O relatório Health at a Glance 2025, divulgado na passada semana pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), pinta um retrato tão surpreendente quanto inquietante da saúde em Portugal. O país surge como um caso típico de “paradoxo epidemiológico”: consegue uma das esperanças de vida mais elevadas da Europa, mas apresenta desempenhos fracos em qualidade de vida, bem-estar e capacidade funcional, especialmente entre as populações mais velhas e com doenças crónicas.
Os dados não são novos, mas ganham agora uma nitidez particular quando se cruzam três dimensões fundamentais analisadas pela OCDE — estado de saúde, despesas em saúde e força de trabalho em saúde. O resultado é claro: Portugal vive muito…, mas vive pior do que seria expectável.
Um país que sobrevive bem, mas não vive bem
Comecemos pelo lado positivo. Portugal continua a destacar-se nos indicadores de sobrevivência:
Esperança de vida elevada, próxima da de países como Itália ou Espanha.
Mortalidade evitável em níveis adequados ao volume de despesa — ainda distante dos campeões europeus, mas longe dos piores.
Mas este sucesso convive com um conjunto de fragilidades profundas. Segundo o relatório, os portugueses:
Avaliam o seu estado de saúde como pior do que a média da OCDE.
Expressam níveis particularmente altos de limitações funcionais após os 65 anos — comparáveis aos do Japão ou Lituânia.
Entre pessoas com doenças crónicas, revelam uma das piores perceções de saúde e funcionamento social entre todos os países analisados.
Resumindo: Portugal é muito eficaz a evitar que as pessoas morram cedo, mas é muito menos eficaz a garantir que vivam bem, com autonomia e qualidade de vida.
Despesas moderadas e famílias demasiado expostas
A estrutura de financiamento ajuda a explicar esta dicotomia. Portugal dedica uma percentagem do PIB à saúde semelhante ou ligeiramente acima da média da OCDE — mas como o PIB per capita é mais baixo, gasta menos por pessoa do que os seus pares da europa ocidental e do sul.
Esta restrição financeira tem impactos diretos:
Dificulta o reforço de equipas multidisciplinares, essenciais para gerir doentes crónicos.
Compromete o investimento em cuidados comunitários, reabilitação e cuidados de longa duração.
Limita a renovação tecnológica e a expansão de serviços inovadores.
Ao mesmo tempo, apenas 60% da despesa em saúde é pública, quando a média da OCDE ronda os 75%. Na prática, as famílias portuguesas pagam mais do seu bolso — o que gera atrasos no acesso, menor equidade e descompensações que se agravam silenciosamente até chegarem aos hospitais ou urgências.
A esta equação junta-se outro problema estrutural: Portugal é um dos países que menos investe em prevenção, com 2,3% da despesa total em saúde — contra 3,4% no conjunto da OCDE. Menos prevenção significa diagnósticos mais tardios, gestão menos eficaz de doenças crónicas e maior probabilidade de perda funcional nos idosos.
Força de trabalho desequilibrada: muitos médicos, poucos enfermeiros
A peça central deste puzzle, porém, está na força de trabalho em saúde. O relatório da OCDE volta a sublinhar uma característica muito portuguesa: o país tem muitos médicos e poucos enfermeiros.
Com mais de 5 médicos por 1.000 habitantes, Portugal está acima de quase toda a OCDE. Mas ao nível da enfermagem, o cenário é oposto: a densidade é abaixo da média, e muito longe de sistemas de saúde como os da Suíça, Finlândia ou Noruega. Os salários mais baixos dificultam a retenção e a atração de novos profissionais, agravando o desequilíbrio.
Esta assimetria tem consequências práticas:
Cuidados demasiado medicalizados, com pouca intervenção de enfermagem e reabilitação.
Equipas de cuidados primários a operar no limite, com recursos insuficientes para gerir a multimorbilidade.
Falta de capacidade nos cuidados continuados e cuidados de longa duração, altamente dependentes de enfermeiros e assistentes sociais.
Maior dependência dos hospitais e menor orientação para modelos comunitários.
No fundo, o país garante bons “atos médicos”, mas falha no apoio diário, na continuidade e na promoção da funcionalidade — dimensões críticas numa população envelhecida.
O paradoxo português faz sentido (infelizmente)
Quando se articula o estado de saúde, a despesa e a força de trabalho, o panorama torna-se coerente:
A expectativa de vida é alta porque há muitos médicos, boa capacidade hospitalar e um legado forte de cuidados primários.
A saúde percebida é baixa porque há poucos enfermeiros, pouca prevenção, fraca coordenação e recursos insuficientes para apoiar a funcionalidade.
O sistema é ineficiente porque está desequilibrado: investe bem em sobrevivência, mas mal em qualidade de vida.
E agora? O que realmente falta fazer
O relatório da OCDE não deixa dúvidas: o problema de Portugal não é apenas quanto gasta, mas como gasta.
As prioridades são claras:
Reforçar a enfermagem e reequilibrar a força de trabalho.
Expandir cuidados preventivos, comunitários e de reabilitação.
Investir seriamente em cuidados de longa duração.
Aumentar a participação pública no financiamento, reduzindo a carga sobre as famílias.
Aproximar o investimento em prevenção dos padrões da OCDE.
Portugal já conquistou o desafio de uma longa vida (Lifespan). Agora precisa de acrescentar a qualidade de vida (Healthspan).
Se não reformarmos e reorientarmos o sistema, continuaremos a viver muitos anos — mas anos vividos com mais doença, mais limitação e mais dependência. E esse não é o futuro que um país envelhecido pode dar-se ao luxo de aceitar.