Quantas vezes ouvimos os problemas dos outros e pensamos como tal não tem grande importância e que o outro está a fazer um bicho de sete cabeças no rol do seu queixume?
Relativizar à distância é tão mais fácil. Arranjar respostas rápidas e sacudir o bloqueio emocional (do outro) é tão simples. Mas quando se tratam dos nossos problemas, o emaranhado emocional cria bloqueios e paralisações nas tomadas de decisões. Quando se vive o próprio problema, sofre-se. Quando se trata do problema do outro, não se sofre em casa própria. Até se pode sentir empatia e claro, uma solidária preocupação, mas a distância afectiva ajuda a não perder a racionalidade e a pensar com maior objectividade, por não sermos influenciados pela subjectividade que cada um, à sua maneira, padece.
Porque não usar em benefício próprio a mesma objetividade para encontrar soluções? Porque o emaranhado dos nós emocionais toldam as deliberações mentais. A ansiedade ocupa lugar paralisando o pensamento que se contorce a andar em voltas bloqueado num beco sem saída.
Quando se está fechado sobre o próprio problema, a leitura pragmática da questão fica reduzida a um só ângulo; àquele que é contagiado pela infelicidade sentida. Com a visão toldada por tal parece não haver soluções. Já, quando olhamos de fora para o problema que não é nosso, temos uma visão mais ampla e encontramos soluções porque é-nos mais fácil engendrar planos B e C’s, uma vez que não ficamos confinados à única possibilidade que achamos existir.
Mesmo não havendo solução, quando se trata de uma perda ou dano irreversível, há a dimensão temporal que trata de amenizar e diluir o cenário problemático. Numa situação de catástrofe, leva tempo, mas é possível a reconstrução. Os espaços vazios que ficaram sem ruínas para recuperar a partir daí podem dar lugar a novos edifícios. Também no caso de relações que se perdem, fazem-se os lutos e novas relações são possíveis de acontecer. Perdas materiais podem ser recuperadas ou ajustados parâmetros para se lidar com uma realidade, que não tem de ser definitiva e vir novamente a melhorar. Insucessos profissionais podem ser ultrapassados com outros desafios.
Sendo o ritmo da vida um pulsar não estático e com períodos de altos e baixos, a cadência de bons e maus momentos faz parte. A capacidade de tolerar os tempos de crise, com a perspectiva que tal não vai ficar assim para sempre, permite ver a luz ao fundo do túnel e sair da dita circularidade pantanosa quando os problemas preponderam e influenciam um estado de contínua preocupação.
Quando nos tocam a nós os problemas, devemos fazer o esforço de elevar o pensamento, fazendo uso do discernimento que mais facilmente usamos quando ajudamos outros. A esperança e um olhar no horizonte são o mote para andar para a frente e acreditar na possibilidade de encontrar sempre soluções.
anaeduardoribeiro@sapo.pt