(Nota ao leitor: a realidade ultrapassa sempre a ficção.)
Era abril, um sábado claro. Luísa caminhava entre as prateleiras do supermercado com as duas filhas e um carro que pesadamente rangia sob as compras semanais. Deveria estar em casa a dormir o sono atrasado de quem passa noites a vigiar dores e urgências alheias. Mas “a vida” raramente se compadece dos cansaços de mãe. Ser enfermeira, mãe e timoneira de um lar era uma travessia sem porto seguro.
Desde 2003, quando concluíra a licenciatura, acreditava ter encontrado na enfermagem, no cuidar do outro, um ofício cuja retribuição se inicia, mas não se esgota no olhar de quem agradece. Gostaria de garantir aos seus o reconhecimento que sonhara enquanto adolescente. Desejara uma profissão digna, vocacional e uma vida familiar fácil, economicamente amparada pela estabilidade devida a quem nunca virou a cara ao esforço. Como se iludira!
Venderam-lhe uma promessa de futuro, mas recebera em troca a dureza de uma realidade ingrata – salários que mal chegavam ao fim do mês, noites sem repouso e um fardo de responsabilidades que se encastelavam sem trégua nem espaço para respirar. Ainda assim, por entre dificuldades e porque a juventude não espera, casara-se em 2004 com Carlos, operário metalúrgico, e juntos trouxeram ao mundo duas meninas — Marta de nove e Elsa, a mais nova, um desabrochar de cinco lindas pétalas.
Os primeiros anos de casamento foram sempre dias de mar revolto, dias em que a renda e as contas disputavam cada migalha. Com a chegada das filhas, as dificuldades multiplicaram-se num crescendo de coragem e forças que, a cada crise, pareciam mais difíceis de encontrar. A vida, afinal, não é senão um oceano tumultuoso onde a tripulação só se mantem firme porque acredita que algures no tempo, haverá um momento em que o horizonte trará a bonança de águas mais calmas. Porém, até então, a tranquilidade tinha sido sempre um momento transitório e de mau agoiro!
Assim era a sua vida, um sufoco só amenizado pela presença do Carlos, a alegria contagiante das filhas e o agradecimento dos que de si recebiam cuidados e alívio. No fim, pouco sobrava para o seu íntimo, mas aprendera a não se importar. Não era crente, alguém dominada por um credo, mas também não se sentia afastada de um Deus comum. Já não frequentava serviços religiosos, mas havia em si a bondade intrínseca de quem por entre a multidão sente comunhão e partilha. E fazia-o, não por crença, mas por bondade e respeito ao outro.
Crescera na década de oitenta, e enquanto geração que desabrochou em finais do século XX, viveu entre dois mundos. A nostalgia do passado que a idade sempre acentua, e a utopia de um futuro cada vez mais longínquo. Cresceu ouvindo o som familiar de uma ruralidade cada vez mais desajustada ao mundo novo e à utopia dos “amanhãs-que-cantam”. Fez-se menina nos ecos de “Abril”, nos tempos em que o país julgara despertar de um longo sono. Porém, tirando a “liberdade”, bem tão natural como o ar que se respira ou a água que jorra das fontes, hoje, já adulta, tudo o resto lhe parecem promessas por cumprir.
Enquanto menina vivia numa aldeia de muros caiados, musgo húmido e ao som dos sinos da igreja. Brincou sob os odores da terra quente com o ritmo das estações a marcar os ciclos do tempo. Herdou a esperança e uma “crença” feita de fé, uma fé que se amargurou com pela desconfiança com que se viam as promessas de novos rumos e futuro radiosos. Com os anos, o acreditar do sonhador, transformara-se mais num querer, num querer acreditar que quanto mais queria menos conseguia acreditar.
A formação católica cimentou-lhe uma herança moral de respeito pelo outro, de humildade na vida e de reconhecimento do valor do trabalho e da palavra. Aprendeu a ajoelhar-se, mas também a levantar-se e, nessa ausência de resignação, residia a razão da sua força. Como as mulheres do seu tempo, cresceu entre a missa de domingo e os novos tempos, entre a lavoura e a progressão nos estudos, entre a tradição e o sonho. Como tantas outras, tinha uma mãe que rezava em silêncio enquanto, em segredo, lhe desejava tudo quanto não tinha tido. E assim, pouco a pouco, como tantas outras, foi abrindo caminho num mundo que lhe prometia horizontes, mas que ainda lhe cobrava recato e dever.
