Querido Francisco,
Hoje escrevo-te com o coração pesado, como quem se despede de alguém que sempre esteve presente, mesmo sem nunca termos trocado palavras.
Hoje, o mundo amanheceu mais cinzento, mais silencioso, mais pequeno.
Hoje, partiste.
Não sei bem como começar esta carta.
Como se diz adeus a alguém que nos ensinou a dizer olá à vida outra vez?
Como se agradece a quem, com gestos tão simples, reergueu tantos de nós do chão, quando já não sabíamos como levantar?
Francisco, foste muito mais do que um Papa.
Foste o abraço que atravessou oceanos e rompeu muralhas.
Foste a palavra certa no meio da confusão e do medo.
Foste o sorriso terno que tantas vezes nos disse, sem precisar de voz: “Coragem, estou aqui.”
Recordo-me bem da primeira vez que te vi. Não te conhecia — ninguém te conhecia.
E, no entanto, ali, debruçado naquela varanda, quando apenas disseste “Buona sera”, soube que eras diferente.
Soube que não vinhas para ser servido, mas para servir.
Soube que, contigo, a Igreja seria menos palácio e mais casa, menos cetro e mais pão repartido.
E não me enganei.
A tua vida foi feita de gestos pequenos — mas cada um deles, imenso no amor que continha.
Visitaste prisões, tocaste leprosos, beijaste crianças com os olhos brilhantes de quem vê o sagrado onde o mundo só via marginalidade.
Ajoelhaste-te perante os últimos, para nos ensinares que é aí, e só aí, que Deus verdadeiramente habita.
Vi-te tantas vezes cansado.
Vi-te dobrado pela idade, pelas dores que não escondias, pelas feridas que a vida, e talvez a solidão, te deixaram.
Mas vi também a luz que nunca se apagou em ti — essa luz feita de esperança, de humildade, de fé que sabe sofrer sem nunca perder a ternura.
Hoje, ao saber da tua morte, não consegui conter as lágrimas.
Senti-me órfão.
Senti que o mundo perdeu uma alma rara, daquelas que nascem de séculos a séculos apenas para nos recordar que, apesar de tudo, vale a pena acreditar no bem.
Queria dizer-te obrigado, Francisco.
Obrigado por nos teres ensinado que a bondade não precisa de palco nem de aplausos.
Obrigado por teres caminhado entre nós sem pressa, sem tronos, sem couraças.
Obrigado por teres amado, com esse amor feito de gestos concretos, sem esperar retribuição, sem esperar reconhecimento.
Queria prometer-te também uma coisa.
Prometer que não deixarei que o teu exemplo se perca na voragem dos dias.
Prometer que, na minha pequenez, tentarei ser um eco da tua grandeza silenciosa.
Prometer que, mesmo quando o mundo me tentar endurecer, recordarei a lição que me deixaste: que a verdadeira força é ser terno num mundo áspero e indiferente.
Hoje, Francisco, não te digo adeus.
Digo-te até já.
Porque quem amou como tu, não desaparece — transforma-se em raízes invisíveis que sustentam os que ficam.
E eu sei — nós todos sabemos — que continuarás a caminhar connosco, de alguma forma, em cada gesto de amor, em cada acto de coragem silenciosa, em cada abraço dado sem medo.
Descansa em paz, querido Francisco.
Levas contigo a nossa saudade.
Deixas-nos o dom da tua vida e o exemplo da tua alma.
Com gratidão eterna,
Nuno