Os comportamentos repressivos costumam estar associados à ala direita do espetro político. Até faz sentido quando pensamos em personagens históricas como António de Oliveira Salazar ou Benito Mussolini. No entanto, sabe-se lá porquê, esquecemo-nos de um nome inesquecível: José Estaline. Ditador? Sim. De direita? Não. Os regimes totalitários não escolhem partidos. Pelo contrário, os ingredientes necessários nem são muitos: sede de poder e um controlo extraordinário sobre a população.

Nada como uma crise de saúde pública para facilitar a colocação de uma trela no pescoço dos cidadãos que, lembrados dos interesses coletivos, mas esquecidos da vulnerabilidade gerada pela negligência dos interesses individuais, se deixam manobrar e submeter mais facilmente. O ser humano é um explorador nato. Procura continuamente impor o seu domínio sobre a natureza. Porque não sobre o próprio ser humano?

A censura já começou. Curiosamente, não por mão do Governo, mas sim da própria população. Por acaso, nem é assim tão estranho que a opinião pública leve ao nascimento de déspotas. Não terá Adolf Hitler sido eleito? Quanto às investidas contra a liberdade de expressão, pior ainda, contra a liberdade de imprensa, não há exemplo melhor do que o ataque a Rodrigo Guedes de Carvalho após a entrevista do passado dia 2 de maio a Marta Temido, ministra da Saúde. Fiquei positivamente impressionada com a tenacidade do jornalista que, pelas suas publicações nas redes sociais e intervenções no fecho do Jornal da Noite, me parecia estar passivamente encaixado na linha de pensamento da maioria. Estava enganada, pelo que peço desculpa.

Embora a ministra da Saúde nunca tenha vergado, o jornalista da SIC pressionou onde devia pressionar, revelando incoerências, hesitações e uma enorme ausência de transparência por parte da entrevistada. Basicamente, o dito pelo não dito, prática corrente na esfera política. Os exemplos são vários, mas basta um. A Igreja Católica não era equiparável à Assembleia da República e à CGTP aquando das polémicas associadas às comemorações do 25 de abril e do 1 de maio. No entanto, recebeu imediatamente o rótulo de instituição quando conveio ao Governo desresponsabilizar-se de exceções interesseiras e fazer parecer que a não celebração do 13 de maio foi desde sempre uma opção da Igreja. É bom ver que os governantes cumprem rigorosamente um dos dizeres mais hipócritas da língua portuguesa: “Faz o que eu digo, não faças o que eu faço.”

Bem jogado. Ou não, porque há sempre quem esteja atento. Parabéns a Rodrigo Guedes de Carvalho por não se deixar intimidar pela pressão política nem pela cegueira popular. O medo excessivo abre portas a abusos de poder. A saúde e a segurança dos portugueses não podem servir de pretexto para uma carta-branca eterna.