Morreu o Aurélio.

E, por mais que já se adivinhasse o desfecho, dói escrever estas palavras. Dói porque o Aurélio era mais do que um nome ligado ao Sporting, era mais do que o descobridor de talentos ou o guardião do sonho. O Aurélio era um homem bom.

Em outubro, por ocasião do seu aniversário, e pouco antes de se despedir, conseguimos dizer-lhe tudo o que merecia ouvir. Fizemos-lhe uma homenagem como poucas vezes se fazem em vida: um vídeo onde reunimos todos — os amigos, os antigos jogadores, os colegas, os homens feitos que um dia foram miúdos descobertos por ele. Todos juntos, numa só voz, a agradecer-lhe. A reconhecê-lo. A amá-lo.

Se não viu o vídeo, deixo-o aqui.

E quem o vir perceberá. Está lá a emoção crua, verdadeira, em cada depoimento — desde o Presidente da República ao Primeiro-Ministro, do Cristiano Ronaldo ao Luís Figo, do Ricardo Quaresma ao Paulo Futre, passando por tantos outros. Não se trata apenas de palavras bonitas: vê-se o respeito, a gratidão, a reverência. Sente-se, em cada frase, o impacto que o Aurélio teve na vida de cada um. O país inteiro prestou homenagem a um homem discreto, que nunca exigiu vassalagens.

O Aurélio partiu em paz. Sabendo-se amado. Sabendo-se respeitado. Sabendo que deixou um legado que não se mede em troféus, mas em pessoas. Em vidas tocadas pela sua decência, pela sua paciência, pelo seu olhar de mestre.

Porque tinha esse dom raro de ver mais além. De olhar para um miúdo de chuteiras desapertadas e perceber ali um futuro campeão — não por causa do talento, mas por causa do carácter. Ele procurava isso: o brilho no olhar, a fome de aprender, a decência no gesto.

Tinha mãos de escultor. Moldava com tempo, com paciência, com afeto. Não gritava — ensinava. Não impunha — inspirava.

Hoje, o futebol português perdeu um dos seus maiores homens. E o Sporting perdeu uma parte da sua alma. Mas quem teve a sorte de o conhecer, quem com ele privou, quem lhe ouviu as histórias, os conselhos, as gargalhadas, não o perdeu. Porque homens como o Aurélio não morrem. Ficam para sempre na memória dos que os amaram — e, sobretudo, naquilo que deixaram nos outros.

Aurélio, obrigado. Por tudo. Fez de nós melhores. Sem nunca pedir nada em troca.

Até sempre, Mestre.