Talvez a parábola mais significativa do Evangelho seja a referida por São Lucas e dita do filho pródigo (Lc 15, 11-32), mas que, com mais propriedade, se deveria chamar do pai misericordioso, porque é ele, na realidade, o verdadeiro protagonista.

Estas histórias, a que Jesus recorria com frequência e que correspondiam ao jeito rabínico de ensinar, tendem a sublinhar uma conclusão moral. Enquanto alegorias, não são susceptíveis de interpretação literal e, por isso, quando Jesus diz que é a videira (Jo 15, 1. 5), não se está a atribuir uma natureza vegetal.

Não obstante a sua aparente simplicidade, a parábola do filho pródigo é, no entanto, bastante paradoxal.

A primeira contradição aparente resulta da inexistência de um pecado inicial, pressuposto indispensável para que depois possa fazer sentido a conversão. O filho mais novo pede ao pai a sua parte na herança, mas, tendo o pai acedido ao seu pedido, foi com o que era legitimamente seu que se afastou da casa paterna (Lc 15, 11-13). O facto de ele se ter permitido uma vida pródiga e de ter delapidado os seus bens, eventualmente por inépcia, pode não constituir, por si só, um pecado ou falta moralmente relevante, se a acusação de ter recorrido a prazeres ilícitos, que lhe faz o irmão (Lc 15, 30), não corresponder à verdade. Mas, se não pecou, de que então se arrependeu depois?!

Na realidade, ao fazer esse pedido, é como se tivesse passado uma certidão de óbito ao pai pois, em teoria, só por sua morte poderia receber a sua parte na herança. Por outro lado, esta sua rebeldia manifesta o egoísmo de alguém que só pensa em si mesmo e ignora o próximo, como era neste caso o seu pai, a quem devia tudo o que tinha, e o seu irmão, a quem deixou sózinho na administração do património familiar.

A interpretação moralista da parábola pressupõe que o filho mais novo regressa movido pela compaixão, mas nunca se diz que tivesse saudades da sua família. Ou seja, não é qualquer nobre sentimento que o leva a voltar para casa, mas, apenas e só, a sua fome (Lc 15, 17) e é apenas pensando em si próprio que decide regressar. No entanto, o amor-próprio, quando ordenado ao fim último, não é contrário à Lei de Deus, pois o autor da natureza é também o autor da graça: Deus quer-nos felizes e, por isso, quer-nos santos, que é a máxima felicidade a que pode aspirar a criatura humana.

Quem não respeita a literalidade do texto evangélico costuma dizer que o pai perdoa o filho depois de este se confessar culpado. Contudo, o pai corre, abraça e beija o filho antes ainda de este reconhecer que pecou contra o céu e contra o seu progenitor (Lc 15, 18. 21). Ou seja, Deus nunca deixa de amar os seus filhos, mesmo pecadores, embora só aos contritos possa conceder a graça do seu perdão.

Há quem diga, ao jeito maniqueísta, que nesta parábola há um filho bom e um filho mau, como numa alegoria análoga (Mt 21, 28-32), pois considera que o filho que se foi embora personaliza a impiedade, enquanto o que permaneceu na casa paterna exemplifica a fidelidade. Nada mais errado porque, de facto, ambos são maus e, por isso, o pai, que saiu ao encontro do mais novo, também foi ter com o primogénito, igualmente necessitado de conversão, dado o seu ressentimento egoísta.

A lição é óbvia: a separação entre o bem e o mal não é uma fronteira que separa uns homens de outros, mas uma linha que atravessa todos os corações humanos, porque também nos melhores há iniquidade e, nos piores, alguma bondade. Só assim se compreende que um dos apóstolos, Judas, tenha sido o traidor (Mt 26, 14-16), e, pelo contrário, um ladrão reincidente e confesso, tenha ido de imediato para o Céu (Lc 23, 39-43).

Aliás, o filho supostamente justo revela-se, afinal, bastante injusto. O seu irmão apenas esbanjou o que era dele, sem prejudicar o pai comum, nem o filho primogénito. Na verdade, o mais velho até ficou a ganhar com o pedido do irmão, porque o pai, que poderia só ter dado a parte da herança ao filho que a solicitara, “repartiu entre eles os bens” (Lc 15, 12), ou seja, ambos receberam a sua parte da herança, inclusive o que a não pedira. Assim sendo, tinha bens suficientes para se banquetear com os seus amigos (Lc 15, 29) e, portanto, não fazia sentido a sua queixa ao pai. Quantas vezes erramos ao julgar o próximo e quantas vezes também a nossa indignação, mais do que uma reivindicação justa, é expressão da nossa inveja e cobiça!

Note-se, ainda, o carácter marcadamente machista, senão mesmo misógino, desta parábola, em que todos os protagonistas são homens. Com efeito, fala-se de um pai e de dois filhos varões, refere-se o servo a quem o primogénito interroga sobre a razão de ser daquela inesperada festa e até o vitelo, que vai ser servido no banquete, é macho! Não aparece nenhuma personagem feminina, nem sequer na qualidade de mulher do pai, ou de mãe ou irmã dos dois filhos. Também não aparece nenhuma serva. Pior ainda, as únicas figuras não masculinas referidas na parábola são as meretrizes que, segundo o primogénito, teriam beneficiado com a prodigalidade do benjamim. Ou seja, as únicas mulheres referidas são prostitutas! No entanto, o Evangelho é declaradamente a favor da mulher, pois a Maria é dada a excelsa condição de ser Mãe de Deus (Lc 1, 43) e Maria Madalena é constituída apóstola dos apóstolos (Jo 20, 17)!

Por fim, refira-se a incrível desproporção entre o demérito do pródigo e a atitude do pai. Ninguém, no seu perfeito juízo, reagiria deste modo, muito menos sabendo, pela confissão do próprio filho, que fora por sua culpa que chegava naquele estado lamentável, senão mesmo vergonhoso. Um pai cristão decerto acolheria o filho perdido e reencontrado, mas não lhe faria uma festa e talvez o obrigasse a trabalhar para recuperar o que, por sua culpa, tinha perdido, até para sua emenda e exemplo dos seus irmãos.

A propósito deste inacreditável desfecho da parábola do filho pródigo, um simpático agente da autoridade disse-me, há já vários anos, que não concordava nada com aquele final feliz. Esforcei-me por lhe fazer ver que a parábola, mais do que um exemplo a imitar, expressa, com absoluta verdade, a grandeza do perdão e da misericórdia de Deus. E depois, em jeito de conclusão, acrescentei com bem-humorada ironia: – Sabe, Senhor Guarda, o que nos salva é que, no fim da vida, não temos à nossa espera um polícia, mas um pai!