O Japão acabou, na prática, com oitenta anos de contenção estratégica: Com efeito, o Governo nipónico aprovou um orçamento de defesa recorde de 58 mil milhões de dólares, nada mais nada menos que o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Não se trata apenas de gastar mais: trata-se de uma mudança profunda estratégica, assumida e acelerada realizada num contexto de aumento grave do risco de conflito nesta região do globo onde, apesar de todas as diferenças culturais, o Japão ainda é o mais próximo de um aliado com que as democracias podem contar.

Mas falamos aqui de que números? 6,2 mil milhões de dólares destinados a mísseis de ataque concebidos para atingir alvos a longa distância fora do território japonês; 1,13 mil milhões de dólares para financiar a modernização do míssil de cruzeiro Type-12, com alcance até 1.000 km, suficiente para atingir alvos no território continental da China. Mais 640 milhões de dólares para o programa SHIELD, que prevê enxames massivos de drones aéreos, navais e subaquáticos até 2028. Acrescem ainda a estas verbas mais de 1.000 milhões de dólares para o desenvolvimento de um caça de nova geração, em parceria com o Reino Unido e a Itália. Com este orçamento, o Japão atinge 2% do PIB em despesa militar até março, dois anos antes do previsto, tornando-se o terceiro maior investidor militar do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China.

O gatilho político foi explícito: Em novembro, a primeira-ministra japonesa declarou que o Japão responderá militarmente caso a China avance sobre Taiwan. Pequim respondeu da forma habitual: avisos de viagem aos seus cidadãos, cancelamento de cimeiras e acusações de “ressurgimento militarista nipónico”: isto vindo de um regime que construiu ilhas artificiais armadas, pilha despudoradamente zonas pesqueiras em todo o mundo, viola espaço aéreo estrangeiro e ameaça abertamente os países democráticos com fronteiras marítimas no sul da China e a soberania de Taiwan…

A leitura estratégica em Tóquio, mas também de Taipé (Taiwan) e Seul (Coreia do Sul) é simples e decorre diretamente do que se está a passar na Ucrânia e com o novo posicionamento estratégico dos EUA: a agressão passou a compensar. A permissividade face à ocupação de território soberano por parte da Rússia – com a complacência direta ou indireta da administração americana sob Donald Trump e o bloqueio sistemático de respostas firmes por regimes-fantoche como os da Hungria e da Eslováquia – criou um precedente histórico perigoso. Mostrou que é possível ocupar território estrangeiro, resistir a sanções e sobreviver politicamente.

Com efeito, a probabilidade de uma tentativa chinesa de invasão de Taiwan é hoje elevada, com uma janela operacional clara entre 2026 e 2027. É este o curto prazo realista que Japão, Taiwan e Coreia do Sul têm para criar uma dissuasão credível antes de Pequim testar a fragmentação do Ocidente e, para agravar tudo, é provável que o regime norte-coreano procurará somar-se a esse movimento, explorando a inépcia estratégica da atual administração americana.

Chamar a isto uma corrida ao armamento é um erro. O que está a acontecer é uma preparação tardia, feita sob pressão, depois de décadas de sinais ignorados. A última vez que o Pacífico assistiu a um rearmamento simultâneo, rápido e em larga escala foi nos anos que precederam a Segunda Grande Guerra precisamente quando as democracias confundiram prudência com inação durante quase (como agora) duas décadas.

O Japão não está a regressar ao militarismo do passado. Está a abandonar a ilusão de que a História terminou. E fá-lo porque aprendeu a lição que a Europa continua a evitar: quando a agressão não é travada a tempo, o custo da paz sobe brutalmente e paga-se sempre tarde demais e a um custo desnecessariamente alto.