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O Partido Popular Democrata (PPD) vai ter maioria absoluta nas próximas eleições; e isso deve alegrar o país. Calma, adiem por um bocadinho os vossos insultos e zombaria: eu respondo às vossas objecções já de seguida. Antes porém – spoiler alert! – vale a pena ir dizendo que o actual sistema partidário está, porém, desorganizado, confuso e incapaz de responder às dinâmicas do eleitorado de centro-direita. Mas vamos à maioria absoluta do PPD, às vossas objecções e já voltamos ao sistema partidário.

“As próximas eleições são presidenciais, pessoais, logo os partidos não estão a concorrer”. É verdade. Mas também é verdade que os partidos apoiam candidatos, afirmando assim a sua mundividência e o seu projecto para Portugal. Este ano não é diferente e o PPD,  apesar de não ter um candidato único, mas dois, vai ganhar as eleições. Primeiro, porque um deles vai, inequivocamente, ganhar as eleições: Marcelo Rebelo de Sousa. Depois, porque o seu segundo candidato, vai ter uma votação muito honrosa e surpreendente: Tiago Mayan.

“Como assim, dois candidatos?” Porque ante a certeza de vitória do seu espaço político e ausência de risco vindo da esquerda, e só por isso (sublinho: ante a certeza de vitória), o PPD resolveu – num exercício de grande liberalidade – aproveitar o momento para elevar o debate, aumentar a exigência e, ainda, discutir e afirmar novas ideias.

“Isto é um disparate, porque Marcelo Rebelo de Sousa é o candidato do PS”. Errado! O PS, que não gosta de perder, não apoia ninguém. O PS, entre a sua ala da esquerda radical, a sua ala de centro-esquerda e a sua ala oportunista está dividido entre quatro candidatos: João Ferreira, Marisa Matias, Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa. Só assim, na boa tradição da sua nova sucursal da Soeiro Pereira Gomes, poderá afirmar, com o despautério de sempre, na noite das eleições, que saiu vencedor. Porque, como na fábula do escorpião e da rã, e como é próprio de António Costa, está na sua natureza. O partido que almeja ser o pivot de um single party system não se pode dar ao luxo de perder umas eleições. Ora, como isso aconteceria inexoravelmente, resolveu não ir a jogo.

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“Mas o Marcelo tem sido aliado do PS e o seu primeiro mandato foi tudo menos de direita, como é que pode agora ser um candidato do PPD?” Primeiro, porque um político não pode ser avaliado só por um exíguo postigo temporal. Sobretudo se se tratar de eleições presidenciais e, ainda mais, se se tratar de um político de longa data e tantas vidas como Marcelo Rebelo de Sousa. É verdade que Marcelo cometeu muitos erros durante o primeiro mandato e que defraudou muitos eleitores de direita. Mas não é a avaliação do mandato presidencial que aqui estou a fazer; nem sequer a apelar ao voto em Marcelo Rebelo de Sousa. O que aqui estou a afirmar é que um político fundador do maior partido de centro-direita português, que concorreu contra uma coligação de esquerda à Câmara Municipal de Lisboa (que é sempre um acto de coragem, quando os políticos querem afirmar que a têm) e que liderou uma AD, não pode, em bom juízo,ser considerado um candidato de fora do espaço político do PPD.

Ainda uma nota sobre o mandato presidencial que ora finda, porque isso nos levará à última objecção: um Presidente da República “conservador” exerce o seu mandato sempre em favor da estabilidade política. E um Presidente da República de centro-direita não sujeita o país a instabilidade política inconsequente, sabendo que no rescaldo dessa instabilidade a sua área política não está (ainda) em condições de tomar conta do país. E para quem acha que não é possível defender Marcelo depois de tanto despautério socialista, e eu estou entre os que têm muita dificuldade em fazê-lo, porque é que não levantam, antes, essa objecção aos militantes e dirigentes do PSD e do CDS que não souberam – ainda agora, a avaliar por todas as sondagens que têm saído – inverter essa tendência? Deveria Marcelo ser a oposição que a oposição não foi?

