Global Shapers

Portugal: a nação reinventada

Autor
  • Miguel Santo Amaro
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Que Portugal queremos comunicar no contexto internacional? O Portugal de Fátima? O Portugal de Cristiano Ronaldo? O Portugal de Salvador Sobral? Ou o Portugal da Web Summit?

Organizada em mais de 400 hubs localizados nas principais cidades do mundo, a Global Shapers Community afirma-se como uma rede de jovens líderes que solidifica uma visão global do mundo. A par de promover esta visão sem fronteiras, a plataforma apresenta-se, também, como uma oportunidade para a consolidação da imagem de Portugal no contexto internacional. Mas que Portugal queremos comunicar no contexto internacional? O Portugal de Fátima? O Portugal de Cristiano Ronaldo? O Portugal de Salvador Sobral? Ou o Portugal da Web Summit?
A grandiosidade do património histórico do nosso país contrasta com a nossa dimensão geográfica. E talvez seja no passado que poderemos vislumbrar o caminho do futuro. Há mais de 500 anos, aventurámo-nos pelos mares em busca de riqueza e conhecimento, uma vez que os nossos recursos naturais disponíveis não satisfaziam o nosso ímpeto de crescimento. Conquistámos o mundo e chegámos mesmo a dividi-lo em dois no conhecido Tratado de Tordesilhas.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal.”
Fernando Pessoa, A Mensagem

A disseminação da “4ª Revolução Industrial”, agora em curso, dita o início de uma nova era para a economia mundial. Apesar de a indústria tradicional não ter sido ainda afetada por esta revolução de forma plena, tal não tardará a acontecer. Muito em breve, os produtos tecnológicos estarão em comunicação constante e muitos dos processos serão totalmente automatizados. A propagação do “digital” irá transformar por completo a nossa sociedade – a Filipa Araújo abordou algumas das consequências, em particular, a nível da empregabilidade, no artigo de opinião da semana passada. Na era digital, os recursos naturais perdem valor e a tecnologia assume um potencial sem precedentes. Portugal está hoje a posicionar-se neste processo de transformação da economia mundial através de várias iniciativas para tirar o melhor partido dela. Duas das principais iniciativas são a aposta na modernização da sua indústria através de investimento em novas tecnologias e design e na captação de mão-de-obra qualificada internacional através de incentivos fiscais. Um outro exemplo interessante que poderá ser relevante para atrair mais talento para o nosso país é o visto especial que França acaba de promover, o French Tech Visa, que visa facilitar a burocracia para a entrada e permanência de estrangeiros qualificados.

Não é preciso ser grande nem central para inovar

Ninguém é demasiado pequeno ou periférico. Israel é um bom exemplo de uma Nação Startup que não teve condições mais favoráveis que as nossas. Um país que nasceu há menos de 70 anos e que há 40 anos exportava essencialmente laranjas e têxteis de baixo valor. Hoje, mesmo sendo um país com problemas de guerra e com uma população com pouco mais de oito milhões de pessoas, 53% das exportações são alta tecnologia. É o terceiro país mais atraente para capital de risco (depois dos EUA e da China), o maior investidor mundial em Investigação & Desenvolvimento per capita e o primeiro não-americano com empresas na bolsa americana Nasdaq. O livro Startup Nation, cuja leitura recomendo, explica cronologicamente, desde o início da formação de Israel até os dias atuais, a forma como este país foi criando uma geração de empreendedores, bem como condições para que houvesse capital de risco direcionado ao investimento nesses novos negócios. No livro, apercebemo-nos que as tradições culturais e legais pesam no sucesso empreendedor.

Assim, por exemplo, a condenação dos empresários que fracassam nos negócios ao descrédito pessoal e social, é vista de outra forma em Israel. É uma cultura que permite facilmente ao empreendedor iniciar novas empresas mesmo que a anterior tenha fracassado. Em Portugal, pelo contrário, o Estudo Global de Empreendedorismo 2015, publicado pelo Observador, salienta que 84% dos portugueses inquiridos considera a nossa sociedade não favorável ao empreendedorismo, destacando o medo de falhar como o principal obstáculo. O medo de falhar tem também bases económicas – num país onde a economia pouco cresce e que falhar significa não poder ter uma vida minimamente estável, é natural que se opte pelo emprego (mais) seguro. Quando sabemos que pelo menos 9 em cada 10 startups falham, temos de criar um ecossistema que não se retraia e que seja ainda mais perseverante e inovador.

Tornar Portugal numa Nação Startup não é um sprint, é uma maratona. E haveremos de lá chegar

Nos últimos anos, assistimos em Portugal a uma verdadeira disrupção tecnológica, que teve lugar principalmente nas novas empresas dedicadas à tecnologia – as startups (empresas inovadores de crescimento rápido). Começámos (quase) do zero, contudo, com o desenvolvimento acelerado de iniciativas por parte de investidores, empreendedores, incubadoras e governo (com políticas benéficas como, por exemplo, a Startup Portugal e os seus programas Semente e Startup Voucher), passámos a ser um país onde as startups fazem capas de revistas e estamos hoje mais próximos de sermos considerados um dos países empreendedores mais conceituados a nível internacional. Contudo, o percurso é ainda longo e precisamos de estar conscientes de que para termos startups e scaleups de sucesso por norma temos de esperar entre sete e dez anos para os primeiros êxitos.

