Ferro Rodrigues inspirado pelo Covid19 comparou no passado Sábado a austeridade a um vírus para concluir que o país já está vacinado, advertindo, porém, que é preciso ter cuidado com as mutações. Não sei se o país está vacinado ou não, mas há uma coisa em que Ferro tem razão: na pertinente preocupação com as mutações. É porque se nesta matéria há epidemiologistas competentes Ferro Rodrigues é seguramente um deles. Isto porque o vírus da austeridade em Portugal chama-se PS, e quanto a mutações já tivemos o PS1977, o PS1983 e o PS2011.

Em 1977 Mário Soares, Primeiro-ministro socialista, chama o FMI pela primeira vez. Por essa altura o país estava com racionamento de bens e a inflação nos 20%. Nas ruas a crispação estava ao rubro e nas carteiras dos portugueses o escudo não valia um chavo. A 26 de Agosto de 77 o semanário O jornal fazia capa com Mário Soares e a frase ”Mais um furo no cinto”. Não era austeridade, era dieta. E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, ouvia-se na telefonia. Um país de poetas.

A culpa? Da crise petrolífera.

1983, segunda chamada do FMI. Os números do desemprego estavam ainda mais altos e a dívida pública a olhar o céu. O Primeiro-ministro? O socialista Mário Soares outra vez. Desta feita, porém, acompanhado pelo PSD, num governo de emergência nacional. Não, não era o Rui Rio, que nessa altura só tinha 26 anos. Nessa altura era Mota Pinto, liderando o que sobrava das “opções inadiáveis”, a corrente esquerdista que queria o PSD na Internacional Socialista, e que tinha feito a vida negra a Sá Carneiro. A 1 de Junho de 1984, à RTP, Soares declara que “Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos.” Onde é que já ouvimos isto? Mas se é um socialista a dizer, pode ser.

A culpa? Da subida das taxas de juro internacionais.

Em 2004 o Presidente da República, o socialista Jorge Sampaio, decide dissolver a Assembleia da República. Com isto, e ao som do mantra há mais vida para além do défice, escancara as portas do poder executivo ao PS. Sete anos depois, Abril de 2011, o Primeiro-ministro socialista José Sócrates anuncia o terceiro pedido de ajuda externa da história da democracia. Nestes sete anos a dívida pública passou de 68,4% para 111,4% do PIB e o país fica uma vez mais à beira da bancarrota.

A culpa? Dos mercados financeiros.

O povo diz que não há uma sem duas, nem duas sem três. O PS, que sabe sempre o que é melhor para o povo, acha que o ditado está incompleto. Depois de aprovar o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) 1, o PEC2 e o PEC3, ainda tenta o PEC4, que o parlamento obviamente chumba. Sócrates chama a troika, negoceia o memorando de entendimento que obriga Portugal ao férreo caderno de encargos para os anos seguintes, e parte para Paris… antes da temporada em Évora.

A culpa? Do Passos.

Há nesta história duas conclusões a tirar. A primeira é que PS, como naquela anedota do homem que no leito da morte recorda que a mulher esteve sempre presente nas desgraças da sua vida, está sempre ligado à austeridade em Portugal. A segunda é que o PS, por força do seu complexo de culpa e das suas narrativas propagandísticas, é negacionista – a culpa nunca é sua – e tem um problema com a palavra.

E quanto a esta última conclusão, as recentes prestações oscilantes do Primeiro-ministro confirmam-na. Do “não temos novos programas de austeridade e novas troikas” (10.04) e do “podem estar seguros que não adoptarei a austeridade de 2011” (11.04) ao “Austeridade? Não dou uma resposta que amanhã não possa garantir” (18.04), para um novo passo atrás com o “não se pode resolver [a crise provada pela pandemia] com respostas de austeridade” (22.04), o desconforto é evidente. E o desconforto tem origem na narrativa que o PS quis alimentar isentando-se das gravosas responsabilidades que são suas: a de que a austeridade do período 2011-2015 foi uma opção sádica e voluntária do governo PSD-CDS. Isto é próprio de quem não é sério, de quem não aprendeu com os erros e de quem quer continuar a governar tendo por base a ficção dos dias eternamente felizes em que todos vamos ficar bem. Ora, num momento com a gravidade económica que já atravessamos, num momento em que os mercados foram encerrados sine die, num momento em que as perspectivas de recessão apontam para cenários dantescos sem semelhança nos últimos 100 anos, com o desemprego galopante, o lay-off a afectar já mais de 1 milhão de trabalhadores, e com a procura desesperada e crescente do Banco Alimentar por parte de famílias de classe média, como Isabel Jonet esta semana anunciou, persistir nesta fantasia é de uma irresponsabilidade sem nome.

Rigor e verdade – por oposição a tacticismo e propaganda – talvez fosse a base boa para assegurar que a vacina de que Ferro Rodrigues falava possa ser administrada; uma vacina que combata as mutações do PS. Mas palpita-me que a vacina contra o Covid19 chega primeiro.