Na semana passada, enquanto assistia ao debate parlamentar, o país teve uma sensação de semi-déjà vu. O déjà vu foi incompleto porque embora seja costume ver António Costa a ser grosseiro com deputados, não é habitual que a má criação seja dirigida a outra pessoa que não Assunção Cristas. A lembrança de que o CDS já não é dirigido por alguém com arcaboiço político foi um prenúncio do que se iria passar no fim-de-semana, com o Conselho Nacional do partido e com a candidatura de Nuno Melo. Percebeu-se que, neste momento, não há no CDS ninguém com capacidade para sequer irritar o Primeiro-Ministro. Por outro lado, há várias pessoas capazes de se irritarem umas às outras.

Segundo os relatos, a discussão foi muito intensa, com acusações e desmentidos de parte a parte. O que é surpreendente: como é que uma assembleia com número reduzido de participantes consegue ter tantas versões? Compreende-se que as relações entre as principais figuras do CDS estejam tão frias. Para quem já preparou carpaccio, faz todo o sentido: a melhor maneira de se fatiar a carne é congelá-lo antes. Consegue-se que as fatias fiquem translúcidas. O frio é essencial.

A luta política propriamente dita continua acirrada. No Conselho Nacional sobressaíram duas facções. A de João Almeida, que se queixa do tom taberneiro de Francisco Rodrigues dos Santos – é a facção pouco barulho – e a de Francisco Rodrigues dos Santos, que se queixa das aldrabices de João Almeida – é a facção de conta. No calor da refrega, Rodrigues dos Santos deu uma bofetada de luva branca a quem o acusa de ser muito novo e sem profundidade política: chamou Calimero a João Almeida, mostrando que pode ser jovem, mas tem referências dos anos 80. Referências no âmbito dos desenhos animados, mas já não é mau.

Parecia que o hino do CDS tinha sido actualizado e em vez de “Para a voz de Portugal ser maior/junta a tua voz à nossa voz/e vamos cantando”, agora se cantasse “junta a tua voz à nossa voz/e vamos berrando”.

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