O quadro seguinte apresenta a evolução dos resultados das últimas eleições legislativas (2015 e 2019) e autárquicas (2017 e 2021). Adicionalmente, mesmo consciente do falhanço de algumas sondagens, expõe os resultados da sondagem elaborada pela TVI / Pitagórica no dia das eleições autárquicas, na qual se procurou saber em quem votariam os eleitores se as eleições legislativas se realizassem nesse Domingo.

Cálculos do autor. No caso de coligações os votos foram atribuídos ao maior partido. Por exemplo, em 2015, os votos atribuídos ao PSD representam os votos da coligação entre o PSD e o CDS, a denominada Portugal à Frente.

Por vezes os números podem ser autoexplicativos. Por outras, tal como assistimos nas ressacas eleitorais, são sujeitos a diferentes leituras e interpretações, variando consoante o interesse de quem os lê.

Posto isto, aqui fica uma análise sintética sobre o quadro acima apresentado:

  1. Nas eleições autárquicas do passado Domingo, ao contrário do que se tinha verificado nas três eleições anteriores, os três partidos da geringonça ficaram abaixo dos 50%. Mas, apesar de terem caído os três face às eleições de 2017, se fossem eleições legislativas, os seus 48,6% continuariam a ser suficientes para formarem uma maioria parlamentar.

  2. O PCP parece estar num processo de declínio estrutural, possivelmente relacionado com as características demográficas dos seus eleitores. Um processo que dificilmente será interrompido com novas lideranças, uma vez que o discurso e a cristalização ideológica dificilmente mudarão.

  3. O Bloco de Esquerda é um partido com pouca expressão local fora dos grandes centros urbanos e é politicamente indiferente aos resultados autárquicos. Caso contrário, Catarina Martins já estaria a ver a porta da saída, possivelmente para ver entrar Mariana Mortágua.

  4. O PCP e o Bloco de Esquerda parecem estar a perder votos com a geringonça. Mas, mesmo conscientes disso, não podem arriscar derrubar o Governo e provocar eleições. Primeiro porque têm medo que o poder caia nas mãos da direita, segundo porque também temem que o PS atinja a maioria absoluta e deixe de precisar deles. Por estas razões e porque o PS de António Costa escolheu namorar lealmente com a extrema esquerda, esta legislatura seguirá até ao fim, alegremente despreocupada com a nossa falta de competitividade e necessidade de reformas estruturais.

  5. Um dia, o PAN poderá vir a ser um partido relevante na aritmética parlamentar. Até ver, o Partido das Pessoas, dos Animais e da Natureza parece ter mais inclinação para derivar para a esquerda, dificultando ainda mais as aspirações da direita. Por essa razão, caso queira cativar esse eleitorado, a direita precisará de ter uma voz mais ativa na defesa da sustentabilidade ambiental e do equilíbrio intergeracional.

  6. O Chega, ao contrário do PCP, tem apresentado um crescimento estrutural. Perante esta evolução, num futuro próximo, um Governo de direita precisará do apoio do Chega, restando saber com que expressão negocial, a troco de que políticas e se dentro ou fora do Governo. Esse equilíbrio dependerá principalmente da força do PSD.

  7. A Iniciativa Liberal, em vez de cativar a abstenção, parece competir com o mesmo eleitorado do PSD, crescendo quando o PSD diminui e vice-versa. Para além disso, tal como o Bloco de Esquerda, é um fenómeno eminentemente urbano.

  8. Todos somados, os partidos do centro-direita, apesar de apresentarem uma dinâmica de crescimento, continuam sem ultrapassar os 40%. Por essa razão, os líderes do PSD e do CDS devem estar conscientes de que os ventos de mudança sentidos nalguns municípios de Portugal são ainda insuficientes para se vislumbrar uma mudança nacional.

  9. As mudanças podem ser saudáveis para a qualidade da democracia, permitindo interromper momentaneamente alguns vícios e clientelas, e dar oportunidade a outros, como aconteceu em Lisboa. Mas, no contexto nacional, a maioria dos Portugueses continua à procura de uma alternativa política a quem possa confiar a gestão dos enormes desafios ambientais, demográficos, sociais e económicos que Portugal atravessa. Sendo certo que o PS foi o partido que mais votos perdeu nestas autárquicas, o PSD ainda tem um longo caminho para se erguer como o principal farol político da nossa democracia.

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