Cumpre, antes de mais, esclarecer um equívoco que tem dominado o debate público. A crítica recorrente que acusa os agricultores portugueses de incoerência, por se queixarem ora da falta de apoios ora do excesso de intervenção estatal, assenta num pressuposto profundamente errado. Não está em causa a ação soberana do Estado, nem a defesa de um sector entregue ao improviso. O que verdadeiramente se contesta são as imposições emanadas de Bruxelas, moldadas segundo interesses alheios e distantes da realidade concreta do nosso território.
As orientações europeias chegam com a elegância do papel timbrado, mas raramente com o peso do conhecimento directo. Legisla-se como quem move peças num tabuleiro abstrato, convencido de que o clima, os solos e as práticas agrícolas de Portugal são intercambiáveis com os de qualquer outra região. A verdade é outra. O país possui uma ruralidade que exige sensibilidade, prudência e compreensão, qualidades difíceis de encontrar em decisões tomadas a quilómetros do primeiro campo que pretendem regular.
Há quem julgue que o destino do mundo rural pode ser definido em gabinetes lustrosos, mas a prática mostra o contrário. Quando os decisores nacionais já se mostram pouco familiarizados com o labor agrícola, limitando-se a apreciá-lo de maneira quase cerimonial através de um prato de vaca Barrosã, os decisores europeus conhecem Portugal sobretudo pelas suas praias, onde se posicionam de frente para o mar e, inadvertidamente, de costas para o país real. Daí nascem políticas que parecem escritas para uma paisagem que não é a nossa.
Não surpreende, portanto, que os agricultores protestem. Não o fazem por capricho nem por nostalgia de um passado imutável. Fazem-no porque lhes pedem para sobreviver num enquadramento que não os reconhece, que confunde metas uniformes com justiça e que trata a diversidade agrícola europeia como um contratempo inconveniente. Há limites para o sacrifício quando o que está em risco é a continuidade de um modo de vida que alimenta o país.
Convém também recordar à cidade a facilidade com que adota um tom de superioridade moral sempre que discursa sobre o campo. Esquece-se, talvez por conforto, que o progresso urbano não nasce do ar urbano. A agricultura não é um obstáculo à modernidade, mas um dos seus fundamentos mais sólidos. O campo não vive da indulgência da cidade; a cidade vive da persistência do campo.
A verdade mantém-se simples e irrefutável. Se o campo não planta, a cidade não janta. E uma cidade que não janta não cumpre função alguma, por mais sofisticada que se imagine. A prosperidade nacional depende de políticas que respeitem quem cultiva a terra e que não confundam eficiência administrativa com sensibilidade territorial.
Talvez seja tempo de exigir menos deslumbramento distante e mais responsabilidade concreta. Portugal não pode ser governado de costas para o interior. E quem ignora o campo, cedo ou tarde, perde o país.