Sou militante do CDS e membro da respetiva Comissão Política Nacional e, como mulher, senti-me ofendida pelo texto que Joana Bento Rodrigues publicou no Observador. E afirmo que várias posições políticas do CDS, assumidas por mulheres e por homens, divergem do argumento de fundo do artigo em causa: que apenas e tão só por ser mulher há coisas que devo e coisas que não devo fazer ou ambicionar.

Pessoalmente não só discordo frontalmente do que lá é escrito, como estou convencida que é esse tipo de pensamento que limita e muito a felicidade de muitas mulheres, mais e menos jovens. Mulheres que se realizam por serem profissionais reconhecidas, que valorizam o seu currículo e as posições de topo que assumem nas várias organizações. E que, em simultâneo, têm uma família, têm filhos e, nas palavras de Joana Bento Rodrigues, realizam o seu potencial feminino, matrimonial e maternal.

Considero-me uma dessas pessoas: não só ocupo posições de relevo nas diferentes organizações onde trabalho, sou diretora da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e sócia da PLMJ Advogados; como sou mãe de 4 filhos e vivo feliz numa “relação estável” há quase 20 anos.

É, pois, com enorme tristeza e revolta que leio, em 2019, textos como estes que diminuem as mulheres, o seu papel na sociedade, o seu potencial profissional, a sua importância nas organizações e, pior que tudo, que fomentam a infelicidade das próprias mulheres.

Porque são textos como estes, são pensamentos absurdos como estes que condicionam as mulheres, que põem escolhos na sua ambição, como se algo de vergonhoso fosse, que as impedem de dizer “eu também quero lá chegar”.

Não questiono a escolha pessoal de Joana Bento Rodrigues de viver com os critérios que entende ajustados. Mas não aceito que estenda o seu compasso moral a todas nós.

À pergunta que a autora faz “Quantas mulheres estarão dispostas a abdicar da maternidade e de um casamento feliz, em nome de uma carreira de sucesso?” eu respondo “Quantas mulheres sabem que podem ser felizes com a sua ambição?”

Porque o difícil não está em ser inteligente e competente, em ser capaz de ser a melhor; o difícil está em querer ser a melhor, em dizê-lo claramente, em assumi-lo frontalmente perante quem quer que seja. O difícil está nos últimos degraus da hierarquia, onde a competitividade não tem limites. Onde só quem tem a resiliência, a capacidade, a vontade e a ambição vence.

É nesses momentos, cada vez mais árduos quando o topo se aproxima, onde não há complacência, onde só quem é rijo aguenta, que as mulheres mais fraquejam. E porquê?

Porque pessoas como Joana Bento Rodrigues lhes dizem, sub-repticiamente, silenciosamente, mas permanentemente: isto não é para ti, o teu lugar não é aqui, tu não és assim pelo simples facto de seres mulher.

E com isto, perde a sociedade, perdem as organizações e perdem as mulheres que se deixam ficar para trás porque, lá no fundo, esse é o seu lugar.

Militante do CDS e Membro da Comissão Política Nacional
Diretora da Faculdade de Direito da Universidade NOVA de Lisboa
Sócia da PLMJ Advogados