E eis-nos chegados à última objecção, que é, na verdade, a vossa primeira: “Mas qual PPD, isso não existe, está a falar do PSD?” Não, não estou a falar do PSD. E, sim, é verdade que o PPD não existe. Institucionalmente falando, claro. Porque política, eleitoral e sociologicamente ele existe e está diluído no PSD, no CDS e na IL; e até no Chega. Já aqui disse que não se compreende como é que os partidos do espaço político de centro-direita obrigam um eleitor desse espaço a ter de escolher, em cada eleição, entre votar PSD, CDS ou Iniciativa Liberal; sabendo de antemão que isso só vai beneficiar o PS, considerando, desde logo, a distribuição de mandatos pelo método de Hondt. A pergunta que se impõe, nuances à parte, porque isso é próprio até dentro dos partidos, é a seguinte: as diferenças – sobretudo num momento em que urge uma alternativa democrática, reformista e personalista à governação socialista com o apoio da extrema-esquerda – entre os eleitores do PSD, do CDS e da IL são assim tantas e inconciliáveis, que se possam dar ao luxo de desperdiçar uma maioria eleitoral, favorecendo o PS e o contínuo definhamento nacional?

Coloco a questão de outra forma: quantos portugueses, hoje, não se reveriam num Partido Popular Democrata, que afirmasse que “temos [hoje] um determinado modelo de sociedade de base colectivista, [hiper estatizado]. O nosso modelo é diferente, é de base personalista. Queremos um sistema para as pessoas e não as pessoas para um sistema. [Porque] para nós, para qualquer político que encare a política como serviço do seu país, sem melhoria das condições concretas dos portugueses, não há política que valha a pena (…), e um caminho desses seria a ruína da própria liberdade e da própria democracia.”? E, ainda, quantos não se reveriam num Presidente que afirmasse ser “estruturalmente antipresidencialista e que, em democracia, a política deve ter no Parlamento a sua razão e o seu objectivo”?

Sim, os mais argutos sabem de quem são estas palavras. Aos outros, informo: são de Francisco Sá Carneiro e foram proferidas em momentos diferentes, no longínquo ano de 1979. A todos, digo: falta cumprir este projecto. Como? Centrando-nos no essencial, aproveitando a oportunidade e tendo verdadeira e pragmática vocação de poder. Para quem tem dúvidas, na noite de dia 24 de Janeiro somem os votos de Marcelo Rebelo de Sousa e de Tiago Mayan e pensem onde é que esta maioria poderia levar Portugal.

“A lado nenhum, porque isso pura e simplesmente não existe no sistema partidário”, diz o cavalheiro aí de trás? De facto, neste momento, o PSD de Rui Rio, enjeitando o legado da PàF, resolveu tornar-se num partido situacionista de centro-esquerda; e o CDS resolveu, bom…, o CDS, para ser simpático, não resolveu propriamente nada. Quanto aos novos partidos, o Chega é o que é, e o que é, é muito distante disto. A Iniciativa Liberal, como é próprio de novos partidos, está a fazer a sua afirmação, marcadamente ideológica, e isso garante-lhe um certo crescimento, mas reduz-lhe muita amplitude. Em síntese, os partidos de centro-direita estão divorciados de uma maioria sociológica, política e eleitoral. E isso é um desperdício.

Post scriptum: O ano? 1999. Manel, mineiro de Aljustrel e militante da UDP, chega satisfeito e esperançoso de uma reunião em Lisboa. “Então, que tal corre aquilo?”, pergunta-lhe um velho amigo comunista. “Agora é que é, temos ali um grande projecto. Aquilo está cheio de maricagem, mas não é isso que nos vai impedir de prosseguir.” Aquilo era o Bloco de Esquerda. A história foi-me contada pelo amigo comunista comum. A maricagem, nas palavras daquele velho mineiro, era a militância gay do projecto que agregava PSR, UDP e Política XXI. A pergunta que ocorre é: o que raio juntou mineiros de Aljustrel a intelectuais de Lisboa e Coimbra, homofóbicos tradicionais e militantes LGBT? A resposta: o essencial, a oportunidade e o projecto de poder. As diferenças sociológicas e políticas entre os eleitores de centro-direita são hoje, seguramente, menores que estas.