Durante décadas, o Partido Social Democrata foi associado a uma ideia simples e mobilizadora: irreverência reformista e capacidade de mudar Portugal. Hoje, essa marca parece diluída num consenso que atravessa quase todo o arco político. Basta observar o tom, a linguagem e a postura dos principais protagonistas: são quase todos iguais — e, mais significativo ainda, pensam quase todos da mesma maneira.

O chamado “estilo português suave” tomou conta do sistema. Da esquerda moderada à direita prudente, instalou-se uma política de cautela permanente, de palavras medidas e de aversão à rutura. Uma política de “pezinhos de lã” que evita o conflito e trata a mudança como ameaça. O resultado é conhecido: problemas estruturais persistem, reformas ficam a meio e a esperança esgota-se.

O voto dos portugueses tem refletido esse cansaço. Não é um voto irrefletido, mas lúcido e exausto. Muitos eleitores não pedem radicalismo; pedem mudança real. Estão fartos de uma esquerda moderada generosa no discurso e pobre na execução. Estão igualmente cansados de um centro-direita excessivamente cuidadoso, incapaz de assumir riscos políticos claros — com a exceção evidente de Pedro Passos Coelho, que governou assumindo custos e consequências.

Na prática, centro-esquerda e centro-direita aproximaram-se perigosamente. Não tanto nas soluções, mas na incapacidade de transformar. Tornaram-se semelhantes na delicadeza excessiva, no conservadorismo disfarçado de moderação e na recusa sistemática de decisões verdadeiramente fracturantes. Para muitos portugueses, o diagnóstico é simples: “são todos o mesmo”.

É neste contexto que João Cotrim de Figueiredo, correndo por fora, conseguiu destacar-se. Não por consenso, mas por diferença. Falou de outra forma — e isso o centrão não aprecia. Não se trata de adesão ideológica, mas de constatação política: num sistema saturado de prudência, quem rompe o tom ganha espaço. É precisamente essa diferença que muitos portugueses procuram.

Este desencontro entre cidadãos e elites políticas não é exclusivo de Portugal. Tornou-se recorrente na Europa, com epicentro em Bruxelas. As elites tradicionais lamentam o surgimento de figuras disruptivas, mas raramente enfrentam a causa profunda do fenómeno: a incapacidade de melhorar concretamente a vida das pessoas.

Essa constatação começa a emergir noutros contextos. Mark Carney, no Canadá, reconheceu que o discurso de Donald Trump rompeu o status quo das relações internacionais e precipitou uma nova ordem mundial. Mas enfrenta desafios internos enormes: pressão sobre a classe média, exclusão habitacional dos jovens, imigração em larga escala e uma polarização política até há pouco estranha à realidade canadiana.

Enquanto o mundo muda por necessidade, Portugal prepara-se, com notável serenidade, para coroar um novo Presidente da República. António José Seguro é uma figura correta e institucionalmente confortável. Mas representa, com inquietante precisão, aquilo de que muitos portugueses dizem estar fartos: distância entre palavras e prática, idealismo inconsequente e incapacidade estrutural para ser motor de mudança.

As semelhanças com o sampaísmo não se esgotam no estilo. Estendem-se à própria encenação de sobriedade institucional, pensada para evocar um tempo em que a Presidência era sobretudo lugar de palavra e símbolo. O país não se prepara tanto para o eleger como para o coroar: não como agente de mudança, mas como guardião de uma continuidade confortável.

O problema, por isso, não é saber quem o PSD ou o PS devem apoiar. É mais profundo: o risco de termos, uma vez mais, um poder político que não transforma Portugal. Um poder sem discurso mobilizador e, sobretudo, sem ação. Amarrado a uma forma de fazer política que já não entusiasma, já não convence e para a qual os portugueses perderam a paciência.

Quando a política evita sempre a rutura, a mudança deixa de ser um objetivo e passa a ser apenas um discurso.

E um país governado assim, não avança — acomoda-se ao cansaço.