Durante quase dez anos, a política portuguesa viveu sob a influência de um triângulo improvável, mas extraordinariamente eficaz: Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e Luís Marques Mendes. Não formaram uma aliança, não partilharam um programa e nunca se sentaram juntos para decidir o destino do país. Ainda assim, funcionaram como os três vértices de um triângulo de poder, cada um ocupando um ângulo distinto  o institucional, o governativo e o mediático  que, articulados, moldaram o ambiente político, condicionaram o debate público e definiram o tom da vida nacional. Esse triângulo, difuso mas real, assentava numa combinação rara de visibilidade, autoridade e capacidade de moldar narrativas. E, como tudo o que parece eterno, também ele chegou ao fim,  embora os seus protagonistas, e muitos dos que os rodeavam, ainda não tenham percebido que o país mudou de geometria e já não responde aos mesmos estímulos nem às mesmas figuras.

Marcelo Rebelo de Sousa foi mais do que Presidente: foi o vértice institucional do triângulo, um verdadeiro sistema operativo. Criou um estilo presente, emocional, omnipresente na Comunicação Social , que transformou Belém num centro de mediação permanente e informal. A sua capacidade de ocupar o espaço público, de comentar tudo e de se colocar no centro de cada crise deu‑lhe um protagonismo raramente visto na democracia portuguesa. Durante anos, o país discutiu mais o que o Presidente  insinuava do que o que o Governo fazia, numa espécie de presidencialismo de opinião que se tornou rotina. Mas o modelo saturou. A erosão da autoridade, o desgaste acumulado e o cansaço público deixaram‑no a falar para um país que já não reage da mesma forma, revelando os limites de um estilo que depende demasiado da atenção mediática e da empatia instantânea.

António Costa ocupou o vértice governativo do triângulo. Dominou a política portuguesa como poucos desde 1976. Construiu a Geringonça num momento em que tal parecia impossível, governou com estabilidade num contexto europeu turbulento, conquistou uma maioria absoluta quando as maiorias pareciam coisa do passado e tornou‑se o centro gravítico do sistema. A sua capacidade de negociação, de controlo interno e de leitura táctica do país fez dele uma figura quase inevitável. O país habituou‑se à sua presença como se fosse permanente, como se o sistema político orbitasse naturalmente à sua volta. A sua saída abrupta não derrubou apenas um Primeiro‑Ministro; derrubou a ilusão de previsibilidade que sustentava o sistema e expôs a fragilidade de um modelo demasiado dependente de uma única figura.

E depois há Luís Marques Mendes, o vértice mediático do triângulo. Não governou, não legislou, não vetou e, ao contrário de Marcelo e Costa, não se submeteu a eleições há mais de quinze anos. A sua influência não veio do voto, mas do ecrã e durante muito tempo isso bastou. O seu comentário semanal funcionou como pré‑anúncio oficial da política portuguesa, antecipando decisões, interpretando conflitos e definindo temas. A sua presença constante nos media criou a sensação de que tinha um papel estrutural no sistema, mesmo sem exercer qualquer função executiva. Mas o país fragmentou‑se, a agenda tornou‑se imprevisível e o comentário perdeu o monopólio que um dia teve. A centralidade mediática já não garante centralidade política.

O PSD, por instinto partidário, teria sempre de apoiar o seu ex‑líder, mas quem rodeava Marques Mendes, confundiu popularidade com notoriedade. Ele era omnipresente e influente no comentário, mas isso nunca significou ter apoio eleitoral real. As pontes que construiu não resistiram ao teste nas mesas de voto.

A derrota de Marques Mendes não deve ser atribuída a Luís Montenegro, mas sim à bolha que insiste em ignorar a realidade e se surpreende sempre que ela contraria as suas certezas. A notoriedade mediática foi tratada como força política e o resultado foi inevitável. Todos os que apoiaram Marques Mendes, descobriram tarde demais que visibilidade não é voto.

O triângulo acabou não por ruptura, mas porque ficou fora de prazo e obsoleto.

E talvez o mais curioso seja isto: os três vértices ainda não perceberam totalmente que o país mudou de geometria.