As memórias são as de muitos: noite de Natal fria numa vila do Alentejo, correria para a Missa do Galo, um boneco bem agarrado não fosse ele constipar-se. Entrar no carro com os olhos postos nas estrelas. Seria que quando voltássemos Ele já lá teria ido? Havia muitas casas e em algumas ele passava primeiro porque na peregrinação familiar dessa noite pelo menos em duas lá deixava alguns dos pedidos cuidadosamente escritos naquela carta posta no correio para o Menino Jesus. Mas não. Bem que espreitava à chegada, o presépio. Nada. Ele viria mas em cada manhã daqueles Dias de Natal. Descer as escadas a correr, um Pai, Mãe, venham ver. O gato a acordar estremunhado. O enfeite que invariavelmente caía do pinheiro apanhado numa tarde no campo. Uma inocência mágica, o espanto, a alegria, minha e deles. Ali os três. Com o menino já nascido e descansado dormindo com um sorriso terno e tranquilo entre S. José e Nossa Senhora, e tudo o resto rodeados pelo verde do musgo e das cieirinhas plantadas algumas semanas antes em pratinhos desemparelhados que se iam guardando. E os três Reis do dia dos meus anos que nesse dia se tiravam da caixa e se punham a caminho.

Passaram-se décadas desde aqueles presépios de ternura. Os Natais passaram a ser mais urbanos, sem sentido nenhum, alguns deles. A correria mas a das compras, jantares e almoços que se seguem porque é Natal e temos que estar juntos. Deixou de haver geração acima e passámos nós a ser os da frente. Por algum tempo, demasiado,a nostalgia estava lá, a daqueles Natais. Perdidos entre embrulhos, ruído e ter que fazer, no cheirinho do tal bolo que já não é o mesmo ou na lembrança de quem já cá não está, desistimos, esperando que os dias passem, com mais ou menos uma cara alegre. Vazios. Mesmo que replicando os gestos.

Até que um dia, por uma razão que é só nossa, decidimos querer voltar a crer. Percebemos por que aquela miúda olhava para o céu no dia 24 procurando o Menino Jesus sabendo que ele só chegaria numa manhã. Focamo-nos nas estrelas que nos iluminam e deixamos, pouco a pouco, as sombras que as encobriram. O espaço e o tempo que agora são os nossos. Na nova geração, até já adulta, que nos dá continuidade. Deixamo-nos do tem que ser e procuramos a Verdade porque nada disso tem a ver com a essência do Presépio da nossa infância. O tal a que sempre quisemos voltar. O da tal maravilha daquelas manhãs. O que agora sabemos ser um acordar novo simbolizado naquela criança acabada de nascer. A impossibilidade de ficar indiferente ao desafio de (re)nascer de um ciclo que é de conversão e transformação e que nos dá Paz. O grande e verdadeiro presente que me deram para a Vida aqueles Presépios de Ternura.