1 O sistema político português mudou este domingo. O bipartidarismo acabou e a partilha de poder entre PSD e PS está realmente ameaçada pelo Chega — que provavelmente deverá ser o segundo grupo parlamentar com mais deputados com a conclusão do escrutínio dos votos da emigração. O Chega já não pode ser visto como um fenómeno conjuntural. Já é uma força estrutural do regime.

A segunda nota geral é que a AD reforçou claramente a sua votação face há um ano. Para já, teve mais 140 mil votos, mais 10 deputados, ganhou em mais mais quatro distritos (no total, 13 no continente e nos Açores e na Madeira) e em mais 56 concelhos, venceu claramente em todo o litoral de Viana do Castelo até Lisboa e nas principais cidades do país.

Luís Montenegro foi claramente legitimado nas urnas. Tendo em conta o que está na origem destas eleições, isso é algo muito relevante do ponto de vista político. Pedro Nuno Santos fez do caso Spinumviva um dos eixos da sua campanha. Disse e repetiu que Luís Montenegro não era honesto, que não era sério, que misturava os negócios com a política e que tinha um problema ético. Os portugueses discordaram do secretário-geral do PS. Montenegro quis, desde o início, fazer destas eleições um referendo à sua integridade e ganhou esse referendo.

Em termos de governabilidade, parece que vamos continuar na mesma. Será mesmo assim?

2 Vamos por partes — e começando pelos desafios de Luís Montenegro e a governabilidade. É verdade que tínhamos um governo minoritário e vamos continuar a ter um governo minoritário. E não podemos ter eleições durante um ano. Mas esses factos são precisamente aqueles que fazem com que a governabilidade tenha melhorado de forma significativa. O receio que existia de mini-ciclos poderá não concretizar-se por duas razões essenciais:

  • A AD tem, para já, 89 deputados. Ou seja, tem mais 20 deputados do que toda a esquerda junta.
  • Se juntamos a Iniciativa Liberal (IL), são 97 deputados — mais 29 deputados do que todos os partidos de esquerda.

Das declarações de Luís Montenegro e de Rui Rocha ficou claro que os dois partidos não deverão formar nenhum Governo de coligação e, muito provavelmente, não farão nenhum acordo de incidência parlamentar. Por uma razão simples: os votos da IL não são fundamentais para ultrapassar toda a esquerda, logo os liberais não somaram.

Montenegro foi assertivo: o primeiro-ministro saiu com legitimidade reforçada, o programa da AD foi viabilizado pelos eleitores e será o programa de Governo. E, colocando o ónus da governabilidade nas oposições, Montenegro defende que o povo quer que o Governo dialogue com os restantes partidos.

Isso coloca, em primeiro lugar, uma responsabilidade ao Partido Socialista (PS) — que teve o segundo pior resultado da sua história. Já lá vamos às razões particulares para a derrocada do PS mas parece-me evidente que a AD vai confrontar os socialistas com as suas responsabilidades (nomeadamente, desde 2015) para que viabilizem o Executivo e tenham um compromisso sério com a estabilidade.

O PS de António Costa está na origem de duas mudanças estruturais do nosso regime. Em primeiro lugar, quando quebrou a regra de “governa quem ganha as eleições”. E, pior, quando rompeu com o passado do PS de Mário Soares e fez um acordo parlamentar com a extrema-esquerda do BE e da CDU.

Nos mandatos de Costa, PSD e IL eram equiparados ao radicalismo do Chega, de forma a fazer do PS o partido charneira do regime. Quer António Costa, quer Ferro Rodrigues, quer Augusto Santos Silva (os dois últimos como presidentes da Assembleia da República) tudo fizeram para que o Chega fosse um partido relevante que iria entalar o PSD entre o PS e o André Ventura.

O custo político de tal estratégia foi simples: o Chega subiu de forma exponencial e, ironicamente, o monstro que o PS criou acabou por começar a comê-lo.

3 Falemos agora dos resultados de Pedro Nuno Santos nestas legislativas. Sem paninhos quentes, verificou-se uma derrocada do PS nestas eleições. O seu pior resultado tinha sido em 1985 — nas primeiras eleições do fenómeno do PRD de Ramalho Eanes — com 20,77% e 57 deputados. Pois bem, o segundo pior resultado da história do PS ocorreu em 2025: 58 deputados e 23,4% dos votos, para já. A título de curiosidade, o PS teve 22,24% dos votos em 1987 mas elegeu 60 deputados.

Toda a declaração de derrota de Pedro Nuno Santos demonstra por que razão o secretário-geral do PS perdeu as eleições. Em primeiro lugar, cometeu o erro de ir para eleições com base numa estratégia eleitoral simples: Montenegro não é honesto, Montenegro não tem idoneidade e Montenegro mistura negócios com a política.

Sempre defendi que tal estratégia do PS era um erro colossal. Ao fazer da Spinumviva um eixo da sua campanha, tal erro foi tão grave como ir para eleições sem ter um programa eleitoral de alternativa consolidada. E sem que existisse clima para uma mudança depois de oito anos de governo do PS.

