão no país como as que vêm de fora. É sonso, porque o foco é o bem-estar dos residentes. A motivação torpe é evitar culturas diferentes que aumentem o risco de insegurança e de desemprego dos residentes, por isso a política é mais restritiva.

A consequência da opção de esquerda é ter muitas pessoas vindas de fora do país a viver em más condições, que não se integram plenamente na sociedade porque não há exigência para o fazerem, ficando assim segregadas. Foi o que aconteceu de forma galopante em Portugal nos últimos anos com os governos socialistas. Essa segregação tende a provocar convulsões sociais, como se assiste há muito tempo em vários países europeus. Em cima disso, ainda há partidos políticos e movimentos “activistas” a falar incessantemente dessas e de outras minorias, o que na prática as segrega da sociedade em vez de as integrar. Ou são patetas (não percebem que a sociedade vai “pegar fogo”) ou são hipócritas (estão convictos de que conquistam o poder se a sociedade estiver “em fogo”).

A consequência da opção de direita é ter poucas pessoas vindas de fora do país, que se integram plenamente na sociedade, porque há exigência para o fazerem, evitando a segregação. Isso promove a paz social.

Para se perceber que não é indiferente ser de esquerda ou de direita, é conveniente lembrar que o governo do Partido Operário Social Democrata Russo, também conhecido como comunista ou bolchevique, praticou políticas de esquerda na actividade económica (por exemplo a nacionalização das propriedades agrícolas), na expressão (censura e controlo dos meios de comunicação), na cidadania (segregação religiosa, racial e política) e em muitos outros domínios.

Também é conveniente lembrar que o governo do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, também conhecido como nazi, praticou políticas de esquerda na actividade económica (por exemplo a criação da Volkswagen pelo Estado alemão), na expressão (censura e controlo dos meios de comunicação), na cidadania (segregação religiosa, racial e política) e em muitos outros domínios. Os nazis tiveram políticas iguais aos comunistas.

Finalmente, é conveniente lembrar que em Portugal também se praticaram estas políticas de esquerda, nomeadamente nacionalizações (por exemplo no PREC), censura (por exemplo no Estado Novo), controlo dos meios de comunicação (por exemplo na Primeira República), segregação religiosa (por exemplo expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal), segregação racial (por exemplo expulsão dos judeus pelo Rei D. Manuel I) e segregação política (por exemplo PIDE), entre outras.

Várias conclusões se podem retirar de tudo isto, mas é importante destacar uma delas, é que a imposição do poder do Estado sobre o Indivíduo é uma abordagem de esquerda, que corresponde ao primado do colectivo sobre o individual, coincidindo com as preferências e a orientação do pensamento de esquerda.

Isto significa que, quer os governos sejam considerados de esquerda ou de direita, com o politicómetro percebe-se que os totalitarismos assentam em políticas de esquerda.