Tive o privilégio de viver e contribuir para o início dessa mudança cultural, fazendo também o melhor uso dela no crescimento da minha própria startup, a Uniplaces. Muitos são os céticos que descrevem esta era das startups como uma moda passageira. Ainda que a moda possa um dia passar, a verdade é que esta tendência é muito benéfica para um país que, em geral, tem baixa autoconfiança e pouca visibilidade positiva internacional. Mas a verdade é que algumas startups portuguesas começam já a conseguir angariar dezenas de milhões de euros junto de investidores internacionais e nacionais (nota: angariação de investimento não significa necessariamente empresas de sucesso e/ou sustentáveis). Este fato é inédito na história económica do nosso país e, por isso mesmo, deverá merecer a nossa mais sincera atenção.

Como fazer de Portugal uma Nação Startup

Se queremos assumir o estatuto de Nação Startup, temos de assumir a vontade de promover iniciativas empresariais disruptivas que criem emprego e abram perspetivas de futuro. Isto implica uma política de inovação radicalmente diferente em várias áreas, como a gestão e comercialização da tecnologia nas universidades, a flexibilização da lei laboral e os incentivos fiscais para a inovação, que abra espaço para as grandes empresas de amanhã, por entre o eucaliptal das grandes empresas de hoje.

Além do seu papel em termos de inovação, as startups (e as scaleupsstartups que já angariaram mais de um milhão de dólares) primam por um forte contributo para a renovação do tecido empresarial e para a criação de emprego (as empresas com menos de cinco anos em Portugal são responsáveis por mais de 46% do emprego criado anualmente), tendo também capacidade de atrair capital estrangeiro e de se revelarem apetecíveis para a aquisição por parte de outras empresas.

Desengane-se quem achar que se constrói uma verdadeira Nação Startup do dia para a noite. A nossa maratona já começou, há muitos anos, sem que disso nos apercebêssemos. Graças às nossas universidades, à democratização da educação e ao acesso ao ensino superior ocorreu uma transformação radical nas características da mão-de-obra nacional. Hoje os nossos jovens falam várias línguas e possuem um elevado grau de diferenciação técnica e científica nas mais diversas áreas, como as ciências da vida, as tecnologias de informação ou a engenharia. A qualificação dos jovens portugueses atrai cada vez mais empresas tecnológicas estrangeiras a instalarem-se em Portugal, como é o caso da Miniclip (Lisboa), Pipedrive (Lisboa), Natixis (Porto), entre muitas outras.

Eu próprio, ao regressar a Portugal em 2011, terminados os meus estudos, não tive dificuldade em convencer dois colegas estrangeiros a tornarem-se meus sócios numa aventura made in Portugal. Isso deveu-se ao facto de Portugal ser uma boa porta de entrada para o resto da Europa e uma ponte para exportar e investir noutros mercados fora da Europa, nomeadamente para o vasto mercado dos países de língua portuguesa, mas também para a China e para a Índia.

Seis anos volvidos, é inegável que a realidade nacional mudou. Se o empreendedorismo foi por muitos apelidado de moda, hoje em dia corremos um sério “risco” de que essa moda se torne uma tradição nacional. E é precisamente em torno dessa consolidação que juntos, empreendedores, investidores, governo, universidades, empresas e cidadãos temos de nos unir.

O povo português

Os portugueses são um povo bravo, resiliente e capaz de ultrapassar a adversidade. Essas características estão-nos no sangue. Foi graças a esse património que partimos em caravelas rumo ao desconhecido. Nessa altura, estou certo, também os nossos antepassados terão sentido medo de falhar, mas nem isso os impediu de arriscar e de colocar o mundo ao nosso alcance.

No dia em que, antes de qualquer outro primeiro emprego, cada jovem português considerar seriamente a possibilidade de arriscar, sem medo de falhar, e criar o seu próprio negócio, Portugal será uma verdadeira Nação Startup. Esse dia está próximo e consigo trará tempos de mais prosperidade. Nesse dia “cumpriremos Portugal”.

Miguel Santo Amaro tem 28 anos e é um dos fundadores da Uniplaces.com, o principal portal de alojamento universitário a nível mundial. A partir da sua sede em Lisboa, a Uniplaces conta já com 160 colaboradores com presença nas principais cidades europeias e já angariou mais de 30 milhões de euros de investimento português e estrangeiro para acelerar o seu crescimento. Miguel é também um dos membros fundadores da Entrepreneurship Organisation em Portugal e foi um dos primeiros membros a integrar o Global Shapers Lisbon Hub. Anteriormente, concluiu a Licenciatura em Finanças, Contabilidade e Gestão na Universidade de Nottingham no Reino Unido, seguido do Mestrado em Gestão e Empreendedorismo Global na Babson College nos EUA.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo sobre a inovação social. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

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