Entre Ventura e Seguro, há uma diferença fundamental que a direita democrática tem obrigação de saber enunciar. Embora sejam ambos socialistas, apenas um é humanista e, como tal, o eixo moral desta escolha.
Seguro nunca foi o meu candidato presidencial e nunca há de ser. Não lhe reconheço as qualidades politicas para tal. Mas a escolha hoje não é política nem ideológica, mas moral.
A Iniciativa Liberal (IL), que gosta de se apresentar como adulta, racional e moderna, tem falhado em dizer o óbvio quando o óbvio exige coragem. Mariana Leitão ainda vai a tempo.
O liberalismo não nasceu como e não é uma técnica económica. Nasceu como uma resposta moral à violência do poder. Tanto Locke, como Montesquieu, Madison, Constant ou Tocqueville, partiram da mesma premissa de que o ser humano é falível, o poder corrompe e o Estado deve ser limitado porque a dignidade do indivíduo é anterior a qualquer autoridade. O liberalismo nasce contra o arbítrio, contra a humilhação, contra a ideia de que alguns são mais humanos do que outros. Nasce contra o absolutismo, contra a perseguição religiosa e contra o populismo/tribalismo primitivo que transforma a política em vingança.
O discurso de vitória de André Ventura foi paradigmático, mas muito elucidativo. Foi um discurso absolutamente iliberal, não democrático e não conservador no sentido clássico. Ventura foi tribal, identitário e moralmente agressivo. O liberalismo não divide a sociedade entre “os puros” e “os impuros”. Não promete castigos e não fala em nome de um “povo verdadeiro” contra inimigos internos. Esta é a linguagem do iliberalismo, do autoritarismo e do fascismo e comunismo históricos.
O liberalismo constrói instituições para conter a paixão política. Ventura vive da excitação permanente. O liberalismo protege minorias. Ventura mobiliza maiorias contra minorias. O liberalismo nasce para impedir que o poder se transforme em ressentimento armado. Ventura é ressentimento organizado. Quem finge que não percebe o que ouviu não é ingénuo, mas intelectualmente desonesto.
O capital político ganho nestas eleições presidenciais não é da IL mas de Cotrim de Figueiredo. Foi ele quem o construiu, sendo hoje uma marca maior que o partido que o apoia. Porém, Cotrim, já não e líder do partido e a política não é nem estática nem permanente e capital político que não é usado, perde-se.
A IL tem agora uma oportunidade rara de se apropriar do espaço político conquistado por Cotrim e torná-lo seu. Não por oportunismo, mas por coerência. O espaço da direita liberal, democrática e humanista deixou de ser do PSD e não é do Chega. Nunca foi e nunca será.
A doutrina social da Igreja, da Rerum Novarum à Caritas in Veritate, passando pela Quadragesimo Anno, pela Centesimus Annus e pela Fratelli Tutti, é absolutamente inequívoca em quatro princípios: dignidade da pessoa humana, solidariedade, subsidiariedade e bem comum. Nenhum destes princípios é compatível com humilhação pública, com discurso de ódio, com desumanização de grupos, com justiça punitiva transformada em espetáculo protagonizada por Ventura quando instrumentaliza Deus para atingir um melhor resultado eleitoral. Já diz povo, “com papas e bolos, se enganam os tolos”.
O cristianismo não é vingança e não é exclusão. Não é hierarquização moral de pessoas. O cristianismo é exatamente o contrário. É a afirmação radical de que todos têm valor intrínseco, mesmo quando erram, mesmo quando caem, mesmo quando são incómodos. O cristianismo nasce contra a lógica do bode expiatório. Contra a política do apedrejamento. Contra a ideia de que há vidas descartáveis.
Ventura representa tudo o que a doutrina social da Igreja combate, como o populismo punitivo, a política do ressentimento, a redução do ser humano a um instrumento de mobilização emocional.
É aqui que a IL tem de ter voz. Agora.
Mariana Leitão, em nome da IL, tem de fazer uma declaração de voto no único candidato humanista. Não porque seja socialista, mas apesar disso. Dobrem-se as espinhas e fechem-se os olhos ao votar em Seguro, pois o critério deixou de ser ideológico para ser civilizacional.
Há momentos em que a política deixa de ser uma disputa de programas e passa a ser uma escolha de princípios. Este é um desses momentos. Quando isso acontece, o silêncio não é neutralidade, mas abdicação.
Esta é também uma oportunidade pessoal para Mariana Leitão. Uma mulher a afirmar, sem hesitações, que a política não é apenas cálculo, mas também um conjunto de valores. Teria nela a atenção de todas as mulheres, de todos os humanistas e de todos os democratas. Cunharia, sobretudo, uma identidade própria, que a IL desesperadamente precisa.
Mário Amorim Lopes decidiu dar o mote. Fez bem. Infelizmente não tem a abrangência, a autoridade simbólica, ou o peso institucional para que isso se traduza num reposicionamento do partido. Essa responsabilidade é da líder e só da líder.
Convém esclarecer uma coisa aos mais esquecidos. O espaço político da direita humanista e democrática, não está nem nunca esteve em disputa com o Chega. Quem acha que a IL compete com o Chega não percebeu nada do que é liberalismo. A IL compete com a facção menos socialista do PSD. Compete pelo eleitor que quer liberdade, mas também instituições. Que quer mercado e desenvolvimento económico, mas também dignidade humana e valores morais. Que quer responsabilidade, mas também humanidade.
O que está hoje em jogo não é estratégia eleitoral, mas a identidade moral de um partido. Mariana Leitão ainda vai a tempo, mas o tempo não é infinito. A política não espera e os momentos passam.
Se a IL não se afirmar agora como uma força liberal, democrática e humanista no sentido histórico, filosófico e moral destas palavras, ficará reduzida a um tecnicismo ideológico absolutamente irrelevante quando o país pede escolhas éticas claras e terá exactamente o mesmo destino do Ciudadanos em Espanha. A irrelevância.