Era uma geração de mulheres com contradições luminosas. Mantinham um pé na realidade enquanto o outro dava um salto rumo ao futuro. Tinham o coração dividido entre a serenidade rural e o bulício dos grandes centros, tinham a doçura da infância e a inquietação de quem sabe que há mais para viver. Educadas na fé, foram, lentamente, desenvolvendo o valor da dúvida. Do Evangelho guardavam um sentido da justiça e compaixão. Com Abril soltara-se-lhes o gosto pela liberdade e a recusa em aceitar o mundo como o conheceram. Os anos vividos após o “25 de Abril”, especialmente os da década de 90, foram envoltos numa sucessão de eventos bons, ricos de esperança. Portugal tinha aderido à CEE, com a queda do muro de Berlin o mundo parecia um lugar melhor para se viver. A realização da Expo em 98 e o Euro de 2004 foram momentos em que o peito dos portugueses se encheu de confiança no futuro.
Entrara na vida adulta com a crença e as escolhas de que era possível reinventar o destino. Procurou estudar, ver mundo, conquistar espaços que antes lhes eram vedados. No “lugar” onde crescera foi das primeiras a entrar no ensino superior, a sair de casa dos pais para completar a formação, a morar sozinha e a decidir não casar ou a fazê-lo apenas quando “o” encontrasse. A cidade acolheu-a enquanto estudava, e em troca, como quem semeia, foi perdendo o perfume do campo que trocou pela serenidade de quem na esperança aprendeu a esperar.
A liberdade que lhe prometeram foi sempre um sonho limitado por novas exigências. Sempre cumprira com entusiasmo todas as metas. Porém, agora, e mãe de família, não as via como prémios se atingidas, agora, eram mais ancoras a que teria de se agarrar se não queria ser devorada no turbilhão e dificuldades dos tempos. A idade, na sua mansa ironia, mostrara-lhe que nem todas os esforços florescem. O elevador social que lhe tinham prometido, a ideia de que o estudo e o trabalho bastavam para ascender, eram agora prefácio de um mito já gasto e cansado. As mulheres que acreditaram no mérito encontraram-se presas nos mesmos degraus de sempre, com diplomas nas mãos e salários que mal sustentam o mês. As oportunidades, anunciadas como uma maré cheia que iria inundar de prosperidade o país inteiro, ficaram retidas nas cidades, sempre divididas entre poucos e os muitos outros que sempre ficam de fora. Nunca chegaram aos campos, nem às pequenas vilas onde nasceram. O sonho de “Abril” envelheceu em silêncio. A liberdade conquistada com cravos e canções deu lugar a uma rotina de sobrevivência – contratos temporários, rendas impagáveis, filas nos serviços públicos, filhos adiados e cansaço acumulado. O idealismo deu lugar à fadiga e o entusiasmo à lucidez amarga de quem percebe que o futuro se tornou uma sucessão de remendos.
Luísa hoje apenas pugnava por tempo, serenidade, e um pouco de paz. O país prometera-lhe horizontes, mas deu-lhes labirintos. Contudo, continuava a acreditar, porque acreditar é afinal, um milagre de teimosia, um novo sopro nascido de cada desilusão, um crer que já não espera milagres, mas apenas algum sentido antes de adormecer.
Vivia, assim, entre o sonho e o cansaço, entre um passado de sonho e um presente que insistia em provar-lhe os limites. Mas mesmo no desencanto, havia nela uma dignidade antiga, uma força silenciosa herdada das mulheres de outrora, e delas vinha-lhe a coragem de continuar a levantar-se, mesmo quando o mundo parecia não ver. Assim se sentia Luísa nesse sábado enquanto saía do supermercado, carregada de compras, mas com a leveza de quem faz o que lhe é possível.
Mãe, mãe, gritou a pequena flor de cinco pétalas. Olha mãe, olha aquele gatinho tão lindo. Poso levá-lo, posso? Ó mãe, é tão lindo!
Era impossível resistir ao brilho do olhar de Elsa. Olhou para a outra filha, como quem procura apoio para decidir entre o racional e a emoção do momento. O gatinho, não deveria ter mais de duas semanas, parecia ter sido ali abandonado para que alguém lhe deitasse a mão e lhe desse o conforto de um lar. Tinha um ar miserável, estava sujo, com feridas e crostas no lombo. Precisava de cuidados e carinho e, bem vistas as coisas, essa era a sua missão de vida.
