Se existe literatura espiritual que aprecio são as Razões de Martín Descalzo. No outro dia, numa das minhas leituras espirituais encontrei uma história que desejo partilhar convosco. É a história de um cavalo. Não um cavalo qualquer, mas o cavalo de Alexandre Magno.
Diz a lenda que só Alexandre Magno era capaz de montar o cavalo. Muitos outros tinham tentado, mas fracassaram. Só Alexandre soube observá-lo com atenção e descobrir o segredo do cavalo. Qual era o segredo de Alexandre? É que aquele animal assustava-se com a própria sombra. Bastava apenas deixar de a ver para que o animal se esquecesse dos seus medos.
A história é simples, mas carrega consigo uma enorme sabedoria. Alexandre não venceu o cavalo pela força, nem pela violência, mas pela compreensão. Em vez de lutar contra o medo do animal, ajudou-o a colocá-lo de lado. Não precisou de outro cavalo; bastou-lhe ensinar aquele a não viver prisioneiro da sua sombra.
Penso que o mundo está cheio de gente como este cavalo: cheios de medo do próprio passado, incapazes de trotar para o futuro, porque os espantam as recordações que não os deixam ser quem são. Há quem viva como se carregasse às costas um espelho voltado continuamente para trás, revendo, repetindo, revivendo o que já passou, como se o passado fosse uma sentença sem apelo nem perdão.
É triste encontrar tantos jovens que confundem arrependimento com morbosidade, que vivem constantemente a remexer os excrementos da sua alma com o palito da memória e acreditam que com isso dão glória a Deus. Passam a vida a olhar para as feridas, a medir-lhes o diâmetro, a catalogar-lhes as dores, mas nunca permitem que cicatrizem. Julgam-se piedosos por voltarem sempre ao mesmo lugar escuro, quando, na realidade, apenas se tornam prisioneiros de si próprios.
O arrependimento no Evangelho é algo mais simples e mais libertador: é virar uma página e começar de novo. Não é passar a vida a revolver-se diante de Deus com gritos de piedade por aquilo que Deus já perdoou. Deus esquece, mas nós insistimos em lembrar-Lhe o que Ele já lançou ao mar. Há quem faça da culpa a sua morada habitual e quase tenha medo de ser perdoado, como se o perdão fosse uma ousadia grande demais para a sua pobre vida.
Na vida sucede o mesmo. Há gente que, porque um dia teve uma avaria no carro da sua vida, passa o resto dos seus dias examinando o motor sem nunca mais dar uma volta com ele. Ficam parados na berma, capot aberto, olhar fixo na mesma peça ferrugenta, comentando eternamente o que falhou, sem nunca voltar à estrada. Como um dia fizeram uma asneira, parecem sentir-se na obrigação de continuar a fazê-la para todo o sempre. Confundem o arrependimento com obstinação no mea culpa, como se conseguissem mais perdão conforme o número de vezes que o pedissem, como se Deus calculasse o amor com base em contagens e repetições.
Tropeçar uma vez faz parte do ofício de viver. Ter um fracasso é inevitável. Um colega meu disse-me que, tal como vão as coisas, já é muita sorte sairmo-nos bem de uma entre quatro aventuras que se empreendem. A vida não é uma linha reta, é um caminho cheio de curvas, pedras, poeiras e reencontros. O problema não está nos tombos, mas quando alguém se assusta com esses fracassos e passa a viver à sua sombra, como o cavalo de Alexandre. Há quem deixe de amar porque um amor correu mal, quem deixe de confiar porque alguém o desiludiu, quem deixe de sonhar porque um sonho caiu ao chão.
Somos muitas vezes como o cavalo de Alexandre e não dominamos os nossos medos. A nossa própria sombra — o que fomos, o que errámos, o que não conseguimos ser — cresce desmedidamente diante de nós e paralisa-nos. Mas acontece que existem muitos “Alexandres” prontos e treinados para ajudar a vencê-los, ou melhor, a dominá-los. Às vezes são pessoas simples, outras vezes um amigo, um confessor, um gesto de ternura, uma palavra inesperada, um perdão recebido ou dado. Outras vezes é simplesmente Deus, que vira suavemente o nosso rosto para outra direção para que a sombra deixe de nos assustar.
A grande arte da vida espiritual não consiste em deixar de ter sombras, mas em aprender a não viver de frente para elas. O Evangelho não nos promete um passado sem falhas; promete-nos um futuro aberto. Não nos pede para nos fixarmos eternamente nas quedas, mas para nos levantarmos e caminharmos. O cavalo de Alexandre continuou a ser o mesmo cavalo, com as mesmas pernas, a mesma crina, a mesma sombra. O que mudou foi o modo como olhava.
Também connosco será assim: não se apaga o que vivemos, mas pode mudar radicalmente a forma como o olhamos. E, quando isso acontece, a sombra deixa de mandar e o caminho volta a abrir-se