Vivemos numa sociedade que oscila entre a ignorância letrada, a má-fé e a pobreza tipificada na tricotomia imprensa-política-academia. É tempo de qualquer português ter consciência do que vale enquanto indivíduo e de como se salvaguarda a sua dignidade. As pessoas não podem continuar a ser enganadas de forma tão grosseira.

Bê-á-bá da sociedade viciada

Se o Manifesto do Partido Comunista, de Karl MarxFriedrich Engels (1848), introduziu a distribuição da riqueza como princípio fundamental que permite compreender as sociedades, Exit, Voice, and Loyalty, de Albert Hirschman (1970), atribuiu conteúdos concretos ao princípio não menos fundamental da participação dos indivíduos na vida social. A teoria celebra cinquenta anos e não é mais aceitável que os seus princípios continuem ausentes do debate público.

Albert Hirschman argumentou que tanto podem ser benéficos como nocivos os indivíduos limitados às rotinas quotidianas, os que tiram o corpo fora de conflitos e tensões, os que fingem que a realidade não lhes diz respeito, os passivos, atitude que designou por exit. O mesmo com os indivíduos predispostos a transformar a realidade, os que não sabem estar quietos e calados, os ativos que se impõem à tranquilidade dos demais, atitude que designou por voice. Rigidez e excessos de passividade social (ou exit) geram submissão e estagnação, assim como rigidez e excessos de ativismo social (ou voice) geram instabilidade e destruição. Tais atitudes e comportamentos contraditórios são ambos fundamentais e quanto mais se equilibram tanto maior a estabilidade e prosperidade de instituições, economias, democracias ou sociedades.

O terceiro elemento da teoria é a loyalty. Mesmo aparentemente não fazendo nada, todos participamos na vida social através das instituições das quais somos parte integrante (a nossa família, escola, igreja, clube desportivo, associação, universidade, empresa, partido político, entre outras, para chegar ao nosso Estado), e somos leais a essas instituições porque delas esperamos algum tipo de benefício material, afetivo, espiritual ou de outra natureza, ainda que não tenhamos essa consciência.

É o conjunto das dinâmicas das instituições que condiciona o destino coletivo e, desse modo, não existe descontinuidade entre indivíduo, instituição e sociedade.

Neste meio século de existência da teoria de Albert Hirschman, as sociedades ocidentais deixaram-se dominar pela ascendência continuada da voice e desvalorização do exit. O desequilíbrio social gerado, hoje profundo, caracteriza-se por uma voice que se tornou, ao mesmo tempo, poderosa e monopolizada pelo campo cívico e político do ativismo de esquerda, com a consequente exclusão dos ativismos incompatíveis com esse monopólio (cristãos, de direita, da iniciativa privada, entre outros). Uma voice tão fortemente amputada compromete a estabilidade, prosperidade e renovação das sociedades.

O sentido universal da orientação moral das sociedades foi, nesse contexto, substituído pela seletividade ideológica, uma vez que o ativismo minoritário da voice progressista conseguiu monopolizar o ideal da busca do bem social, o que remeteu as responsabilidades pelo mal social para a tranquilidade existencial da maioria, os indivíduos comuns. Tal sequestro do exit pela voice é sinónimo de terrorismo moral.

Atitudes de introspeção, como projetos de vida religiosos ou intelectuais ou o simples afastamento da estridência do espaço público, transitaram de virtudes cívicas para anátemas, mesmo quando os indivíduos compensam o retraimento do espaço público com um maior investimento na qualidade da vida familiar ou profissional. Investir em deveres cívicos fundamentais como educar bem os filhos e orientá-los para o sucesso escolar ou gerar empregos mesmo numa pequena empresa não subsidiada pelo Estado – entre inúmeras formas de participação social que evitam perturbações e encargos suplementares para os sistemas de ensino, saúde, segurança pública, justiça, assistência social, entre outros – hoje pouco ou nada valem quando comparados a toda a sorte de causas ativistas progressistas.

A adulteração imposta ao ideal de participação de cada um de nós na vida coletiva subverteu a relação entre o essencial e o acessório, a via instigadora da histeria, esterilidade, agressividade, instabilidade, dogmatismo. Constitui dever cívico não apenas libertar a voice da hegemonia da esquerda ativista, como também resgatar o valor social do exit, a dignidade dos que querem viver tranquilos na sua família, profissão, sociedade, país, e dos seus antepassados.