Por esta altura o leitor já anteviu o desfecho da história. E não se enganou! Luísa não resistiu à excitação da filha, nem conseguiu olhar para o lado quando via algo que precisava de ajuda.
Já no carro, a pequena Elsa fascinada com o seu novo amigo, perguntava – mãe, mãe, posso chamar-lhe Mimo, Bolinha, Fofinho, Pipoca? Posso, mãe, posso?
Não, disse a irmã mais velha que parecia já ter pensado no assunto. Como o encontramos no parque de estacionamento do Pingo-Doce, vamos chamar-lhe Pingo. E assim ficou! Aquele monte de pelo desgrenhado com dois olhos assustados e remelosos, desde então ficou conhecido por Pingo, Pingo o gato.
Morava então num pequeno apartamento perto da aldeia em que crescera. Era um terceiro andar sem elevador, não era grande, mas dava para acomodar o novo inquilino. Era uma habitação deles, cujo empréstimo bancário se fazia sentir ao dia seis de cada mês. Não era propriamente o que aspirava como espaço para ver a família crescer, e o casal há muito que tinha tomado uma decisão. Carlos tinha herdado um pequeno terreno perto da casa dos pais e decidiram construir aí a habitação que desejavam.
Era um espaço amplo, num ambiente que transitava da ruralidade para se inserir nas franjas de um agregado suburbano. Tinham iniciado a construção há alguns anos e lentamente investiram as poupanças que desviaram das necessidades, que estoicamente, consideravam dispensáveis. Fora um tremendo esforço, só possível porque os sogros a tinham ajudado com o terreno e a restante família com apoio nas necessidades mínimas que doutra forma ela seguramente sacrificaria. E os custos não eram apenas económicos. Tinham sido também na qualidade de vida. Não havia férias nem fins-de-semana. Durante os anos da construção e sempre que havia verba para materiais, ela, Carlos e o núcleo mais próximo investiam na empreitada todo o tempo que tinham e inventavam. Aquela habitação era o sonho do casal e da família, um sonho que vivia de sacrifícios e objetivos.
Mudar-se-iam dentro de algumas semanas e o Pingo em breve, também ele, teria um espaço onde crescer e espraiar-se.
Quando o levaram para o velho terceiro andar, sabiam que a solução era transitória e esse foi também um motivo que pesou numa anuência que apenas antecipara. E agora que o “bicho” vivia no agregado, era necessário garantir que cresceria saudável e não poria em risco a saúde das filhas. Teria de o levar ao veterinário.
E assim fez ao terceiro dia. O consultório do veterinário para animais pequenos não ficava distante. Era um espaço acolhedor, com uma sala de entrada muito semelhante ao que Luísa aprendera a reconhecer em espaços pediátricos. Esperou alguns minutos e foram atendidos por uma veterinária ainda jovem, mas que já denotava um estruturado à-vontade na forma como lidava com animais e donos.
– Então têm “menino” novo? Perguntou a veterinária como que para quebrar o gelo! Foi aí que teve a certeza que era gato, macho, ainda que a familiaridade do “menino” novo a deixasse bastante desconfortável. Afinal era um gato!
Toda a consulta decorreu numa sequência que claramente estava ritualizada. Como enfermeira com experiência sabia reconhecer o que ia acontecendo sem grandes explicações – mediram e pesaram o “bicho”, registaram dados biométricos, viram se estava desidratado, inspecionaram olhos, ouvidos, nariz, boca, pele (pulgas, feridas, sarna), palparam o abdómen e auscultaram corações e pulmões. Nada muito diferente de uma consulta de pediatria. No final aplicaram medicamentos para parasitas e iniciou um esquema vacinal. Tudo feito em menos de 20 minutos e por 200€ – dez euros por minuto. Não pode deixar de pensar – duzentos euros, eram mais que 15% do seu salário! A “coisa” começava mal, mas a excitação das crianças valia o sacrifício. Porém, não deixou de se questionar – e se tivesse cursado veterinária?
Volvidas duas semanas e já estavam a viver na casa nova. Era um espaço amplo, com um grande jardim onde planeara plantar árvores de fruta que lhe recordassem uma infância que ainda ontem lhe parecia ter deixado. Era óbvio que, em muitos aspectos, o edificado e o seu enquadramento ainda não estava concluído. Sabiam isso, mas também sabiam que quanto mais rápido deixassem o apartamento, mais depressa poderiam concluir a nova casa. E foi assim! Nos primeiros dias ocuparam um espaço ainda a cheirar a tintas e massas frescas.
