Existe um hype a respeito de Gouveia e Melo. Para quem não se encontra familiarizado com o estrangeirismo patente do título, a expressão encaminha-nos para um ideal de promoção e tendência que se caracteriza hiperbolizada e, como tal, desfasada da realidade.
Apesar das eleições para a Presidência da República só se encontrarem previstas para janeiro de 2026, já é extenso o hiato em que vão ecoado notícias a respeito da possibilidade de Gouveia e Melo se candidatura ao cargo em questão.
São várias as projeções que têm vindo a público, comparando-o com outros hipotéticos candidatos – que ao momento não são tão certos quanto o visado – e noticiando o amplo favoritismo do mencionado.
No mesmo sentido, vão paralelamente surgindo informações de que o atual Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) informou o Ministro da Defesa da sua pretensão de não ser conduzido no exercício do cargo, cujo mandato termina em finais de dezembro do presente ano.
Não bastante, o atual Presidente Marcelo absteve-se de comentar a eventual candidatura do militar, mas não se escusou de, publicamente, elogiar o trabalho desenvolvido na marinha pelo seu potencial sucessor.
Posto isto, importa questionar qual o motivo que nos transporta até ao cenário em que Gouveia e Melo é dado quase como certo no cargo de Presidente da República.
Para além do papel importantíssimo no processo de vacinação, que para o contexto nacional – onde se incute e pratica a vacina desde tenra idade – não exigiu significativo esforço, transformação ou mobilização, que mais sabemos sobre Gouveia e Melo?
A resposta é simples: pouco ou nada.
Não sabemos o que pensa nem o que defende. Sabemos que é apoiado pelo Chega, mas isto pode somente traduzir um aproveitamento político de Ventura e não uma concreta ideologia do pseudocandidato.
Aliás, não é preciso recuar assim tanto na linha do tempo, para se retornar ao momento em que o PSD – maior partido da direita pela qual se prevê a candidatura – requeria, sempre com urgência, a audição do à época Vice-Almirante na Comissão Eventual para o acompanhamento da aplicação das medidas de resposta à pandemia da doença COVID-19 e do processo de recuperação económica e social e na Comissão de Saúde, para prestar esclarecimentos sobre “a possibilidade do atraso do cumprimento das metas do plano de vacinação”.
Perante o exposto sabemos que Gouveia e Melo agrada ao Chega, mas sem confirmação de que o Chega lhe agrada, temos igualmente conhecimento de em anteriores ocasiões já ter sido alvo do PSD e que este partido, possivelmente, terá outros nomes a indicar para o cargo e depreende-se a resistência dos partidos mais à esquerda quando confrontados com a possibilidade de virmos a ter presença militar na Presidência da República.
Num passado ainda breve, os partidos com maior representação eleitoral consensualizaram-se, ineditamente, em torno de um candidato, sendo a eleição de Marcelo partidariamente mais favorável ao PSD, por força do historial político do atual Presidente.
O modus operandi do Partido Socialista, embora se estime que impediu a complicação de outras batalhas, fustigou as pretensões de qualquer político vindo da esfera do partido, chegando alguns candidatos a ser preteridos por Marcelo.
Pouco se conhece de Gouveia e Melo, pressupõe-se que seja um candidato mais à direita e adivinha-se – com fundamento nos resultados que as sondagens vão projetando – a vontade das pessoas em votar nele, sendo o que conta ao fim do dia.
Neste pressuposto mostra-se evidente a necessidade de surgimento de um candidato conciliador entre os partidos à esquerda, dotado de forte presença mediática e política, tendo o Partido Socialista – na qualidade de mais representativo daquele espectro – o dever de o apresentar e escapar de uma nova Marcelada.