Ambiente

Por uma ecologia integral

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Milhares de jovens saíram às ruas para colocar a ecologia na ordem do dia. A manifestação prestou-se a aproveitamentos políticos vários, mas isso não deve desencorajar-nos de olhar para o essencial.

“A terra, mãe terna e igual de todos, não deve ser monopolizada para alimentar o orgulho e a ostentação de alguns”. A frase não é de Karl Marx, nem de Catarina Martins. Pertence a Edmund Burke, uma referência ímpar do conservadorismo político, e surge nas Reflexões sobre a Revolução em França, no âmbito de uma discussão mais vasta acerca do modo como o vocabulário racionalista dos direitos naturais foi inspirando movimentos de ruptura com a antiga tradição feudal. O sentido destas palavras revela-se, porém, mais profundo do que o contexto pode sugerir. Elas transmitem, de um modo muito eficaz, as razões pelas quais um conservador deve ser o principal interessado na conservação do território e do mundo natural.

Desde logo, é próprio do conservador reconhecer a primazia da comunidade – desse fio de identidade partilhada que une os destinos dos homens em torno de uma pertença e de um sentido de bem comum – sobre o regateio dos interesses particulares. As comunidades humanas têm uma vocação de perenidade. Elas não são – como lembrava o mesmo Burke – arranjinhos de conveniência; contratos sociais cujos termos vão mudando, em função da flutuação das maiorias, dos caprichos dos governantes ou das tendências do capital. As comunidades surgem, sim, para dar uma expressão concreta, duradoura e estável a uma identidade comum. Elas são contratos, sim, mas apenas na medida em que unem, na linha do tempo, as gerações passadas, as presentes e as futuras, responsabilizando cada uma delas, no seu tempo, por cuidar de um legado do qual são depositárias, mas não donas. Esse é, aliás, o grande crivo doutrinal do político conservador: saber que, no momento em que é chamado a exercer o poder, se torna responsável por um património que não é seu. E que lhe cabe honrar a grandeza do passado e, do mesmo modo, preservar as potencialidades do futuro.

Até aqui, o simples bom senso é capaz de chegar: a exploração sôfrega do mundo natural, tantas vezes explicada pela lógica torpe de que os benefícios e os lucros estão concentrados, mas os prejuízos estão dispersos, expõe-nos ao risco de construirmos um sistema económico baseado em critérios imediatistas e utilitários, que funciona para uma geração, mas compromete as necessidades das seguintes. Talvez tenha sido a intuição profundamente conservadora de que esse equilíbrio inter-geracional não está a ser defendido que, na semana passada, levou milhares de jovens às ruas das cidades europeias, para colocar a ecologia na ordem do dia. Como tantas vezes sucede, a manifestação prestou-se a aproveitamentos políticos vários e, na ausência de um caderno de reivindicações próprias, ficou-se pela influência simbólica e pela alegria do absentismo escolar. Mas o cepticismo que a iniciativa merece não deve desencorajar-nos de olhar com clareza para o essencial: há um grande desequilíbrio inter-geracional na forma como usamos os recursos naturais. E é preciso que nos deixemos interpelar por esse diagnóstico.

Existe, porém, mais na frase de Burke do que a ideia de um contrato entre gerações que tem de ser defendido contra a tirania do utilitarismo. Pensar na terra como “mãe terna e igual de todos” recorda-nos algo que nem sempre é evidente para os movimentos ecologistas: que o ser humano faz parte da terra, e que a terra foi criada para o ser humano. A ecologia excede os seus limites quando, à semelhança das antigas culturas panteístas, se propõe sacrificar o Homem para acalmar o frémito dos mares ou a tristeza das florestas. A ecologia desfigura-se quando insiste em divinizar o mundo natural; quando entrevê na natureza – nos rios, nas montanhas, nas árvores, nos animais – a acção de forças quase místicas, os restos desanimados das velhas dríades pagãs, que o Homem temia e reverenciava com desordenadas superstições. Desfigura-se quando se convence de que o Homem é um ser parasitário, que é culpado de todos os males do mundo, que está a mais no mundo e que não tem direito a existir – ou, muito menos, a reproduzir-se. Desfigura-se quando pretende reduzir o Homem a apenas mais um animal, cuja racionalidade e dignidade em nada o diferenciam dos outros seres vivos e que, por isso, tem de considerá-los como se fossem seus iguais e não pode relacionar-se com eles, nem domesticá-los, nem apascentá-los, nem consumi-los. Desfigura-se, enfim, quando se convence de que não existe uma ecologia humana. Quando acha que todos os animais têm uma natureza própria que é preciso proteger, mas que o Homem é uma espécie de potência à solta; de liberdade incriada que se vai revolucionando e redesenhando a si mesma num exercício de perpétua omnipotência.

Esta falsa ecologia, deformada e desumana, deixa de comer ovos para socorrer os embriões das galinhas, mas aceita o aborto de seres humanos; repugna-se com a manipulação genética do milho, mas entusiasma-se com as promessas do trans-humanismo ou com as operações de mudança de sexo; opõe-se aos canis de abate, mas propõe a eutanásia; abomina a experimentação de químicos em animais, mas clama pela legalização de alucinogénios e drogas entorpecedoras; repudia a entrada de animais em laboratórios, mas concorda com a investigação em células estaminais de humanos não-nascidos; é contra a inseminação artificial das vacas leiteiras, mas defende a prostituição e o aluguer de barrigas humanas; ama o ambiente enquanto causa abstracta e bandeira política, mas não desce do pedestal da ideologia para se comover com a concretude das dificuldades humanas, como a pobreza, a velhice ou a deficiência.

Para ultrapassar a lógica materialista e insaciável dos utilitaristas e o ambientalismo fanático e deformado dos panteístas, a tarefa urgente do conservador é descobrir um justo meio; uma ecologia integral que proteja a natureza humana, preservando a sua relação com o território e com o mundo natural. Nesta tarefa, não podemos deixar de nos socorrer dos alicerces fundamentais sobre os quais se edificou a nossa civilização: através do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, aprendemos a ver o mundo como uma realidade criada, na qual se expressa a linguagem amorosa do transcendente e do eterno. O mundo não está encerrado sobre si próprio, qual engrenagem febril que, ou exploramos, ou nos explora. O mundo é um dom que nos é dado. E é a consciência desse facto que nos impele à gratidão e desperta em nós um sentido de responsabilidade pela Criação que nos é confiada. Sem essa chave-de-leitura, que forjou a nossa civilização tal como a conhecemos, toda a ecologia será apenas uma caricatura de si própria.

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