Há duas semanas, o Estado de Israel anunciou que havia recuperado os restos mortais de Idan Shtivi. Fora assassinado no festival Nova no fatídico dia 7 de outubro de 2023, onde se dirigira para fotografar o evento, e o seu corpo transportado para Gaza. Nascido em 6 de junho de 1995, estudava ciências ambientais e viu arruinada a sua projetada vida, o casamento, os filhos e o trabalho na área da energia. O autor destas linhas recebeu outrora o pai de Idan, no Porto. Não há palavras suficientemente cruas para descrever um rosto tão triste. A família ainda lutava pelo seu eventual regresso a casa, dado que o jovem possuía a nacionalidade portuguesa, e talvez algo pudesse ser feito em terras lusas no sentido de sensibilizar o reino do Qatar, que estranhos patrocínios dispensa – em troca de ascendência e controlo – por terras da Palestina.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, expressaram o seu lamento genuíno pela morte confirmada de Idan. Outros responsáveis políticos pronunciaram-se no mesmo sentido. No entanto, as reações que todos receberam não foram amistosas. “Um português made in SEF”, “não tem focinho de português”, “nome tipicamente português”, “Shtivi e português não combinam”, “oportunista português”, “comprou o passaporte”, “passaporte de conveniência”, “um passaporte num bollycao”, “terrorista judeu”… Centenas de mensagens deste calibre podem ser encontradas numa breve pesquisa nas caixas de comentários e redes sociais dos órgãos informativos nacionais.
Não faltaram guerreiros sentados a colocar a tónica no apelido do jovem falecido, que fora herdado do pai. Ninguém tratou de apurar a identidade da mãe, da família Benveniste da comunidade sefardita búlgara, uma comunidade de raiz ibérica e versada no idioma ladino. Idan era neto de Naftali Benveniste (1935) e bisneto de Israel e Rivka Benveniste (1927) e é relativamente simples conhecer a história ampliada desta família. Basta visitar a Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste, da Universidade de Lisboa, para que muitas informações possam ser recolhidas, desde logo junto da fundadora, a dócil Monique Benveniste. De Castela e Aragão para Portugal e, depois, nos alvores da Inquisição, para Antuérpia, Hamburgo, Amesterdão, Sófia, Livorno, Ferrara, Veneza, Roma, Salónica, Esmirna, Constantinopla, Tiberíades, muitas foram as latitudes percorridas.
Também dispensa apresentações Dona Gracia Nasi Mendes Benveniste ou, antes, Beatriz de Luna (1510), que se tornou a matriarca dos judeus da diáspora, a mulher mais rica do Renascimento e a mais respeitada donzela no Império Otomano então nascente, onde o Sultão nunca dispensou os seus valiosos contributos materiais, intelectuais e diplomáticos. Aquando da morte da Senhora, como ficou conhecida, por todo o Império Otomano foi decretado luto oficial, mas em Portugal, ninguém se lembrava da mulher que outrora partiu.
Idan Shtivi Benveniste nunca fez mal a Portugal. Sonhava trabalhar e viver no país. Procurou fotografar um evento e acabou metralhado pelas costas quando lutava para salvar rapazes e raparigas aterrorizados. No seio da comunidade judaica portuguesa, custou muito vê-lo moído de insultos mesmo depois de morto. E mais grave. Nada disto é novo. Todos os reféns com a nacionalidade portuguesa foram alvos de tratamento igual ou pior por parte da maralha enfurecida. Todos se viram maltratados como se fossem delinquentes de catana em punho e a incendiar caixotes de lixo nas ruas de Lisboa.
O desrespeito e o ódio dispensados aos reféns de origem portuguesa não podem ser imputados em primeira linha aos autores das mensagens. Estes foram depositários da propaganda que lhes foi distribuída, por anos, por corruptos de Estado e outros protagonistas aos mesmos associados, que bradaram publicamente que os luso-israelitas eram “uma fraude”, “é tudo falso”, e que até se deram ao luxo de acusar a comunidade mais forte da Europa em termos culturais de não saber o que é um judeu de origem sefardita. Causou realmente lástima ver tão fartas misérias em elementos de classes falantes que, devendo ser para o país um exemplo de moral e sentimentos generosos, constituíram antes um foco de desmoralização, baixeza e promoção de antissemitismo que se vive ano após ano. A própria classe dos malfeitores conseguiu ganhar um lugar de conforto na sociedade, pelo abrigo que no sistema encontrou para fazer o que sabe. A legislação nacional que concedia a nacionalidade aos judeus de origem portuguesa tinha de terminar, a bem ou a mal, e para o efeito foi definida, nos círculos do Poder, como sendo uma “bandalheira”. O país a decompor-se, a juventude a emigrar, e elementos de classes falantes a espalharem ideias falsas, cheios de autoridade.
De que lado estaria a bandalheira? As constelações judaicas nunca falham, para o bem e para o mal. Coube a uma entidade independente, com o nome de Hamas, recolher amostras de três dezenas de luso-israelitas mortos, feridos e reféns – e verificou-se que todos pertenciam invariavelmente a famílias sefarditas tradicionais do Norte de África e do antigo Império Otomano. Imagine-se o balde de água fria que caiu sobre a rede corrupta quando foram revelados nomes de família e ligações diretas daqueles desafortunados a comunidades judaicas de origem portuguesa, incluindo as “KK Portugal” de Salónica, Esmirna, Monastir (Bitola), Túnis, etc. Tornou-se patente o incómodo. O que dizer também do grande número de reféns com a nacionalidade dos Estados Unidos, ou da Rússia, Polónia, Hungria, Roménia, Sérvia, Alemanha, Áustria, França, Reino Unido, Espanha, Itália, Dinamarca, Bulgária, Argentina, Áustria, Brasil, Colômbia e Canadá? Como explicar esta unanimidade na concessão de “passaportes” aos judeus? Seriam todos de “conveniência”? Ou resultariam de um direito, em todos aqueles estados reconhecido, decorrente de expulsões injustas, diretas ou indiretas? A resposta é mais simples do que a pergunta.
O esquema político utilizado para destruir a única legislação que poderia conectar Portugal com uma imigração qualificada, levou a sua avante, nada poupou ou temeu e tudo falsificou, a começar pelo quadro legal, que nunca foi explicado à população, que não de forma equivocada, porque com papas e bolos se enganam os tolos. De acordo com o quadro legislativo vigente a partir de 2015, a nacionalidade poderia ser concedida aos judeus de origem portuguesa (tal como desde 1981 era concedida aos descendentes de comunidades de origem portuguesa) e o processo seguia três etapas: reconhecimento de origens sefarditas do requerente por parte de comunidades judaicas nacionais, confirmação de tais origens por parte da conservatória, e decisão de concessão (ou não) por parte do governo, tendo em conta inúmeros fatores de interesse público que poderiam aconselhar ou obstar àquela concessão, no âmbito do poder legal discricionário do executivo. A própria tabuleta Abramovich acabou por cair sobre as cabeças dos seus autores e deseja-se que façam bom proveito.
Portugal, o primeiro país a dar a volta ao mundo por mar, um potentado na coragem, no comércio, na ciência da astronomia, na cartografia e na indústria naval, chegou a vencer uma batalha naval, em Diu, a 20.000 km por mar, contra otomanos, egípcios e soberanos da Índia. Negar o papel dos judeus na história de Portugal e lançar contra os mesmos metodologias soviéticas, é um suicídio. E muito mais adiante poderemos vir a levar o extenso catálogo das nossas desilusões e desenganos.