Com uma excepção aqui, outra ali, todas as semanas o Partido Comunista apresenta à Assembleia Municipal de Lisboa documentos a pedir dinheiro para a “cultura”. Nuns dias o teatro, noutros o cinema, ou a dança, ou a música. E homenagens a escritores e autores disto tudo, com bustos, prémios “literários”, ruas e bibliotecas baptizadas com os nomes das relíquias deles. É bom pararmos para tentar perceber o que o PCP realmente quer. A que é que o PCP chama “cultura”? O que é que em boa verdade andamos todos a pagar? O PCP traz os pretextos mais ilustres; mas por que razão, sobretudo em matéria de espectáculos, a “cultura” do PCP tem sempre de ser subsidiada?

Alguns mistérios persistem. Quanto custa? Quantas pessoas serve? Quantas almas estão interessadas no teatro ou no cinema promovidos pelos comunistas? Para a dúvida imediata, temos resposta. O PCP quer dinheiros públicos para pagar àquela gente toda: actores, cenógrafos, coreógrafos, encenadores, equipa técnica, instituições; por regra, gente ou grupos ligados ao PCP e à extrema-esquerda.

Qual é o problema?, pergunta o cidadão distraído. O problema é toda a argumentação do PCP ser construída em cima de atenções a fingir. Mostra-se preocupado com a “cultura”, com o “acesso” à “cultura”, com o “direito” das pessoas à “cultura” – do teatro, do cinema, e dos espectáculos. Mas não vemos, nunca vemos, o PCP – ou a extrema-esquerda – preocupar-se com as audiências. Pelo contrário.

No entender dos comunistas, as audiências são desprezíveis e os espectadores são secundários ou incultos, como sempre dizem. O que interessa é a obra de “arte”, que deve naturalmente ser subsidiada com dinheiros públicos. Para os artistas da extrema-esquerda, que são a nossa maior parte, falar de audiências é uma heresia. Eles acham desprestigiante pensar ou fazer espectáculos a pensar nas audiências. É uma cedência aos “valores burgueses”; é próprio do cinema ou do teatro comercial, portanto, é próprio do capitalismo e é contra a verdadeira “arte”. No manual comunista, a “arte” tem de ser “independente”; das audiências, mas não do Estado.

Parece paranóia ou extravagância, custa a acreditar. Mas os teóricos comunistas estabeleceram ideologia para justificar o tipo de espectáculos que as audiências não compreendem. A ideia de “estranhamento”, teorizada por Chklovsky, tortura os espectadores das horríveis peças de teatro de Bertold Brecht. Sim, os comunistas fazem de propósito. Consideram que o teatro ou o cinema, ou quaisquer outros espectáculos, não devem ser reproduções reconhecíveis do real; devem ser a negação das normas conhecidas, devem impor o desconforto às audiências.

Tudo isto convém aos “artistas” da extrema-esquerda. Obviamente, as audiências não aparecem, portanto não pagam os espectáculos; e os “artistas” sentem-se justificados para parasitar o Estado com obras de “arte” que ninguém quer ver. Mas convém ainda mais aos partidos da extrema-esquerda, como o PCP e putativos substitutos, que desta maneira conseguem manter recrutados e organizados batalhões de activistas profissionais pagos pelo Estado para fazer política fora do parlamento. Os comunistas rejeitam a democracia representativa. Não acreditam no parlamento.

O principal poder dos comunistas está fora do parlamento, dividido entre os sindicatos, as autarquias, as universidades, os media, os grupos de pressão, e esta espécie de “cultura”, lugares onde se promovem uns aos outros. Não há meio de os partidos da direita perceberem: é disto que eles são cúmplices quando atribuem, nos orçamentos do Estado ou municipais, verbas para as obras “artísticas” que a extrema-esquerda reclama. Foi exactamente assim que se permitiu à extrema-esquerda crescer muito para além da verdadeira expressão eleitoral. Nunca se preocuparam em atrair e respeitar as audiências. Os comunistas querem os financiamentos, as verbas, as isenções, os subsídios e os dinheiros públicos para espalhar ideologia e para fazer política disfarçada de “cultura”.