Os EUA não são o único lugar do mundo onde o sarampo está a aumentar. Na verdade, o surto que fez as páginas dos jornais nas últimas semanas parece estar controlado. O aumento do número de casos abrandou (378 à data de hoje, de acordo com o CDC) e não houve mais mortes. A Europa, de que quase não se fala, está bastante pior. O ECDC não actualiza os números à semana, como faz o CDC americano, mas só em janeiro foram registados na UE e no Espaço Económico Europeu (EEE) 1 033 casos. A Europa teve sempre mais casos do que os EUA. Os americanos, nos últimos 25 anos, só em 2019 tiveram mais de mil casos num único ano. A Europa tem tido na última década vários milhares de casos todos os anos.
Não é esse o único motivo de preocupação. Depois da pandemia, o aumento de casos tem sido explosivo. Depois de, em 2022, ter havido apenas 127 casos – o que é natural porque as restrições da pandemia reduziram fortemente o contágio, à semelhança do que aconteceu, por exemplo, com a gripe – os números voltaram a subir: em 2023 houve 3 973 casos e, em 2024, mais de 30 mil. Mais importante do que isso, os números são neste momento muito superiores aos do período pré-Covid. No último ano antes da pandemia, em 2019, houve “apenas” 13 mil casos.
O que é que aconteceu? Olhemos para a taxa de cobertura das vacinas. Tanto nos EUA como na Europa, ano após ano e independentemente do número de casos, há um padrão que se mantém constante: mais de 90% dos doentes não estão vacinados. Todos os surtos surgem em comunidades com taxas de vacinação insuficientes. Na UE, o país com mais casos é a Roménia (mais de metade do total). Na Roménia, de acordo com a OMS, menos de 80% das crianças estavam vacinadas em 2023.
Falha de cobertura, portanto. Não há dúvidas sobre isso. O ECDC espanta-se. Existe uma vacina “altamente segura” e “eficaz”, que faz parte de “todos os programas nacionais de imunização da UE/EEE”. Porque é que as pessoas não a tomam? O ECDC acha que é incompreensão. O velho obscurantismo do povo ignaro. Na sua página anunciam-se cursos para promover a “mudança dos comportamentos” e a “aceitação da vacina”. É preciso iluminar o povo.
Receio que não seja assim tão fácil. Na Europa não houve a politização da pandemia que se viu noutras paragens, mas houve prepotência e incompetência das autoridades políticas e sanitárias. As pessoas não viram os suecos morrer nas ruas, apesar de não fecharem escolas, restaurantes e esplanadas. Mas viram velhos morrerem em lares por falta de cuidados. Viram-se impedidos de atravessar a fronteira entre concelhos, uma coisa nunca vista. Viram-se proibidos de estar numa praia deserta a ler um livro ou de comer bolachas na rua! Viram o Papa rezar sozinho numa praça de S. Pedro vazia, num dos mais impressivos momentos televisivos em muitos anos, e depois viram a festa do Avante! Que pensar de tudo isto?
Os sinais estão lá. Os poucos que mostraram firmeza e eficácia colhem hoje os frutos, como é o caso óbvio do almirante. E as taxas de vacinação caíram.