1. A campanha dos temas de telejornal
Estas últimas semanas têm sido marcadas pelos debates entre candidatos presidenciais pelo que é interessante notar que os temas tratados são aqueles que povoam com maior frequência os nossos telejornais dos canais abertos, em especial, dificuldade de acesso ao SNS, escassez de habitação, violência doméstica, baixos salários e fuga dos jovens, falta de regulação e integração de imigrantes, corrupção, lentidão da Justiça. Claro que todos estes temas são muito importantes mas também importa notar que existem outros temas não menos importantes e que são liminarmente esquecidos pela simples razão de não serem notícias diárias dos quais os três seguintes são exemplo claro.
2 A Educação
É bem evidente que o atual Ministro da Educação é dos membros de Governo melhor sucedidos mas como não têm existido greves, o tema evanesceu. Ora se há desafio crucial para que Portugal se possa desenvolver é melhorar e recriar o nosso sistema de Educação. Na verdade, ainda recentemente participei em Encontro internacional evidenciando bem a necessidade de introduzir profundas mudanças na nossa Educação para poder fazer face aos novos desafios do Digital, da Inteligência Artificial, da Multi-Culturalidade, da Comunicação, da Gestão de Decisões e Conflitos, da Promoção da Coesão e da Integração. Mais do que preencher os currículos com listas de matérias, defendem-se opções baseadas na formação em lógicas analíticas permitindo modelações quantitativas e computacionais, elevado domínio de idiomas, suas estruturas semânticas e sintáticas, elevadas capacidades de cooperação em organização e de trabalho nos seus grupos e equipas permitindo a racionalização de decisões e a gestão de conflitos, domínio das linguagens financeiras e, muito especialmente, acrescidos sentido crítico e criatividade.
Será que estamos a assumir estes desafios que bem essenciais serão para que os nosso jovens tenham um futuro próspero e bem sucedido? Creio bem que não.
3 As empresas públicas
A Economia nacional surge na comunicação social como integrando dois setores: o Estado e as empresas privadas. Todavia esquecemos o setor empresarial do Estado cuja importância é crescente mas que se procura manter oculto. Na verdade é bem importante pois, mesmo sem incluir as empresas públicas das Regiões Autónomas, e segundo o Relatório de Novembro de 2025 do Conselho das Finanças Públicas, em 2024, o seu número é de 146, o seu volume de negócios é superior a 20 mil milhões de euros, receberam injeção financeira do Estado de cerca de 3,5 mil milhões de euros e contam com mais de 187 mil trabalhadores (cerca de 23% da Função Pública). Como se estes resultados não fossem muito preocupantes, deve ainda acrescentar-se que 35 estão em falência técnica e que só se conhecem contas de 2024 já aprovadas para 47% do universo destas empresas!
Como é então possível continuar esse setor a ser a grande bandeira dos partidos mais à esquerda, incluindo parte do PS? Como aceitar que este tema não seja discutido na Campanha Presidencial? Vamos continuar com esta hemorragia anual de mais de 3,5 milhares de milhões de euros sem sequer apurar a maioria da contas relativas à sua aplicação? Tudo indica que sim.
4 A contratação pública
O tema da Contratação Pública é, cada vez mais importante, pois :
- é instrumento essencial e preponderante da Gestão Pública o que significa que se funcionar mal, o Estado falha. Exemplo claro é o PRR em que muitos dos apoios não se concretizaram devido a contratação falhada, desde residências universitárias a sistemas informáticos.
- Tem vindo a incluir elevado aumento do número de contratos os quais são adjudicados a número crescente de empresas o que mede bem o aumento do seu impacto no nosso desenvolvimento económico. Na verdade, entre 2011 e 2024, segundo o Relatório da Contratação Pública do IMPIC, no que respeita, por exemplo, aos contratos de aquisição de bens e serviços, o seu número passou de 2816 para 13 116 e o total de empresas contratadas passou de 3609 para 4762
- Infelizmente, elevada percentagem de casos conhecidos de possíveis práticas de corrupção estão associados a contratos públicos.
Eis porque este tema não deveria estar ausente da Campanha em curso pois há questões que importaria discutir, designadamente:
- Como compreender que, perante os crescentes números de contratos, não existam programas amplos e adequados de formação e reforço dos meios humanos?
- Como compreender que Portugal tenha um dos Códigos de Contratos Públicos mais longo e complexo?
- Como aceitar que as alterações legislativas, no passado e no presente, ignorem as dimensões e as experiências mais relevantes no domínio da Gestão Pública e do Desenvolvimento Sustentável e Inovador ficando apenas circunscritas a debates jurídicos ?
Em suma, pena é que os roteiros televisivos ignorem estes temas pois são críticos para a modernização e o desenvolvimento de Portugal na próxima década.