Os resultados da primeira volta parecem ter facilitado a escolha a quem não votou nos dois candidatos que passaram à fase seguinte. Mas, ao contrário do que dizia Salazar — absolutamente inexperiente, por razões perniciosas, em política partidária — em política nem tudo o que parece é. A escolha não é apenas entre um candidato do sistema e outro anti-sistema, entre um moderado e um radical, entre um choninhas e um agitador, ou entre um seguidor da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU e alguém que despreza as Nações Unidas. É também entre um socialista e um direitista. E entre o líder de um partido da oposição e o candidato apoiado pelo outro grande partido da oposição. Tudo isto gera dilemas.
O primeiro dilema é o de Luís Montenegro. Que entre a espada e a parede, escolheu assobiar — porque provavelmente não tinha outra opção. O primeiro-ministro podia seguir a lógica de 50 anos de democracia e apoiar António José Seguro, o que não seria estranho porque o PSD apoiou a recandidatura de Soares e o atual Presidente da República acabou por ter o apoio do então secretário-geral do PS. Mas Luís Montenegro teria, aí, um problema: estaria a formalizar um Bloco Central entre órgãos de soberania que seria visto como uma força unificada, libertando o Chega para se afirmar como a única alternativa à governação.
Em alternativa, Luís Montenegro podia apoiar o candidato do Chega, ganhando créditos para um apoio no Parlamento e impulsionando uma vitória de André Ventura nas Presidenciais (o que, à partida, enfraqueceria o Chega como partido em legislativas). Surgiriam, neste caso, vários problemas: Luís Montenegro estaria a validar o radicalismo de Ventura e a promover um cenário em que o PSD estaria a ser subjugado ao Chega numa importante eleição. Isto permitiria uma eventual fuga dos moderados para o Partido Socialista. Além disso, ao fazer escolha por um dos candidatos, o primeiro-ministro estaria a dificultar a negociação parlamentar com o partido que não fosse escolhido. Legitimaria, ainda, a abertura de um dique que ainda separa uma boa parte do eleitorado do PSD do Chega, sem garantias que — passada essa barreira psicológica — esses eleitores poderiam voltar para si numa futura contenda legislativa. É por tudo isto que, perante o dilema, o primeiro-ministro escolheu não escolher.
Os próprios candidatos estão mergulhados em dilemas. António José Seguro sabe que tem de se deslocar para a direita na eleição. Os candidatos apoiados pelos partidos à esquerda do PS tiveram menos de 5%, o que chegaria para se aproximar dos 40%, mas não para ganhar. O grande dilema é como fazer essa aproximação ao centro-direita sem desiludir esse curto (mas necessário) eleitorado de esquerda ao ponto, por exemplo, de optar por não ir votar.
Para André Ventura o dilema é diferente. O primeiro que terá de decidir na sua cabeça é se quer ser Presidente da República ou primeiro-ministro. Supondo que não abdica de tentar a primeira opção terá, necessariamente, de convencer o eleitorado liberal, do PSD e, em parte, do almirante. À partida — uma vez que fixou o eleitorado descontente e com pulsões anti-sistémicas — Ventura deveria preferir manter um discurso mais moderado. O problema é que — se adotar o estilo cordeiro das últimas semanas — perde aquela que é sua mais-valia relativamente a António José Seguro: a firmeza, a assertividade e o arrojo. Que, embora populista, também é popular e atrativo.
Há ainda o dilema dos eleitores do PSD e da Iniciativa Liberal, que pode decidir a segunda volta. Preferem um socialista no poder ou alguém que pode violentar alguns dos valores humanistas (da não-discriminação, por exemplo) que estão na matriz fundadora de ambos os partidos? Não é crível que haja, em Portugal, um fenómeno como o que aconteceu em 2002 em França quando Jacques Chirrac — que perdeu à primeira volta para Le Pen pai — conseguiu à segunda volta 82,21% dos votos. André Ventura está longe de ter, atualmente, as taxas de rejeição em Portugal que então tinha Le Pen em França. Mesmo que seja rejeitado por mais de metade da população, o líder do Chega só precisa de garantir que não é rejeitado por mais de 49,9% dos votantes. E isso é outra história.
A ideia de que qualquer um que fosse contra Ventura ganharia automaticamente a segunda volta assenta na falácia de que os eleitores vão manter a mesma posição que projetaram há umas semanas depois de estarem definidos os dois candidatos que vão à segunda volta. E também noutra falácia de que a campanha eleitoral e os debates contam pouco (quando ambos foram suficientes para afastar outrora favoritos como Gouveia e Melo ou Marques Mendes). O jogo não “zerou”, é certo, mas não são favas contadas.
António José Seguro, sendo o mais provável futuro Presidente da República — pela forma como entra bem no eleitorado PSD, incluindo o passista — não tem propriamente uma passadeira vermelha para Belém. Até porque, de todos, é o adversário que André Ventura mais desejaria. O líder do Chega pode tentar criar um binómio esquerda-direita ou direita-espaço não socialista que o favoreça. Nas legislativas, mais de 60% do país votou à direita do PS, pelo que a atual ‘maioria sociológica não socialista’ seria suficiente para que uma divisão ideológica do país favorecesse o candidato da direita. Além disso, nestas presidenciais, Ventura, Cotrim, Mendes e o almirante tiveram, juntos, 63,14% dos votos. As características de Ventura — em quem alguma direita ainda tem (e terá sempre) resistência em votar — e o facto de Seguro fazer parte da esquerda-que-a-direita gosta vão, no entanto, dificultar a vida ao líder do Chega.
Apesar dos vários dilemas, os eleitores não se podem queixar do menu, porque têm dois pratos bem diferentes: Seguro e Ventura são como água e azeite. Parece, no entanto, desde já claro que não têm a capacidade de dividir o país ao meio como há 40 anos. Nem de arrastar multidões pelo País fora. Até porque os tempos são outros. Porque Ventura não é Freitas. E Seguro não é Soares. Será, por isso, fácil de adivinhar que, à partida, a votação na segunda volta será menor do que na primeira. O que não seria positivo. Entre todos, votar ou não votar não deve ser um dilema.