Bê-á-bá da moral corrompida

Partilhemos uma máxima: é o interdito que funda o grupo, não é o grupo que funda o interdito. Interdito é aquilo que não se pode dizer ou fazer para que as sociedades possam existir. São os interditos que instituem a moral social sem a qual nem a condição humana faz sentido nem as sociedades são viáveis, a começar pelo Não matarás!, Não furtarás!…

O problema reside na imposição às sociedades de caminhos na direção contrária.

O interdito moral da morte, ou da inviolabilidade da vida humana, passou a poder ser quebrado. Depois de as sociedades terem domesticado a morte em muito por causa dos avanços na medicina, do acesso à saúde, do controlo da criminalidade violenta, da interdição da pena de morte, da promoção da paz ou do aumento da esperança média de vida, a legitimação moral e legal do direito de matar está de regresso através da interrupção voluntária da gravidez ou da eutanásia. Mesmo que essas práticas sejam restritas, não é possível negar que o interdito de matar foi quebrado a reboque da liderança ativista da esquerda, o que abriu a porta à subversão da mais ancestral utopia moral que sustenta a sanidade mental da espécie.

O interdito moral da violação da integridade do indivíduo, dada a impossibilidade de fragmentar a mente do corpo, também está a ser quebrado. O Erro de Descartes, segundo o neurocientista António Damásio (1994), foi o de ter dado início a esse caminho intelectual no século XVII. As consequências materializaram-se no presente por ação de ideologias políticas que garantiram proteção legal a intervenções cirúrgicas que autonomizaram o sexo do género, isto é, o indivíduo passou a poder ser fragmentado entre o biológico e o mental. Ainda que hesitemos em dilemas que nunca suprimem o sofrimento, não restam dúvidas que foi quebrado um interdito moral fundamental a reboque da liderança de uma esquerda ativista sempre predisposta a entregar os destinos dos indivíduos nas mãos do Estado, ao contrário da tradição moral do Ocidente pelo menos desde Martinho Lutero (século XVI).

Não menos decisivo é o interdito moral da violação da propriedade individual e privada. Quanto mais quebrado tanto menos estáveis e prósperas são as sociedades. As nacionalizações da propriedade da Igreja ou de particulares têm constituído, ao longo da história, os maiores atropelos. Os sintomas perpetuam-se em excessos de carga fiscal que evidenciam a desproteção de indivíduos e sociedades face à violência do poder tutelar do Estado. Manifestam-se em ideologias políticas ou em teorias sociológicas e psicológicas que justificam e, por isso, alimentam a criminalidade como forma de repor a desigual distribuição da riqueza adulterando o significado moral e social não apenas da propriedade, como da justiça. Os mesmos pressupostos alimentaram a propagação da corrupção, outro fruto da desregulação civilizacional da representação da propriedade na mente dos indivíduos, ou a leviandade com que se deslegitimam as fronteiras nacionais como se a identidade dos povos nada valesse e como se não se sustentasse na filiação ancestral a uma propriedade territorial coletiva. Idênticos sintomas manifestam-se na grafitagem de edifícios ou na vandalização de automóveis, por norma propriedade de não-abastados, assim como alastram em escolas onde hoje se ensina a gerir um orçamento participativo, isto é, a distribuir o fruto do trabalho alheio antes do próprio indivíduo ter concluído a sua formação escolar, antes de ter trabalhado e antes de ter ganho o seu próprio salário, o que subverte os princípios tradicionais da relação moral e social com a propriedade. Em suma, o interdito moral da violação da propriedade vem sendo quebrado a reboque da liderança ativista da esquerda, um domínio no qual as boas intenções políticas espoletaram sempre consequências sociais perniciosas.

No atual contexto civilizacional, o interdito moral da violência não poderia ficar imune. As quebras manifestam-se no imediato ou a prazo das mais variadas formas, como na violência que passou a atingir figuras de referência de regulação da vida social como professores, polícias, médicos, ou figuras maternas e paternas em contextos familiares.

Bê-á-bá da doença social degenerativa

O desequilíbrio das sociedades resultante, por um lado, da sobrevalorização da voice progressista contra a tranquilidade existencial dos indivíduos comuns, o exit, e, por outro lado, da quebra sucessiva de interditos morais define a doença social degenerativa. Norte-americanos, brasileiros ou britânicos fizeram escolhas políticas com valor social terapêutico. A casta orgulhosamente retardada e poderosa dos portugressistas mantém os demais portugueses mentalmente sequestrados. Numa sociedade assim, não é possível recusar razão aos que dizem Chega!