O envelhecimento da população deixou de ser apenas uma estatística para se tornar num dos maiores desafios sociais do nosso tempo. A esperança de vida cresce, mas o número de nascimentos decresce, e este desfasamento cria um desequilíbrio estrutural profundo. Vivemos mais, mas vivemos mais velhos e em piores condições, e o peso desta realidade recai inevitavelmente sobre a forma como cuidamos daqueles que já nos cuidaram.
E aqui entra a questão: a ausência de cuidados prestados pelas famílias. Não falo apenas de apoio material ou financeiro, mas do essencial — a presença, a escuta, o carinho, o acompanhamento. Muitos idosos, mesmo cercados de pessoas, vivem em solidão. A sociedade que conheço centra-se na produtividade, no imediato e no hedonismo e “arruma” os mais velhos como um fardo, entregando-os ao esquecimento, como se fossem um mal a transportar. Esse esquecimento é, no fundo, um abandono disfarçado.
O abandono dos idosos é um caso sério. Mais do que a falta de tempo ou de recursos, ele denuncia a falta de empatia, de cuidado, de carinho — e, até, de caridade, palavra que pode soar antiquada, mas que traduz, no fundo, o mais humano dos sentimentos: a atenção ao outro. Abandonar os mais velhos é negar o que eles foram para nós. É recusar a continuidade. É esquecer as raízes que nos deram origem e que nos sustentaram.
Mas há mais: os mais velhos são, muitas vezes, os grandes professores da vida. Ensinaram-nos com exemplos, com histórias, com silêncios até. Mostram-nos a fragilidade e a grandeza da condição humana, lembram-nos o valor da paciência, do tempo e da resistência. Quem se aproxima deles com atenção descobre não só soluções práticas, mas, também, lições muitas vezes invisíveis: a gratificação de cuidar, a beleza de retribuir, a serenidade de estar presente nos momentos finais.
E aqui, curiosamente, o tema toca na liderança. Fala-se hoje tanto em “formar líderes”, em programas de liderança, em competências técnicas e emocionais, em liderar equipas, em liderar empresas, em liderar mudanças. E, no entanto, raramente se olha para os mais velhos como líderes. Mas não há liderança mais autêntica do que a que nasce da experiência de vida, do bom senso acumulado, da visão longa, da capacidade de sobreviver entre feras sem se tornar uma delas, de atravessar crises e regressar inteiro. O idoso que viveu, que errou, que venceu e que perdeu é, muitas vezes, o líder silencioso que não tem palco nem cargo, mas que tem autoridade. Leram bem: autoridade. Autoridade moral.
Talvez devêssemos olhar mais para os mais velhos como modelos de liderança. Não por via daquela liderança de manual, mas da liderança da vida real — a liderança da resiliência, da paciência, da visão que só a experiência concede. Ao tratarmos mal os nossos mais velhos, não apenas negamos a nossa história, mas perdemos, também, uma escola de liderança muito dificilmente substituível.
Nestas férias soube de casos de abandono — e alguns até em contextos onde nada faltava, onde havia meios e condições para dar todo o conforto aos que estavam no fim do seu caminho. O que faltou foi o essencial: a presença, o tempo, a atenção. Se este texto servir para alguma coisa que não para ser simplesmente apagado, que sirva como um grito de alerta. Que nos obrigue a parar e a pensar na forma como tratamos os nossos velhos, no tempo que lhes dedicamos, na atenção que lhes dispensamos.
Quem corta com o passado amputa-se a si mesmo. A fuga ao sofrimento através do sofrimento dos outros é, na verdade, um vazio disfarçado de liberdade. Mas é também a marca de alguém que perdeu a memória. Alguém sem memória, ou muitos sem memória, constituem um povo fraco. E um povo que esquece a memória próxima — os seus mais velhos, os seus avós, os seus pais — é um povo cobarde.
O modo como uma sociedade trata os seus idosos diz mais sobre essa sociedade do que todos os seus índices de crescimento económico. E a verdade é simples: abandonar os mais velhos é abandonarmo-nos a nós mesmos. E muitas vezes para que isto aconteça basta o pretexto de umas férias.