Dia histórico no Vaticano: quase 500 anos depois da Reforma Protestante e da cisão de Henrique VIII um Rei Inglês e Chefe da Igreja Anglicana vai orar com o Papa numa cerimónia conjunta na Capela Sistina. Prevista anteriormente para Abril do ano passado e adiada pela doença e morte do Papa Francisco, ela ganha hoje se possível, maior força e pertinência. Nos dez anos da Laudato Si, no Ano da Misericórdia e numa fase da nossa história comum em que a agressão e a morte se banalizam, tantas vezes sob uma suposta capa da religião, este encontro pode, ou será certamente, uma etapa no caminho da união dos cristãos e do afirmar da importância da tolerância religiosa. E agora com um Papa oriundo de uma América de fala inglesa.

Símbolo disso o hino escrito por Santo Ambrósio de Milão e traduzido para a língua inglesa pelo agora São Thomas Henry Newman, anglicano, convertido ao Catolicismo e Doutor da Igreja a partir de 1 de Novembro, dia de todos os Santos. Alguém para quem a Reconciliação e o regresso à essência foi fio condutor de vida.

Por estes dias impossível não lembrar Thomas Moore e a sua Utopia: uma sociedade baseada na razão, na justiça, no senso comum, em que a convivência entre as religiões era possível. Exemplo de integridade e de verdade no exercício dos cargos públicos, católico convicto e leal ao Papa, humanista amigo de Erasmus de Roterdão, pagou com a vida o viver e o governar segundo a sua consciência. Recusando-de a assinar o Acto de Supremacia de Henrique VIII que daria origem à religião Anglicana e ao colocar o rei de Inglaterra como seu chefe,  ele, o todo poderoso Chancellor, sabia que escolhia a morte. E assim foi que impossível era (e é) impossível separar política da moral. Ou deve ser.

Canonizado séculos mais tarde, João Paulo II declarou-o Patrono dos Governantes e Políticos no ano 2000. Seguramente que lá de cima, gostará de ver e protegerá aquele encontro entre o tímido agostiniano seguidor do Santo Agostinho que ele também traduziu, tornado Papa e Carlos III, rei da sua Inglaterra, com toda uma vida no caminho do ecumenismo de que a capela que construiu em Highgrove é um símbolo.

Juntos na oração e na defesa do Planeta, a nossa casa comum, na reunião que terão também com responsáveis de várias instituições sobre sustentabilidade ambiental. A ecologia integral do Borgo Laudato Si inaugurada em setembro pelo Papa Leão. O “Cuidar da Criação” ou o Care for Creation que será o lema da cerimónia conjunta. Que a beleza e a harmonia daquela

hora em que o som dos três coros, o da Capela Sistina, da St. George’s Chapel e o Capela Real soarem juntos nos relembre a todos a responsabilidade e o papel de cada um na convivência com o todo, na capacidade de fazer pontes fundamental ao diálogo inter-religioso.

E que estes dois homens, Leão e Carlos, o Papa e o Rei, o padre norte-americano que percorria a cavalo os trilhos dos Andes para chegar a quem precisava sem importar quem e o Príncipe de Gales, ambientalista integral que teve na sua coroação representantes das diferentes fés existentes no Reino Unido, sejam lideres neste mundo em busca de Reconciliação. Com o equilíbrio, a ética, a lealdade e o dever de consciência de São Thomas Moore.