Para as crianças, aquela casa era vital e tinha sido por isso que tinham feito tantos sacrifícios. Para o Pingo, seria também o enquadramento ideal para fazer a vadiagem que os gatos, os que são gatos e não “meninos”, sempre gostam de fazer.
Havia um problema. Tinham medo que o animal se perdesse e não soubesse regressar à sua nova dimensão. Afinal era um gato novo, curioso e talvez confuso por tudo quanto tinha passado desde que nascera.
Resolveram por isso, de dia, pô-lo no pátio com uma coleira e uma trela longa que lhe permitisse percorrer o espaço enquanto o interiorizava como seu. Os primeiros dias correram bem, mas naquele sábado o Pingo tinha desaparecido. A corda que o prendia ainda lá estava, presa na estaca onde o tinham deixado com comida e água, mas a outra ponta, a que supostamente teria o gato, terminava junto a um buraco que as obras recentes tinham deixado aberto entre o pátio exterior e a cozinha. A outra ponta terminava aí, mas nem sombra de gato. Chamaram o Pingo com todos os sons e chamamentos que cada um achava, que se fosse gato, o estimulariam a aparecer – vem Pingo, Pinguinho, anda vem, toma, etc, etc. Porém, gato nem vê-lo! Começaram então a puxar o fio que após alguma resistência cedeu, ainda que, sem coleira nem gato. Tinha-se partido!
Onde estaria o Pingo, seria que estava assustado? Apareceria no dia seguinte? Com dúvidas, mas também já temendo o pior passaram o resto do sábado a chamar pelo “bichano”.
Domingo, as crianças quando se levantaram, ainda antes dos bons-dias ou do beijo que sempre davam à mãe, dispararam a já esperada pergunta – o Pingo já apareceu?
Elsa, a mais nova não conteve as lágrimas, o que obrigou a mãe a mentir-lhe e a dizer que os gatos eram assim, desapareciam durante uns dias para depois regressarem quando lhes dava na bolha. O choro acalmou, mas a sensação de perda e o sofrimento eram esmagadores.
Estavam nesse domingo a almoçar na cozinha – um hábito entranhado nas gentes daquelas terras, quando a Marta, mais atenta e até porque talvez fosse quem mais sofria em silêncio, disse – mãe, parece-me que estou a ouvir o Pingo! Correram à porta que dava para o pátio, mas nem sombra de gato. O Pingo não estava ali! Mas mãe, eu ouvi-o – disse Marta como se não admitisse que alguém duvidasse de si. Elsa entrou em modo de excitação e começou a chamar pelo Pingo, como se esse nas poucas semanas de vida a conseguisse acompanhar no vocabulário. Mas o Pingo não aparecia, nem dava sinais de si! Já com algum desânimo calaram-se e foi quando regressaram à mesa que a todos pareceu ouvir o miar pelo qual todos ansiavam. Vinha de certeza debaixo do chão da cozinha.
Carlos rapidamente percebeu o que deveria ter acontecido. Pingo deveria ter entrado naquele buraco no exterior, o mesmo onde estava a trela e agora estaria “perdido” debaixo da placa da cozinha, sem saber como de lá sair. Era preciso tomar uma decisão. Falou com a Luísa e como estavam de acordo, chamou nessa tarde todos quantos estivessem disponíveis.
Numa casa que tanto lhes havia custado, foi com um nó na garganta que começaram a esventrar o pátio, do buraco à porta da cozinha, na esperança, apenas na esperança, de conseguirem resgatar o gato. Desfazer o que a tanto custo tinham construído parecia-lhe uma loucura de que se poderia arrepender, mas naquela altura, salvar o gato era missão da família e de todos quantos vieram para ajudar.
Ao fim de alguma horas, seguindo a pista do buraco, lá encontraram o gato. Pingo tinha ainda a coleira e um resto da “trela” presa numa pedra. Pingo nunca teria só por si conseguido libertar-se e ali morreria de fome e sede se o não tivessem resgatado.
Hoje, volvidos anos, Pingo continua o príncipe daquela família, agora sem um olho, porque desses só têm dois enquanto vidas nascem com sete.