1 “Este ano o presépio também tem seis Reis Magos?” perguntou um filho cuja ironia exibia uma resignada disponibilidade para que não só voltasse a haver vários Magos como talvez dois S. José, cinco camelos ou qualquer outra interpretação fantasiosa do presépio. O caso é que tendo uma vez trazido do longínquo Peru um belíssimo terceto de Reis Magos em terracota, foi-me irresistível juntá-los na companhia dos que já estavam “montados” e assim, num ápice, os reis passaram a seis numa coabitação estética digno de estudo.

Às vezes também tem havido pastores a mais e ovelhas a menos, excesso de “figurantes” – lavadeiras, camponeses, fontes (fontes, calcule-se…). E claro as habituais hesitações na escolha do protagonista do mais maravilhoso mistério da civilização que me foi berço: um Menino Jesus clássico? aquele vincadamente popular e muito colorido? o “antigo” vindo amorosamente de avós e bisavós? e se fosse a tão poética figura, feita em papel pelos doentes do antigo Hospital Júlio Matos, que me foi um dia oferecida quando há anos lá fiz algum voluntariado?

Contado assim parece que o “armar” do presépio é à vontade do freguês ou um mero jogo de sala. Nunca o foi. É antes um modo de andarmos ali de roda com vagar, sabendo estarmos diante do “anúncio” da possibilidade de outra vida. E por isso digamos que as inopinadas fantasias a que acima aludi na representação do nascimento de Cristo em nada afectam a nossa convicção – quase geral aqui em casa – de que é no presépio que se encontra e dele que emana a essência do Natal – e o seu mistério e o seu milagre. Mantemo-lo contra os ventos do tempo, as falácias, os assaltos à História: distorcendo-a num desvio ao seu curso, e revendo-a ao belo prazer de conveniências e agendas da guerra – em curso acelerado – contra a matriz judaica cristã da nossa civilização (quando não é ela própria, ainda mais aceleradamente, a desistir de si mesma, na inexplicável demissão que observamos todos os dias).

2 Mas este ano não houve sobreposição de Reis Magos, nem outros “extras”, este ano foi tudo como Deus manda. Ou melhor, como decidiu mandar-me, Ele e o habitat familiar: eu que me desvencilhasse na tarefa espiritual e doméstica de ter dois Natais nos braços, geograficamente distantes e, como tal, reclamando forte logística e distintas “encenações” pela natureza dos lugares onde se celebravam.

Ainda estive quase a sugerir ser paga à hora pela ubiquidade que a distância e o “trabalho” me exigiam, mas o sopro natalício susteve – in extremis – a tentação. Além de que este amontado de gente e gerações que dá pelo mais comum nome de família e no qual vivo mergulhada sofreria um choque que a quadra não recomendaria, ao constatar uma “mater familias” subitamente remunerada (e por quem, desde logo?). E pior ainda, aceitando o opróbrio quem sabe se até com desenvolta naturalidade.

De modo que recuperei a decência, por breves instantes perdida e servi o Natal com a consciência de tão séria “convocatória” e uma azáfama alegre -não, não é contraditório: primeiro numa urbana avenida lisboeta, a seguir na genuína ruralidade do nosso Oeste “privativo”. Milagrosamente dotados ambos, o Natal citadino e o Natal campestre, de tempo e espaço. Usámos o tempo, beneficiámos do espaço. Claro que o silêncio foi escasso, a vozearia alta, a ordem pouco praticada, agitadas as refeições, o relógio nunca cumprido mas pensando bem, que importância? Por detrás do ruído humano e do atropelo dos seus verbos e gestos, o Natal – e o desafio do recomeço que ele traz consigo e nos oferece – esteve ali: convivemos, contemplámos, rezámos, agradecemos.

3 E amanhã,? Amanhã já começou outro ano. São muitas as conjecturas, poucas as expectativas, pesadas as dúvidas, trémulo o temor. Sobretudo, rara e difusa a esperança.

Mas amanhã, ficará para depois. Hoje ainda é este ano.