Ora bem, os portugueses não deram razão a Pedro Nuno Santos. Pelo contrário, reforçaram a votação em Montenegro e disseram claramente que confiam no primeiro-ministro.

E o que faz Pedro Nuno no seu discurso deste domingo? Insiste exatamente no mesmo discurso e nas mesmas palavras sobre a alegada ausência de seriedade de Montenegro. É como se não tivessem existido eleições este domingo e os portugueses não tivessem rejeitado de forma clamorosa tal estratégia.

Pior: o secretário-geral ainda teve o desplante de dizer que o PS não deve suportar o Governo — poucos minutos antes de apresentar a sua demissão de líder do PS e pedir a convocação de eleições internas.

Mas que legitimidade política tem Pedro Nuno Santos para fazer um discursos destes e condicionar o seu sucessor? Neste momento, zero. Foi o discurso mais irresponsável, mais imaturo e mais anti-democrático que ouvi até hoje de um líder partidário clamorosamente derrotado.

Outra ironia extraordinária foi ouvir na CNN Alexandra Leitão, líder parlamentar do PS, a defender que o tema da Spinumviva beneficiou o Chega durante a campanha. Mas querem foram os partidos que fizeram do caso Spinumviva o seu eixo de campanha? Mais o PS do que o Chega.

Já agora, quem promoveu uma CPI a um PM, a propósito do caso Spinumviva? O PS, claro.

4 Depois do perigo para a democracia que representaria um aliança entre AD e IL, o PS passou a ter uma nova política de medo: a revisão constitucional. Ou seja, parece que a AD quer mudar a natureza do regime, promovendo uma revisão constitucional. Extraordinário!… Como se o processo de revisão constitucional do Chega tivesse qualquer hipótese de ser aprovado com os votos da AD e da IL só porque sim.

Por outro lado, não podemos ignorar que a direita tem a maioria constitucional necessária para efetuar tal revisão constitucional sem depender do PS. E esse será outro grande desafio de Montenegro: valerá a pena conversar com o Chega?

O ex-ministro Pedro Duarte explicou a Alexandra Leitão na CNN que tal revisão constitucional, a existir, teria de passar sempre pelo PS. E que qualquer acordo entre a AD e o Chega dependeria muito mais do PS — e da sua capacidade de se recentrar e de se aproximar da AD — do que do partido de Ventura.

E é aqui que entra um novo PS — um PS que não se viu com António Costa e Pedro Nuno Santos. O PS tem de ser reformista a partir de uma perspetiva trabalhista e social-democrata para recuperar algo que os socialistas perderam: a ligação aos jovens e à classe média.

É extraordinário que o PS seja o partido que menos jovens consegue captar há várias eleições. Talvez porque fez dos reformados o seu principal grupo eleitoral, não aceitando mexidas na Segurança Social.

5 A AD de Montenegro não teve uma vitória pífia mas não também não teve o resultado que gostaria. Desde logo, um dos pontos principais da sua estratégia passava por ganhar eleitorado ao Chega — através de dossiês como o da imigração, segurança e combate à corrupção.

Mas o Chega acabou por crescer também. Ganhou cerca de 236 mil votos, mais 10 deputados (para já) e, pior de tudo, é capaz de ser ser o segundo maior partido e o líder da oposição.

O primeiro desafio ao primeiro-ministro é saber se vai manter o “não é não”, enquanto que o segundo desafio pode implicar alguma espécie de acordo com o partido de Ventura a propósito de alterar a Constituição.

Mas o mais importante de tudo é outro ponto: Luís Montenegro tem de reformar o país e executar a ideia central transmitida por Passos Coelho no dia de aniversário do PSD. Precisamos de “estabilidade política, mas é importante sublinhar que não depende apenas da estabilidade política. É preciso que exista verdadeiramente um espírito reformista que possa estar ao serviço dessa estabilidade”, disse Passos.

Mesmo sem maioria absoluta, esse será um caminho que Luís Montenegro terá de construir para mostrar uma diferenciação face ao passado. Os eleitores da AD não perdoarão que Montenegro faça a mesma coisa que nos últimos 11 meses. A política do Governo tem de ser completamente diferente a partir deste momento.

6 E o que dizer sobre a crise da extrema-esquerda? A metáfora da noite foi quando o Livre mandou desligar as televisões no momento em que André Ventura começou a falar. Só voltou a ligar quando Montenegro tomou o lugar do líder do Chega.

É esta esquerda avestruz que não percebe que o Chega rouba votos diretamente ao PCP e ao Bloco — votos que o Livre não consegue ganhar.

Por exemplo, os comunistas falaram cedo de mais e perderam um deputado dos quatro que tinham. Já o Bloco não tem outro adjetivo: teve uma colossal derrota em que passou de cinco para um só deputado por via da perda de mais de 154 mil votos. O Bloco ficou atrás do Livre e da CDU e tem o mesmo número de deputados do PAN.

A esquerda avestruz, que vive da bolha mediática, ainda não percebeu que o mundo mudou a 18 de maio.

Texto corrigido às 8h41 do dia 22 de maio